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20/03/2015 17:00 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:35 -02

Com Rota à frente, Polícia Militar de SP caminha para igualar o recorde de mortes em 2015

Montagem/Estadão Conteúdo

O secretário de Segurança e o comandante-geral da Polícia Militar mudaram, mas a PM paulista mantém em 2015 uma letalidade muito parecida à do ano passado, quando PMs mataram quase 1.000 pessoas em 12 meses. Somente em 67 dias, entre janeiro e o início de março, 117 pessoas foram mortas em 27 cidades em confrontos com a polícia, segundo dados da Ouvidoria de polícia estadual.

A Rota (Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar), tropa de elite da PM de São Paulo, lidera a lista com 12 mortes atribuídas aos seus policiais. Pouco mais de 73% dessas mortes aconteceram na Grande São Paulo. “Ela (Rota) é o departamento que exerce essa postura com notoriedade. Tem, vamos dizer assim, ‘know-how’. Quando o policial vê que ninguém é punido, fica mais fácil apertar o gatilho”, disse ao jornal O Estado de S. Paulo o ouvidor Julio Cesar Neves.

Na grande maioria dos casos, a alegação dos policiais fala em troca de tiros com os suspeitos. A dinâmica lembra os já notórios autos de resistência, sempre usados para justificar essas operações. “A impunidade não é só para a bandidagem, é dos dois lados. Na grande maioria dos casos o arquivamento é requerido pelo Ministério Público e a Justiça aceita. Não chegam sequer a serem denunciados”, complementou Neves.

No início da semana, a Secretaria de Segurança Pública divulgou um novo procedimento para casos que envolvam policiais em São Paulo. Na prática, a medida tornará obrigatória a presença da Polícia Civil, da Polícia Militar e das corregedorias nas cenas de homicídios que envolvam agentes, sejam eles autores ou vítimas. Nesses casos, o Ministério Público também deve ser comunicado imediatamente, mas vai ficar a critério do órgão decidir se é necessário enviar um promotor de Justiça ao local.

De acordo com o ouvidor, o que se pede às autoridades é maior transparência quanto ao contexto que envolve cada uma dessas mortes. A eventual impunidade gera revolta popular – na Liberdade, uma suposta troca de tiros matou um jovem que, segundo testemunhas, estava apenas dormindo – e, em diversas vezes, possui características de execuções, levando adiante assim a famosa tese de ‘bandido bom é bandido morto’.

Entre os batalhões, a lista da letalidade dos batalhões responsáveis pelo patrulhamento de bairros e de cidades é liderada pelo o 16º Batalhão (16º BPM/M), cuja sede fica na Avenida Corifeu de Azevedo Marques, no Rio Pequeno, zona oeste de São Paulo. Os PMs desse batalhão mataram no período 26 pessoas em 20 ações.

O segundo batalhão do ranking é o 39º BPM/M, responsável pelo patrulhamento de parte da região de Itaquera, na zona leste. Ao todo, 21 pessoas morreram em supostos tiroteios com os homens dessa unidade. O terceiro colocado na lista é o Batalhão de Carapicuíba (19 mortes em 14 casos).

“Posso dizer que 95% dessas mortes deste ano serão arquivadas e se algum policial agiu contra a lei, ele não será punido (...). Um policial não pode prender, julgar e executar com um tiro um criminoso, um suspeito ou um inocente. Ele tem de prender e a Justiça julgar”, avaliou Neves, em entrevista ao G1. Nem a PM, nem a secretaria, se pronunciaram quanto aos dados da Ouvidoria.

‘Bancada da bala’ da Alesp reage

Os deputados estaduais Coronel Telhada (PSDB) e Coronel Camilo (PSD) – ambos ligados à corporação – reagiram aos dados divulgados pela Ouvidoria da polícia. Ambos defenderam a PM e, mais precisamente a Rota, e criticaram abertamente Neves.

“Queria convidar esse ouvidor que acha que sabe tudo de ocorrência policial, a se sentar pelo menos um dia numa viatura de ROTA e enfrentar um vagabundo com uma arma na mão (sic)”, escreveu Telhada em sua página no Facebook. O deputado ainda fez um discurso na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) para defender a classe.

Já Camilo defendeu as ações da PM e da Rota, que acontecem diante de uma “criminalidade muito aguerrida”, atendendo ao que a população, segundo ele, quer: “uma polícia firme”.