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06/03/2015 16:22 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:12 -02

Reta final da CPI dos Trotes na Alesp recebe novas denúncias de estupros, violência e excessos na Unicamp, Unesp, Ufscar e USP

Montagem/Facebook e iStock

A poucos dias do seu término, a CPI que apura casos de estupros, trotes e outras violações de direitos humanos nas universidades do Estado de São Paulo recebeu mais uma série de denúncias, majoritariamente advindas de instituições do interior paulista. Assim como aqueles já relatados, os mais recentes também demonstram um alto nível de crueldade.

Nesta quinta-feira (5), o ex-aluno de Medicina da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Gines Villarinho, relembrou o terror que viveu em 2007. Ele afirmou ter sido obrigado a “lamber o chão” de um banheiro durante a recepção de calouros em seu ano, aspirar farinha de bolo e receber humilhações com cuspidas de cerveja no rosto. Villarinho disse ainda que presenciou um aluno veterano vomitando propositadamente em uma caloura, que julgou ser “feia demais”.

“Um veterano mandou que eu deitasse no chão, como se eu fosse uma prancha, subiu em minhas costas e começou a pular. Aí comecei a pensar que isso não era só uma brincadeira, que estava passando dos limites”, disse o ex-aluno da Unicamp. Os incidentes narrados teriam ocorrido em uma chácara em Paulínia (SP), em dois eventos que são realizados fora da universidade – o Churrasco e a Chopada, ambos organizados pela Associação Atlética, uma das entidades de alunos.

Villarinho comentou que existe uma graduação no trote, que vai dos alunos do primeiro ano, tratados como objeto de chacota, até os do sexto, que são intocáveis. Além disso, ao contrário do que possa imaginar, os trotes não se resumem a uma semana, mas sim durante todo o período de permanência na universidade, intensificando-se durante os jogos estudantis. De tão traumatizado, ele sequer quiser participar da festa de formatura.

Foi a segunda vez que estudantes de Medicina da Unicamp trouxeram os seus relatos à CPI. No início de fevereiro, 12 estudantes deixaram relatos de ingestão forçada de álcool e assédio sexual, tanto nas recepções de calouros como na Intermed. Relataram ainda a existência de um grupo de alunos chamados “kilts”, que usavam saias nos eventos e seriam mais violentos na prática dos trotes.

Vários dos veteranos da Unicamp citados – boa parte deles já formados – foram chamados para depor na CPI, mas alegaram nesta semana não terem constituído advogado e que não foram apropriadamente convocados. Mas nas redes sociais, é possível ver os motivos que os levaram à convocação por parte dos deputados, em postagens datadas de 2011.

Postagens mostram relação de veteranos com calouros quando estavam na Unicamp (Reprodução/Facebook)

Violência e abusos na Ufscar

No último dia 2 de março, uma socióloga foi alvo de estudantes da Faculdade de Estatística da Universidade Federal de São Carlos (Ufscar). Segundo matéria do jornal Metrô News, esses alunos promoviam, em uma república, o evento ‘Lei dos Bixos’. Durante o mesmo, eles começaram o ‘leilão das bixetes’, no qual as calouras são incentivadas a ficarem nuas.

Ao saber que uma garota de 17 anos encontrava-se em situação constrangedora, tirando apenas os sapatos enquanto estudantes gritavam “quanto vale”, a socióloga, integrante de um movimento feminista, se dirigiu ao local e começou a filmar com seu celular. Ela acabou surpreendida e, quando quis deixar o local, foi cercada pelos estudantes que a impediram de sair. Ela se machucou ao tentar escapar acabou se machucando e chegou a fazer um boletim de ocorrência na Delegacia da Mulher de São Carlos.

Na mesma instituição, outro relato envolveu uma estudante de doutorado na Faculdade de Sociologia. Lá, ela foi vítima de assédio moral e sexual por parte de um antigo orientador. Em protesto, ela raspou os seus cabelos. Ela denunciou o agressor com a promessa de sigilo, mas seu nome foi vazado pela própria coordenação do curso. De acordo com a estudante, ela sofreu com depressão e ataques de pânico e o seu caso foi desconsiderado pela universidade.

Estupros e ‘reforço’ na Unesp de Botucatu

Estudantes da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Botucatu também prestaram depoimentos na última semana na CPI da Assembleia Legislativa (Alesp). A aluna de medicina Marina Barbosa denunciou dois estupros cometidos em duas festas por estudantes da Unicamp. O primeiro aconteceu em abril do ano passado, com a vítima tendo sido obrigada a beber até perder a consciência. O segundo foi em setembro, em uma república. A sindicância desse segundo caso não avançou por ter acontecido fora do campus.

