NOTÍCIAS
13/03/2015 17:39 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:12 -02

#SwissLeaks: Torturador na ditadura, delatores da Petrobras e ex-diretores do Metrô de SP aparecem em lista de brasileiros com contas no HSBC

Montagem/Estadão Conteúdo

O ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa, um dos principais delatores da Operação Lava Jato, está na lista do HSBC entregue por um ex-funcionário do banco para autoridades e jornais de todo o mundo que resultou no escândalo #SwissLeaks. Entre as mais de 100 mil referências a personalidades de todo o mundo, uma das fichas trata do brasileiro que está no centro do escândalo envolvendo a estatal brasileira.

Nos próximos dias, uma força-tarefa da Polícia Federal e do Ministério Público Federal irá a Paris buscar oficialmente os dados referentes a essa relação bancária entre o HSBC e Paulo Roberto com um juiz da capital francesa. A partir da investigação será possível saber se o ex-diretor teve um relacionamento bancário com o HSBC não informada em sua delação premiada ou se é a mesma delatada por ele aos investigadores da Lava Jato.

Procurada, a Polícia Federal disse que aguarda instruções do Ministério Público para agir.

A decisão de pedir os dados para a França e não para a Suíça decorre do fato de que, em Paris, o ex-funcionário do HSBC que entregou os dados, Hervé Falciani, não é tido como um criminoso, enquanto para os suíços ele roubou dados protegidos do banco. Aos suíços, o Ministério Público vai pedir que considere que o País tem o direito de usar as provas recebidas da França porque a retirada da lista do HSBC não se tratou de um ato provocado pelo Brasil.

O Ministério Público Federal indicou que foi informado por fontes que tiveram acesso à lista que o nome de Costa aparecia no caso denominado como Swissleaks. Internamente, a revelação não surpreendeu os procuradores. Mas a decisão do MP foi a de instruir a Polícia Federal e à Receita Federal a não usar por enquanto a documentação para "evitar viciar" as provas e "invalidar" a informação.

Delação

Em seu acordo de delação premiada, Costa indicou que, no dia 13 de setembro de 2012, ele possuía "na conta 1501054, em nome da empresa Quinus Services S.A, no HSBC Bank, o montante de US$ 9.584.302,89 (nove milhões, quinhentos e oitenta e quatro mil e trezentos e dois reais e oitenta e nove centavos de dólares americanos)". A empresa offshore, segundo ele, foi aberta pelo doleiro Bernardo Freiburghaus e, depois de 2012, o valor foi repartido a outros quatro bancos.

Em sua ficha do banco de Genebra, porém, não está designado se o ex-diretor da Petrobras mantinha uma conta em seu nome ou se era apenas beneficiário de um fundo, de outras empresas ou simplesmente transitou com dinheiro pelo banco. O documento está listado no grupo de pessoas com "relações bancárias" com o HSBC. As fichas fazem referência a dados bancários até 2007.

O nome de Costa foi identificado graças ao acesso à lista fornecido pelo jornal suíço Le Temps, um dos meios de comunicação no mundo com um acordo para a difusão dos nomes do HSBC. A investigação do caso, que ficou conhecido como Swissleaks, foi feita pelo Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ, em inglês) em parceria com o jornal francês Le Monde, que obteve os dados do HSBC em primeira mão. A reportagem não tem acesso à documentação e obteve informações repassadas pelo jornal Le Temps.

Na ficha em que consta o nome de Paulo Costa Costa há a indicação de seu ano de nascimento, 1954, e o endereço: "Rua Tvaldo de Azambuja, casa 30, Barra da Tijuca, Rio de Janeiro, Brazil". Trata-se da Rua Ivaldo de Azambuja, onde o ex-diretor da Petrobras possui um imóvel. O documento traz ainda um número, 5090192330, uma referência a seu registro no banco. Não há na ficha nem o número de uma conta e nem valores. A data da relação entre o brasileiro e o banco também não consta.

Barusco

Costa não é o único nome da Petrobras na lista do HSBC. O documento também traz o do ex-gerente Pedro José Barusco Filho, o que já era conhecido diante de sua própria declaração à Polícia Federal. Segundo sua ficha, a conta foi mantida entre 1998 e 2005 e, em certo momento, chegou a ter US$ 992 mil.

Uma das informações que consta do documento é a ordem para que nenhuma correspondência seja enviada ao endereço de Barusco no Brasil, no Rio de Janeiro. Todas suas cartas, extratos, eventuais cartões e informações deveriam ser endereçadas à sede do próprio HSBC em Genebra. Uma pessoa de sua confiança ficaria responsável por recolher as correspondências.

