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17/03/2015 15:01 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:13 -02

Coreia do Norte mantém mais de 150 mil pessoas em regime de semiescravidão pelo mundo; salário vai para cofres do governo

AP Photo

Mais de 150 mil trabalhadores norte-coreanos são explorados em países como Rússia, China e Kuwait, e seus salários são destinados ao regime ditatorial de Kim Jong-un diante da indiferença da comunidade internacional, segundo denúncias de organizações de direitos humanos e dos poucos que conseguiram fugir da opressão.

"Prometeram-me US$ 120 (R$ 600) por mês, mas nunca recebi nada apesar de trabalhar de 12 a 16 horas por dia sem férias e feriados e em um calor insuportável", relatou o refugiado Lim Il, de 47 anos.

Após cinco meses como operário da construção civil no Kuwait, em 1997 Lim conseguiu escapar do lugar ao qual foi enviado junto com 1.800 compatriotas e chegar até a embaixada da Coreia do Sul, país onde vive hoje.

Quase dezoito anos após sua fuga, cerca de 154.000 norte-coreanos seguem engrossando linhas de produção de fábricas chinesas, derrubam árvores em florestas russas ou transportam blocos de concreto no Kuwait ou no Catar, geralmente sem remuneração, denunciam ONGs como a Human Rights Watch (HRW) e a North Korea Watch (NKW).

Mais da metade deles, cerca de 93.000, estão na China, outros 20.000 na Rússia e os demais estão no Oriente Médio e na África. Há ainda norte-coreanos trabalhando em regime de semiescravidão na Polônia e na República Tcheca, segundo dados do instituto Asan, de Seul.

As centenas de dólares mensais que lhes correspondem nunca chegam a seus bolsos, mas "são depositadas diretamente nas contas do governo norte-coreano, segundo o estipulado com os países de destino e as empresas", afirmou Ahn Myeong-chul, diretor da NK Watch, uma ONG fundada por refugiados que denuncia os abusos do regime de Pyongyang.

Em algumas ocasiões, segundo Ahn, os operários com mais sorte chegam a receber até 10% de seu salário, mas "desde que Kim Jong-un chegou ao poder [dezembro de 2011], não são pagos em dinheiro, e sim em cupons de racionamento para usar em lojas estatais ao retornarem para a Coreia do Norte".

Em 2013, o jovem Kim viu seus testes nucleares e de mísseis serem retaliados com novas sanções econômicas internacionais que o obrigaram a reforçar as velhas estratégias de captação de divisas, entre elas o envio de trabalhadores ao exterior.

"Acreditamos que o salário que os operários deveriam receber vai parar em um fundo secreto de Kim Jong-un de mais de US$ 3 bilhões de dólares, e com este dinheiro ele pode financiar os novos projetos de Pyongyang", disse o diretor da NK Watch.

Para manter a fidelidade de seus operários, apesar das péssimas condições trabalhistas, e impedir fugas, a Coreia do Norte mantém um estrito sistema de vigilância e doutrinamento nos lugares de trabalho no exterior, segundo Lim Il. "Não era permitido sair do local de trabalho", lembrou o refugiado, que descreve seu antigo espaço como "um enorme recinto cercado e controlado por pessoas enviadas pelo governo norte-coreano", embora com certas lacunas de segurança que lhe deram a oportunidade de escapar.

Este sistema de escravidão amparado pelo Estado - como define o diretor da NK Watch - permanece vigente desde 1967 com a cumplicidade dos países que aproveitam a barata mão de obra norte-coreana, e diante da passividade de outros governos e organismos internacionais.

A comissão da ONU que no ano passado documentou em um amplo relatório os abusos do regime, "não abordou, no entanto, este assunto, apesar de os operários norte-coreanos no exterior trabalharem em condições desumanas", lembrou Phil Robertson, subdiretor da divisão da Ásia da HRW.

Para acabar com esta prática abusiva, afirma Robertson, a HRW pediu à comunidade internacional que "pressione os países envolvidos" para que "cumpram estritamente com as leis trabalhistas" e vetem a presença dos supervisores do governo norte-coreano que vigiam e reprimem os trabalhadores.