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17/03/2015 20:04 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:13 -02

Vincent Van Gogh pode ter escondido 'A Última Ceia' em uma de suas pinturas mais famosas

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Vincent Van Gogh, mais conhecido pela pintura A noite estrelada e por ter perdido sua orelha esquerda, pode ter guardado um último segredo na manga.

Sua icônica obra Terraço do Café à Noite retrata um grupo de clientes anônimos aproveitando a noite em Arles, na França.

Entretanto, novas pesquisas sugerem que as 12 pessoas à espreita, com uma figura central de cabelos compridos, uma outra indo embora de forma soturna e espectadores em dourado, podem não ser tão anônimas no final das contas.

Sim, é possível que uma das obras mais famosas de Van Gogh contenha uma alusão a uma pintura ainda mais famosa: A Última Ceia de Leonardo da Vinci.

Uma alusão religiosa não seria tão fora do normal para Van Gogh. Antes de se dedicar à pintura, o famoso artista holandês desejava "pregar o evangelho por todos os cantos", e seu pai, Theodorus van Gogh, era pastor da Igreja Reformada Holandesa.

O tio de Vincent era um renomado teólogo e acadêmico bíblico holandês que ajudou seu sobrinho em suas diversas tentativas fracassadas de se tornar pastor.

Finalmente, quando tinha entre 27 e 28 anos, Van Gogh começou a levar a arte a sério, aumentando seu ritmo e chegando a quase 900 obras na década anterior à sua morte, em 1890.

Dentre as centenas de obras, a maioria das pessoas provavelmente reconhece apenas algumas. A Noite Estrelada com certeza, mas talvez reconheçam também sua provável primeira tentativa de pintar um céu cheio de estrelas: Terraço do Café à Noite.

Mas quanto realmente sabemos a respeito da gloriosa representação dos comensais noturnos?

O pesquisador independente, Jared Baxter, sustenta algumas teorias a respeito do uso do simbolismo religioso por Van Gogh.

Na verdade, ele iniciou um circuito de palestras acadêmicas para defendê-las. A mais recente, realizada na Associação Holandesa de Estética em 2015.

A evidência na qual Baxter se baseia, embora seja apenas especulação, é convincente o suficiente para garantir consultas e cartas de recomendação de inúmeros acadêmicos e autores e estudiosos de Van Gogh, como William Kloss, especialista da Smithsonian Journeys.

Baxter basicamente acredita que Van Gogh tenha inserido sutilmente em Terraço do Café à Noite, A Última Ceia de Da Vinci, ou pelo menos o "gênero" das pinturas da Última Ceia, que com frequência mostram diferentes composições de comensais e versões da saída de Judas.

O que vem a seguir é o cerne do argumento de Baxter, explicado ao Huffington Post, então prepare-se para entrar em um mundo ao estilo Dan Brown.

Van Gogh incluiu potenciais elementos religiosos depois do esboço original de Terraço do Café à Noite.

Na época em que trabalhava no Terraço do Café à Noite, Van Gogh escreveu a seu irmão, Theo van Gogh, explicando que tinha uma "enorme necessidade de – e aqui devo talvez mencionar a palavra - religião", com referência direta à pintura. No seu primeiro esboço da obra (acima à direita), Van Gogh delineou basicamente um terraço de um café à noite, mas a obra finalizada (acima à esquerda) tem algumas alterações.

Na obra final, uma figura sombria pode ser vista saindo pela porta. Outros, em dourado, observam o grupo dos doze em um canto.

O amarelo, marca registrada de Van Gogh, incorpora-se à aparência celeste da cena, e a lamparina acima da figura central atua como uma auréola. O toldo é estendido ao longo do terraço para revelar de longe uma cruz.

Diversas cruzes aparecem na pintura, um simbolismo sutil visto outras vezes em Van Gogh.

Émile Bernard, amigo de Van Gogh e também artista, compartilhou Uma Mulher se Lavando com Van Gogh, uma pintura que usa uma janela para dar a entender que o sujeito da obra carrega uma cruz. A seu irmão, Van Gogh a descreveu como "rembrandtesca", uma alusão ao uso notório de simbolismo religioso pelo pintor.

Em Terraço do Café à Noite, Van Gogh incluiu uma cruz semelhante, acima do sujeito central, como uma esquadria horizontal única que sustenta as vidraças, ao contrário da janela do outro lado da rua. Indo mais além, é necessário um zoom considerável para ver outra cruz no peito da figura central.

Claro, esses símbolos religiosos podem não ser intencionais. No entanto, o historiador de arte japonês Tsukasa Kodera publicou diversos livros, nos anos 90, sobre o uso da mitologia e do cristianismo por Van Gogh, argumentando que em pinturas como "O semeador", também de 1888, Van Gogh "teria transformado aquele sol em auréola", como observou Baxter.

A professora da UCLA, Debora Silverman, escreveu em Van Gogh e Gauguin: A busca pela arte sagrada, que "a arte de Van Gogh havia evoluído em 1888 para um projeto simbolista que pode ser chamado de "realismo sagrado", um projeto de concretização do divino e da descoberta do infinito na tangibilidade ponderada."

O Retrato de Madame Roulin (La Berceuse) de Van Gogh, que mostra uma mulher sentada em uma cadeira, também poderia ser interpretado como a Madona, considerando-se a posição original da pintura entre duas das famosas representações de girassóis do artista.

