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17/03/2015 19:31 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:13 -02

Conheça o produtor musical de 32 anos responsável pelos maiores sucessos do sertanejo universitário

Renato Pizzuto

De Michel Teló a Luan Santana, ele é o produtor musical que mais emplacou sucessos nas FMs do Brasil nos últimos seis anos.

Se você esteve em lugares habitados nos últimos três anos, seja em Londres, Cabrobó ou Bogotá, certamente foi bombardeado por alguma música produzida por Dudu Borges, 32 anos. Ai, Se Eu Te Pego!, do Michel Teló, te diz algo? Pois é.

Desde 2009, acontece no Brasil o renascimento da música sertaneja, reembalada para um público mais jovem e baladeiro, sem tanto foco na choradeira que a marcou historicamente. É a sua versão “universitária”, que mistura moda de viola e sanfona com country e pop-rock. No ano passado, por exemplo, mais da metade das músicas tocadas nas rádios do país (ver box) foi de alguma dupla ou cantor do gênero. Até dominar a lista das mais tocadas, no entanto, o estilo musical enfrentou o reinado do pagode e da axé music, que vinha desde meados dos anos 1990. E chegou com força.

O que Michel Teló, Luan Santana, João Bosco e Vinicius, Bruno e Marrone têm em comum, além dos milhares de plays diários em rádios e na internet (e milhões na conta bancária), atende pelo apelido de Dudu, uma espécie de serial hitmaker para as duplas universitárias.

Depois que entrei lá não saí. Aos 15, já tomava conta de tudo, comecei a gravar jingles e discos.

Nascido em Campo Grande (MS), Dimas Souza Junior, ou Dudu, teve a chance de bilhar num ramo tão popular quanto a música sertaneja, o futebol. O talento entre as quatro linhas garantiu por anos a bolsa de estudos que mantinha ele e o irmão num colégio particular da cidade.

Aos 13 anos, no entanto, algo mudou. O boleiro começou a faltar aos treinos. Havia descoberto a música, ou melhor, a vida num estúdio de gravação. Negócio de um primo, o tal estúdio ficava na rua de casa e virou sua segunda escola. “Depois que entrei lá não saí. Aos 15, já tomava conta de tudo, comecei a gravar jingles e discos.”

Claudio Abuchaim, parceiro desde essa época e hoje responsável por mixagens e acabamentos finais de tudo que é produzido por Dudu, viu de perto o tal clique que tirou o menino da bola e o levou para as teclas, e desconfiou de algo: talento. “Desde que começou a tocar teclados, ele evoluiu muito rápido, era impressionante.”

A história de tocar teclado veio do pai, Dimas, músico amador, de quem Dudu também herdou o nome. Em casa o pai tocava e a mãe, dona Ivani, cantava. Não demorou e logo ele entrou para a banda da igreja evangélica que frequentava desde a infância. Quatro anos depois de pôr os pés no estúdio do primo, ele já produzia as principais bandas gospel do estado, além de um sem-fim de jingles, de farmácias a supermercados passando por pet shops. A cidade já não comportava seu talento e ambição. Em 2000, aos 17 anos, Dudu avisou que tentaria a vida em São Paulo sozinho.

Os primeiros cinco anos na maior cidade do país foram de ralação e limitados ao universo gospel, no qual já era um pouco conhecido. A primeira virada veio com a ajuda de um amigo de Campo Grande, na época vocalista do grupo sertanejo Tradição. Michel Teló apresentou a Dudu a faixa Campeão de Bilheteria, que ficaria fora do DVD da banda por indecisões quanto aos arranjos. Ele não titubeou: “Deixa que eu faço. E fiz do jeito que eu imaginava”, relembra.

Até então, o Tradição tinha dificuldades de romper a barreira das rádios em São Paulo e no Rio, pois era considerado um grupo de pegada, como o nome indica, mais tradicional, com pouco apelo jovem. O novo arranjo transformou Campeão de Bilheteria numa balada e a faixa deslanchou nas rádios. Pela primeira vez, o nome do produtor começou a circular fora do meio evangélico.

O sucesso de Campeão de Bilheteria colocou Dudu no caminho de João Bosco e Vinicius, também do Mato Grosso do Sul, uma das duplas percussoras do sertanejo universitário. Primeiro um teste, os arranjos de Falando Sério. Deu liga e a produção do disco seguinte ficou com Dudu.

“Como eu sempre morei em Campo Grande, gostava de sertanejo, mas não era a minha vida. Então não sentia pressão, não pensava no tamanho do mercado. Como eles ainda não eram famosos, eu fiz do jeito que eu achava que tinha que ser, não me guiei por nada.” A dupla bancou a aposta e do disco saiu Chora, Me Liga, a música nacional mais tocada nas rádios em 2009. A boiada estourou.

Na sequência, veio o convite de Jorge e Mateus, um momento crucial para a carreira de Dudu, na avaliação de André Piunti, crítico especializado no universo sertanejo. “A dupla já arrastava grandes públicos, e Dudu foi um dos principais responsáveis por arriscar algo novo para uma carreira em ascensão”, analisa. Por “algo novo” leia-se arranjos com influência de rock e soul, letras menos sofridas e levada dançante. “A partir desse momento ele passa a ser muito copiado e é quando você consegue perceber claramente que ele cria uma ‘assinatura’ nas produções”, diz Piunti. Amor Noite e Dia, gravada naquele álbum, ficou por três meses no topo das mais tocadas no Brasil em 2010.

O grande salto, no entanto, ainda estava por vir, e começou naquele ano mesmo, quando o sertanejo já rivalizava com a mesma força do pagode pelo topo das rádios. Foi quando Fugidinha caiu no colo do produtor. A música, de Rodriguinho, ex-vocalista do grupo Os Travessos, ganhou um banho de batidão e sanfona, e virou o hit do verão de 2011.

