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04/03/2015 15:38 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:12 -02

A incrível história da 'rainha na neurociência' e seu prêmio Nobel

Pascal Le Segretain via Getty Images
STOCKHOLM, SWEDEN - DECEMBER 10: Professor May-Britt Moser, laureate of the Nobel Prize in Physiology or Medicine acknowledges applause after he received his Nobel Prize from King Carl XVI Gustaf of Sweden during the Nobel Prize Awards Ceremony at Concert Hall on December 10, 2014 in Stockholm, Sweden. (Photo by Pascal Le Segretain/Getty Images)

Uma garotinha criada numa ilha distante. Sua cidade é pequena, e a população é profundamente religiosa. É proibido dançar; os familiares da garotinha falam em espíritos, e as superstições são abundantes. Seus pais enfrentam dificuldades financeiras e não têm formação universitária.

Mas a mãe, que no passado sonhou em ser médica, quer uma vida melhor para sua filha. Insiste que a menina estude muito e lhe lê contos de fadas em que os protagonistas superam a pobreza com sua inteligência.

“Nascemos nus e assim vamos morrer, portanto, não se preocupe com coisas materiais”, ela diz à filha. Em vez disso, faça aquilo que a apaixona.

Fast forward quarenta anos: a garotinha tornou-se a “rainha da neurociência”.

Com sorriso estampado no rosto, May-Britt Moser se levantou para aceitar o Prêmio Nobel de Fisiologia.

Seu trabalho ajudou a solucionar um problema “que preocupa filósofos e cientistas há séculos”, escreveu o comitê do Nobel, e ela foi a única mulher a receber um Nobel de ciência em 2014.

E, como acontece na maioria dos melhores contos de fada, houve uma história de amor. No ensino médio Moser foi colega de seu futuro marido, Edvard, mas eles mal se conheciam. Por acaso, escolheram a mesma universidade e se reencontraram ali.

Casaram-se ainda na faculdade e juntos criaram primeiro seus filhos, depois um laboratório de pesquisas.

Quando May-Britt se levantou para receber seu Nobel, Edvard fez o mesmo. O prêmio foi dado também a ele.

“Temos um projeto comum e uma meta comum”, disse Edvard Moser ao New York Times.

“Nós dois somos fascinados por ele. E dependemos um do outro para conseguir.”

May-Britt e Edvard passaram suas infâncias em ilhas no chamado “cinturão bíblico” da Noruega. Seu trabalho que lhes valeu o Nobel foi a descoberta das chamadas células de grade que compõem o “GPS do cérebro” – o sistema interno de mapeamento e navegação que ajuda os animais a identificar onde estão e onde estiveram.

Conversei com May-Britt Moser para o Sophia, um projeto do HuffPost para reunir lições de vida de pessoas fascinantes.

A cientista compartilhou sua sabedoria prática sobre como combater o estresse e dormir melhor, sobre criação de filhos, livros que a influenciaram a uma linda história sobre o melhor presente que ganhou na vida.

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Antes de lhe perguntar sobre sua vida, gostaria de saber se há alguma área nova de pesquisa que a interessa em especial?

Publicamos alguma coisa muito interessante sobre como os odores funcionam como “deixa” para a recuperação de memórias.

Todo o mundo sabe, é claro, que existem certos cheiros que nos levam diretamente de volta às recordações de nossa infância – cheiros natalinos e assim por diante. E temos Marcel Proust com seus belos poemas ligando cheiros e memórias

Pudemos demonstrar isso no laboratório. Criamos uma tarefa, ensinando a ratos que, se sentissem cheiro de chocolate, deviam ficar em uma posição, e se o cheiro que sentissem fosse de banana, deveriam ficar em outra.

Portanto, estamos falando em recordações olfativas e espaço ao mesmo tempo. Então entramos no cérebro e procuramos determinar o que acontece no cérebro quando o animal está aprendendo essas associações.

Conseguimos demonstrar que uma parte do cérebro – não a parte que contém as células de grade, mas sua “irmã”, o córtex entorrinal lateral – recebe informações sobre cheiros e então as transmite ao hipocampo [uma parte do cérebro que exerce papel crucial na formação de memórias]. Quando começam a oscilar juntos em determinada gama, o córtex entorrinal lateral está ensinando ao hipocampo sobre esse cheiro.

Mais tarde, quando uma ratazana farejava chocolate, por exemplo, um mapa espacial era expresso em seu hipocampo e a levava à posição certa.