Em uma carta a seu irmão, Van Gogh explicou o conjunto de trabalhos como "uma espécie de tríptico".

Autor de vários livros sobre Van Gogh, Evert van Uitert escreveu no Simiolus: Netherlands Quarterly for the History of Art, um jornal acadêmico trimestral holandês, que: "a imagem criada é a de um altar em que Madame Roulin assume o papel da Virgem Maria como Stella Maris... e os girassóis podem ser associados a Jesus Cristo".

Portanto, pode haver precedentes para a descoberta de simbolismo religioso nas obras de Van Gogh ao longo do tempo.

Van Gogh trabalhou na pintura "Interior de um Restaurante em Arles" várias vezes.

Acredita-se que a primeira versão tenha sido concluída em 1888, embora a data exata seja desconhecida. Baxter argumenta que ela representa outro tipo de cena de A Última Ceia, apontando para a figura central, os comensais posicionados de um lado da mesa, e a posição de destaque do vinho.

Na segunda versão da obra, Van Gogh adicionou ao primeiro plano o pão, e mais vinho e também alguém segurando o que parecem ser ramos de palmeira por sobre os comensais.

Além disso, Baxter acredita que a figura logo à esquerda, partindo do centro, vestida de azul, seja uma representação da famosa postura inclinada do apóstolo João da obra de Da Vinci.

A chave parece vir do simbolismo religioso do também pintor holandês Rembrandt.

Van Gogh foi fortemente influenciado pelos pintores simbolistas antes dele, principalmente o artista holandês Rembrandt van Rijn.

Van Gogh passava horas olhando fixamente a obra de Rembrandt, eventualmente tentando copiá-la.

Sua extensa correspondência fala dessa profunda admiração. Em uma carta de 1888, o ano em que pintou Terraço do Café à Noite, Van Gogh escreveu a Émile Bernard, romanticamente, afirmando que o poema do poeta Charles Baudelaire sobre Rembrandt não conseguiu capturar o artista de forma precisa.

Na Carta 649, Van Gogh escreveu que Baudelaire "não sabia quase nada sobre Rembrandt", pois ele não havia prestado atenção ao simbolismo.

Van Gogh faz uma referência direta à pintura O Boi Abatido de Rembrandt, exposto no Louvre, que ele parece acreditar ter um significado religioso. (O símbolo de São Lucas era o boi e ele é considerado o santo patrono dos açougueiros, doutores, estudantes, e você adivinhou, dos artistas.) Interpretações adicionais, como a do professor Kenneth Craig, da Universidade de Boston, sugerem que o boi é uma representação da crucificação de Jesus Cristo.

Van Gogh censurou Bernard por mais uma vez não ter prestado suficiente atenção e começou a pintar ele mesmo várias representações de um boi.

No final, as cartas de Van Gogh dão a entender que o artista realmente desejava reviver o simbolismo religioso sutil. E dessa forma, uma inspeção mais minuciosa da pintura Terraço do Café à Noite, pode, talvez, revelar suas intenções.

Van Gogh realmente faz referência a uma grande obra-prima de Da Vinci em uma obra sua?

A primeira vez que Jared Baxter decidiu entrar neste universo paralelo foi quando ele percebeu que ainda estavam sendo feitas grandes descobertas sobre a vida de Van Gogh, como o anúncio do Museu Van Gogh de que o autorretrato pintado por Van Gogh retratava provavelmente seu irmão.

Na mesma época, foi argumentado repetidamente (e de forma convincente), que Van Gogh não havia se matado, e sim sido assassinado por um valentão local.

Também foi argumentado que Van Gogh não havia cortado sua própria orelha (seu colega de quarto, Paul Gauguin, havia cortado).

Van Gogh pode ser um dos mais famosos artistas da humanidade, mas mesmo assim o que se sabe sobre sua vida é nebuloso, como a sua A Noite Estrelada.

"Quando estamos interpretando arte, temos que aceitar a possibilidade de não estarmos corretos... nunca é possível ter 100% de certeza", disse Baxter ao Huffington Post. "Penso que existem informações e evidências suficientes para gerar ao menos uma boa discussão".

"Acredito que, se colocarmos 12 historiadores de arte em uma sala", prosseguiu, "teríamos 13 definições diferentes sobre o que é a arte simbolista".

Procurar por uma resposta definitiva pode ser inútil.

Baxter afirma esperar que o mistério se pareça um pouco com o Código da Vinci de Dan Brown, pois se trata de uma teoria fascinante pela qual qualquer fã de arte se interessaria: uma das obras-primas mundiais escondida dentro de outra.

Para dar mais corda à conspiração brownesca, uma das cartas de Van Gogh está faltando, e pelas pesquisas de Baxter, as cartas posteriores fazem referência a ela.

O pesquisador independente acredita que a carta desaparecida é aquela em que Van Gogh "realmente apresentava seu plano para o significado da arte simbolista".

É a peça que falta no quebra-cabeças. "Tanto Gauguin quanto Bernard, querendo tomar o crédito pelo movimento, talvez tenham destruído a carta", presume Baxter. "É a minha teoria sobre o que aconteceu."

Alguém chame o Tom Hanks.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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