Anos depois, o HSBC acabou com essa prática, admitindo que tais atitudes de impedir que uma correspondência fosse ao endereço do correntista seria um sinal claro de que o dono da conta quer esconder o fato de ter dinheiro no banco em Genebra.

Bancos suíços que mantiveram contas de Barusco, como o Lombard Odier, indicaram que foram as instituições financeiras quem alertaram às autoridades ainda em março de 2014 sobre as suspeitas em relação ao ex-funcionário da Petrobras.

Em sua delação premiada, Barusco admite que, a partir de março de 2014, teve problemas para transferir seu dinheiro ou fechar contas. Segundo ele, o dinheiro em vários dos bancos estava sendo "bloqueado". Na quarta, o MP suíço confirmou por meio de nota que abriu uma investigação penal em abril de 2014, antes mesmo da delação premiada de Barusco.

Nos meses que se seguiram, o ex-gerente tentou "blindar" seu patrimônio, pedindo a ajuda do doleiro Bernardo Freiburghaus para que abrisse novas contas e criasse um "trust". Quem também pedia ao HSBC não enviar qualquer tipo de correspondência ao Brasil era Paulo Roberto Buarque Carneiro, citado na lista do HSBC como "diretor da Petrobras". Por sua ficha, ele manteve uma conta entre 2003 e 2005. Os valores não foram revelados.

Torturador e traficante na lista

O nome de Aílton Jorge Guimarães, mais conhecido como Capitão Guimarães, está na lista dos correntistas do HSBC. Ele já foi condenado a 47 anos de prisão por corromper magistrados para liberar componentes de máquina de caça-níquel apreendidos pela Receita, porém continua em liberdade graças aos seus advogados. Segundo reportagem de O Globo, ele se envolveu em casos de tortura durante a ditadura militar, e chegou a ser preso por corrupção quando integrava as Forças Armadas.

Outro nome atrelado à relação brasileira é o do traficante colombiano Gustavo Durán Bautista, tido como braço-direito do traficante Juan Carlos Abadia, também aparece com conta numerada. Ambos viviam no Brasil até serem presos. Bautista está preso no Uruguai, enquanto Abadia foi extraditado para a Colômbia.

Caso Alstom também tem nomes ligados ao HSBC

Ao menos 23 personagens de dez casos de suspeita de desvio de dinheiro público ou fraude em instituições financeiras no Brasil mantiveram contas secretas no HSBC em Genebra, na Suíça, de acordo com informações que datam de 2006 e 2007. Na relação, há nomes envolvidos em casos de corrupção como Lava Jato, Alstom e Máfia da Previdência.

Em relação à Operação Lava Jato, um novo nome é o de Henry Hoyer de Carvalho, apontado como segundo operador do PP no esquema de desvio de dinheiro na Petrobras. Com relação ao Caso Alstom, em que a multinacional francesa é investigada por suspeita de pagar propina em contratos com o Metrô de São Paulo e referentes à construção da usina de Itá (RS-SC), aparecem Paulo Celso Mano Moreira da Silva e Ademir Venâncio de Araújo.

Sobre a Máfia da Previdência, fraude descoberta em 1992 que desviou US$ 310 milhões, os envolvidos são Ilson Escóssia da Veiga, Nestor José do Nascimento e Tainá de Souza Coelho.Os nomes dos correntistas do HSBC foram divulgados na quinta-feira (12), em reportagem do jornal O Globo, em parceria com o portal UOL.

O que é o Swiss Leaks

Os dados envolvendo brasileiros integram a revelação conhecida como SwissLeaks (vazamento na Suíça), que abrange um acervo de informações sobre 106 mil clientes do banco de 203 países, incluindo o Brasil, com 8.687 correntistas. A investigação jornalística mundial é comandada pelo ICIJ, sigla em inglês para Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos, em parceria com o jornal francês Le Monde.

No total, foram movimentados um valor superior a U$S 100 milhões. A princípio, não é ilegal manter uma conta na Suíça, desde que ela seja declarada à Receita Federal e ao Banco Central.

(Com Estadão Conteúdo)

LEIA TAMBÉM

- Envolvimento da família Queiroz Galvão reforça ligação de ‘contas sujas' do HSBC com o escândalo da Petrobras

- HSBC leaks: 'O sistema é f***, e ainda vai morrer muito inocente'

- 'O Brasil precisa apresentar a fatura do desenvolvimento aos milionários sonegadores'

- Operação do HSBC no Brasil registrou prejuízo recorde em 2014

- Brasil investiga ligação entre contas do HSBC na Suíça e escândalo da Petrobras