No filme "Ratatouille", da Pixar, um crítico gastronômico sente o “efeito proustiano”, em que um cheiro e um sabor trazem à mente uma recordação vívida.

Você descobriu algum benefício concreto, para o cotidiano, das pesquisas relacionadas a seu trabalho?

Um artigo que tem sido especialmente útil é de Bruce McEwen. Esse estudo mostrou que, quando você submete animais a estresse, eles perdem sinapses, especialmente no hipocampo.

Isso me fez tomar consciência de estar estressada demais, porque sei que meu cérebro não funciona tão bem quando estou estressada.

Eu me treinei a encontrar tempo para exercitar o relaxamento corporal. Tenho alguns programas.

Só preciso ouvir as instruções, e são simples. Às vezes você só precisa apertar a mão bem forte e prender a respiração. Você prende, prende, sente toda a tensão, e então relaxa.

Você se concentra no que seu corpo sente quando você está realmente tensa e no que sente quando ele se descontrai.

Você realmente aprende a conhecer seu corpo. Mais tarde, em reuniões e ocasiões desse tipo, uso essa técnica para relaxar e tentar ser uma humana adulta em discussões difíceis. [risos]

E as pesquisas ligadas à memória com as quais você trabalhou, têm tido utilidade prática?

Acho que não faço uso suficiente do que aprendi. Provavelmente deveria usá-lo mais. Tentei uma vez, porque tive que dar uma aula em um curso de psicologia e queria me testar.

Usei a memória espacial e algumas outras deixas para ver se conseguia decorar o nome de todos os alunos de uma só vez. Falei a eles: “Quero aprender seus nomes agora, e em nosso próximo encontro vou mostrar o que fiz.”

Deu certo. Eu me lembrei de onde cada um se sentou e atribuí tipos a cada aluno – você me lembra disso ou daquilo. Então eu criava uma mapa mental e conseguir dar o nome de cada um.

Foi um teste que fiz comigo mesma, e agora sei que funciona. Mas é claro que eu também queria impressionar os alunos. [risos]

O vestido que May-Britt Moser usou na entrega do Nobel tinha um desenho de neurônios, baseado nas células que ela ajudou a descobrir.

“Um bom #estilista tem muito em comum com um bom #pesquisador. Ambos #buscam a excelência e perfeição. É preciso realmente #se concentrar sobre os #detalhes, e você não sabe qual será o #resultado final antes de obtê-lo.”—#MayBrittMoser comentando seu #vestido de #grade neuronal, criado pelo ex-#engenheiro #MatthewHubble (bom nome).💥@maybmoser #Prêmio Nobel #fisiologia #neurociência #moda #ciência #heroína #AVLadies @descience

Como você dorme? Tem algum truque ou dica para dormir melhor?

Meu lobo frontal não funciona bem. Quando saio com amigos, geralmente tomo uma xícara de café, e isso não me ajuda a dormir. Mesmo assim, faço isso toda noite. “Por que fui tomar aquele café?!” Não consigo parar, porque adoro café.

Eu estava falando disso com Mark Bear, do MIT. Estávamos falando de como é difícil entrar num padrão bom de sono quando você viaja muito, especialmente quando atravessa diferentes fusos horários.

Ele sugeriu que eu experimentasse um app chamado Sleep Cycle no meu iPhone. O app o acorda quando você está no sono REM, porque, se você acorda no meio do sono profundo, sente-se estressado; se acorda quando estava no sono REM, sente-se ótimo.

Experimentei o app. É maravilhoso. Posso ver quando adormeci e entender a qualidade de meu sono. Graças a isso, fico mais despreocupada em relação a meu sono.

Qual foi o presente mais memorável que você já recebeu?

Houve muitas coisas que me levaram à decisão de me casar com Edvard. Mas houve um presente particular que foi superespecial.

Ele me comprou um guarda-chuva lindo e grande, era enorme.

O guarda-chuva veio com um cartão dizendo “você precisa abrir”. Fiquei tão confusa. Por que ganhei um guarda-chuva? Por que tenho que abrir o guarda-chuva?

Então eu o abri em cima da minha cabeça, e choveram pedacinhos lindos de papel com pequenos poemas sobre mim. Dizendo como eu era fantástica. E eu fiquei assombrada.

Foi um espanto tremendo. Eu era muito jovem. Não tinha a menor autoconfiança. Ganhar aqueles poeminhas, tantos deles, que choveram do guarda-chuva. Fiquei.... uau!

Seus pais fizeram alguma coisa por você que poucos pais fazem e que teve um impacto duradouro?