Já a aluna de biologia Mayara Martins falou das bebedeiras que ocorrem dentro do campus, com colegas chegando bêbados às aulas após o ‘almoço nas repúblicas, no qual é servido pinga e o chamado ‘reforço’ (uma bebida batida com alho, cebola, pimenta e lixo). Do mesmo curso, Dayane Pressato relatou que muitas vezes as caronas oferecidas por veteranos – o campus não possui um bom sistema de transporte, dizem os alunos – viram sequestros, com estudantes ficando ‘desaparecidos’ por mais de um dia.

O estudante João Henrique Silva Rizetto descreveu a festa conhecida como ‘Grande Família’, na qual calouros são obrigados a beber e buscar bebidas para os veteranos. Foi nessa festa que ele ficou sabendo de um outro estudante que acabou sendo trancado em um freezer, até quase desmaiar. “Isso tudo é traumatizante principalmente para os alunos mais jovens”, disse. Rizetto ainda teria sido agredido fisicamente e passou pelo deplorável ‘pascu’, trote que consiste em passar pasta de dente no ânus da vítima.

No campus Botucatu também foi relatada a existência da ‘escola do sexo’, para onde meninas são levadas e obrigadas a simular sexo oral, e de outros incidentes cruéis, como os jovens que são obrigados a cavar buracos para serem enterrados e terem de beber.

Descaso na USP

A mãe de uma aluna da Faculdade de Enfermagem da USP prestou um depoimento sob sigilo. O foco era o estupro sofrido pela filha dela, em 2012, praticado por um estudante da Faculdade de Medicina (FMUSP). Marginalizada, a vítima sofreu humilhações e acabou trancando a matrícula. “Houve total descaso por parte da diretoria da Faculdade de Enfermagem”, afirmou a mãe.

A situação chegou ao ponto da estudante ter de sair escoltada por duas vezes da faculdade, por conta de uma medida cautelar da Justiça que proibia o acusado de se aproximar dela. O jovem tido como autor do crime não sofreu nenhuma sanção e seguiu frequentando a FMUSP. A mãe da vítima comentou ainda que ela ouvia muito pouco das professoras que conheciam o caso. “O que vocês querem que a gente faça”, diziam elas, segundo a mãe.

Diretores e professores se defendem

Falando pela Unicamp, a professora Angélica Maria Bicudo, que foi coordenadora do curso de Medicina de 2007 a 2010, afirmou à CPI que nenhuma das denúncias chegou a ser formalizada. “Os fatos nunca foram relatados à coordenação”, reclamou. Mesmo quando recebia relatos, a professora afirmou que nunca vinham com nomes. “Os depoimentos são lacônicos, não podia abrir processos”.

Mesmo assim, a professora reconheceu a existência dos trotes e lembrou de um episódio em que um aluno desistiu do curso para fazer medicina na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), logo após participar da semana de recepção de calouros. Ela também disse que chegou a propor que o nome da Unicamp fosse retirado da Intermed, mas que não conseguiu apoio à ideia.

Também da Unicamp, o professor Ricardo Pereira, que também esteve na CPI, ressaltou a criação, em 2014, da Comissão de Apoio ao Estudante (CAE), que passou a receber denúncias e acolher os estudantes.

No caso relativo ao estupro na Faculdade de Enfermagem da USP, a diretora Diná Monteiro da Cruz explicou que o caso foi encaminhado para ser apurado pela FMUSP. O caso não teve sequência, de acordo com ela, por posição da própria vítima. Diná também disse desconhecer o trote ocorrido no mês passado, conhecido como ‘passo do elefantinho’, ocorrido no dia 13. Havia um comprometimento feito pelo reitor da USP, Marco Antônio Zago, de que os trotes não seriam admitidos em nenhuma faculdade neste ano – como manda uma lei estadual desde 1999.

A CPI promete apresentar o seu relatório final na próxima terça-feira (10). Para o presidente da comissão, deputado Adriano Diogo (PT), já há elementos suficientes para que se passe a considerar o trote no Estado de São Paulo como tortura, e não como lesão corporal ou atentado violento ao pudor, como acontece na maioria dos casos hoje. Sobre a morte de um estudante da Unesp em Bauru há uma semana, Diogo lamentou a falta de tempo hábil para a CPI investigar esse caso.

“Não teremos tempo, seria ótimo fazer uma audiência na Câmara de Bauru, como fizemos em Campinas. Por isso deixaremos uma orientação para que essa CPI tenha continuidade na próxima legislatura”, comentou, em entrevista ao Brasil Post.

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