Cinco anos depois do sucesso de Campeão de Bilheteria, Teló e Dudu estavam juntos novamente. O primeiro, tentando firmar a carreira solo com um segundo disco, apareceu com Ai, Se Eu Te Pego!, música que achava um pouco boba, mas que caiu no gosto do produtor. “Se quiser a gente arranja e grava hoje mesmo”, avisou. O resto é história. Enquanto você lê este texto, o vídeo oficial da música no YouTube soma mais de 600 milhões de views e, somadas, as músicas produzidas por Dudu que estão na plataforma passaram de 1 bilhão de plays. “O bilhão redondo é legal, né?”, brinca Dudu, reclamando que um número quebrado não tem o mesmo efeito.

Dudu parece muito sincero quando diz que “não imaginava tanto sucesso”. O passo seguinte na carreira, com o pé de meia que se avolumava, era realizar o sonho que carregava desde a adolescência: ter seu próprio estúdio.

É numa casa de dois andares, no bairro da Aclimação, em São Paulo, que está o Studio VIP. Um bom conhecedor do ramo ouvido por VIP calcula que o empreendimento valha hoje uns 5 milhões de reais, por causa dos equipamentos de última geração ou relíquias como microfones e guitarras raras.

Há, inclusive, um pedreiro de prontidão no imóvel, pago para dar conta das expansões e novas ideias – a próxima é criar um terceiro andar aberto, com cara de rooftop. Além das amplas salas de gravação, o estúdio tem camarim, cozinha, sala de games e um pequeno bar. A decoração mistura quadros do Romero Britto, fotos de Elvis Presley e Jimi Hendrix e ostenta na parede da escadaria uma guitarra de Jorge Ben Jor, presente do próprio. Com autógrafo.

“Se eu fosse Roberto Carlos ou Jota Quest, procuraria o Dudu”, diz João Marcelo Bôscoli, produtor musical e filho da cantora Elis Regina."

Em 2011, Dudu teve o que seria uma honra para qualquer produtor brasileiro: a oportunidade de produzir uma faixa do autor de Taj Mahal, na gravação de uma parceria com Fiuk, filho do cantor Fábio Jr. Depois de saltar do gospel para o sertanejo, o nome de Dudu começaria a circular entre os da MPB. “Se eu fosse Roberto Carlos ou Jota Quest, procuraria o Dudu”, diz João Marcelo Bôscoli, produtor musical e filho da cantora Elis Regina, sobre o talento do campo-grandense para produzir pérolas talhadas para o grande público e as rádios.

Apesar de tantos sucessos acumulados em pouco mais de três anos, a partir de Chora, Me Liga, o produtor diz que até 2013 ainda não se sentia reconhecido. O chamado sertanejo universitário sofria preconceito no próprio meio, com críticas pesadas dos artistas mais velhos.

O que ele chama de “prova de fogo” veio com Bruno e Marrone. Sem uma hit avassalador como Dormir na Praça, de 2001, a dupla precisava de um upgrade musical e de uma nova baba para grudar nos ouvidos. Vidro Fumê, produzida por Dudu, virou então a mais tocada de 2013.

A segunda faixa mais tocada, Te Esperando, também tinha seu dedo, era de Luan Santana. Cê Topa, de Santana, foi a segunda mais tocada no Brasil em 2014. Tem a assinatura do produtor, também como compositor.

Entre os produtores se comenta que um disco produzido por Dudu não sai por menos de 500 mil reais. Quando confrontado com o valor, desconversa, mas deixa escapar: “Não cobro pelo álbum, mas por faixa. Então o total varia dependendo de quantas músicas o cara quiser”. Sacou?

Viciado em trabalho (“Eu só não moro no estúdio porque minha mulher não deixa”), ele mantém os hábitos simples de quando ainda morava com os pais e tinha pouca grana. O que come é preparado no estúdio mesmo e geralmente não cabe o adjetivo “gourmet”. Viaja pouco e as únicas extravagâncias com dinheiro coincidem com equipamentos e objetos que compra para o estúdio – uma coleção de instrumentos, sintetizadores e equipamentos sonoros que não para de crescer. É o seu vício.

Seguindo a linha de produtores renomados, Dudu – cujo disco predileto da vida é o superproduzido Dangerous (1991), de Michael Jackson – vive antenado, como o americano Pharrell e o inglês Mark Ronson, e não descarta um disco autoral. O formato já está até definido em sua cabeça: voz e piano, e um monte de convidados. Mas Dudu jura que não quer virar cantor.

Praticamente casado (pendência que ele promete resolver em breve), em breve vai ser pai pela primeira vez e, adivinha? Gêmeos. Pedro e João. Os amigos não perdoam: vem aí mais uma dupla sertaneja para dominar as rádios. Por enquanto, a lista de músicas mais tocadas no Brasil em 2015 é uma folha em branco. Mas é bom ficar de ouvidos atentos. Até dezembro, é muito provável que atrás de nomes de novas duplas sertanejas e hits grudentos esteja o do midas de Campo Grande.

Pode ser coincidência, mas desde 2009, quando Chora, Me Liga foi a música nacional mais tocada nas rádios, a presença da música sertaneja não parou de crescer na lista das mais executadas. Em 2010, o estilo superou a música pop (incluindo internacional) e, em 2014, deu uma lavada – 59% do total tocado. E a tendência deve se manter em 2015. “2014 foi um ano bom, de renovação. Se você pegar a lista de clipes mais assistidos do YouTube no ano passado, no top 10 há três sertanejos, e nenhum deles faz parte da lista de consagrados que o grande público já conhecia: são eles Lucas Lucco, Marcos e Belutti e Henrique e Juliano”, afirma André Piunti.