Fui ensinada a ser muito forte e resistente. Minha mãe me dizia que eu não devia chorar e não devia ter medo de nada. Então, quando era garotinha, de repente passei a sentir pavor de cachorros.

Minha mãe ficou furiosa comigo. “Como é possível que os cachorros gerem essa reação em você?”, ela disse. “Isso é horrível, horrível.”

Em algum momento meu pai chegou, e ele não ficou bravo. Ele disse: “Ela precisa de um cãozinho que seja dela.” Eles me compraram um cachorro lindo, lindo.

E desde então, é claro que nunca mais senti medo de cachorros. Tive esse cachorro por oito anos. Ele era o animal mais lindo. Foi mais um presente maravilhoso. Meu pai tentou entender minhas emoções, não apenas para me apoiar, mas para me ajudar a mudar meu comportamento.

Alguma outra coisa?

Penso também em como minha mãe lia contos de fadas para mim. Ela gostava de me contar não histórias ruins, mas histórias que me

dessem esperança e força.

Eu tinha essa ideia de que era capaz de fazer qualquer coisa. Meus pais não fizeram faculdade, mas minha mãe, especialmente, queria ter feito. Ela sempre sonhou em ser médica e saber muito.

Quando penso naqueles tempos, isso foi importante para mim na ciência.

Minha mãe me disse: “Nascemos nus e vamos morrer nus; portanto, não ligue para coisas materiais, mas para aquilo que desperta sua paixão e para as coisas que você realmente quer fazer”.

Nos contos de fadas havia as pessoas pobres que usavam a cabeça para fazer coisas que outras pessoas não conseguiam. Foi uma lição importantíssima para mim.

May-Britt Moser recorda como reagiu quando teve a notícia do Nobel. “Por que vocês estão me telefonando?”

Seus filhos estão com 19 e 23 anos. Você tem algum conselho a compartilhar sobre como educar filhos adolescentes?

O que é importante é dar a seus filhos um ambiente em que eles possam se desenvolver, mas ainda dizer “os limites são estes. Você pode fazer isso, mas não aquilo.”

As brigas acontecem, e são brigas importantes. Elas permitem a seu filho dizer “sou um indivíduo, e você não pode me controlar”. Então nós, como pais, temos que dizer “sim, mas....’.

Tentávamos explicar as coisas de maneira detalhada. Inicialmente eles ficavam contra nós, mas depois de algumas semanas muitas vezes diziam ‘ok, a gente entende’.

Você já falou em ser extremamente focada sobre seu trabalho científico. Você se preocupa com o equilíbrio entre trabalho e vida? Ou seu trabalho profissional a interessa tanto que o equilíbrio vem naturalmente?

Acho que é exatamente essa a ideia. Sempre fui muito curiosa. Entender as coisas, saber mais sobre as coisas, isso é muito, muito bom. Se você tem prazer com alguma coisa, quer fazê-la mais e acaba ficando “viciada”.

De que modo você tentam transmitir isso a seus filhos?

Respeitar nossos filhos é extremamente importante para mim, e isso significa respeitar que eles são indivíduos, que têm sua própria vida emocional, suas próprias ideias.

Mas eu disse a eles: “Só quero que vocês mantenham portas abertas. Vocês ainda são muito jovens. Façam o possível para manter suas portas abertas.

Não me importa em que porta acabarem entrando, nós vamos lhes apoiar.” Se eles não se esforçassem na escola, fechariam todas as portas e então seriam obrigados a seguir por apenas um caminho.

Para mim, é muito doloroso ver pessoas fechando portas. Felizmente, nossos filhos se esforçam muito e têm paixão por alguma coisa.

Minha filha mais velha começou com biologia molecular e acabou fazendo medicina. Ela ama seu trabalho. Nós não a pressionamos. Apenas lhe dissemos: “Se você gosta disso, faça-o, por favor”.

Agora ela está trabalhando num hospital para idosos. Fiquei tão contente por ela ter feito isso.

Falei para ela: “Quando você trabalha com pessoas que são dependentes de você, precisa lembrar que ainda são gente”.

Porque, se você trabalha com pessoas que têm demência, que não reagem, fazem coisas desajeitadas, não conseguem se orientar, às vezes pode cair no hábito de não tratá-las como pessoas. E isso é horrível.

Minha filha voltou do trabalho um dia e disse: “Mãe, conheci um homem que estava tão doente que não conseguia falar. Sentamos juntos e olhamos fotos dele. E nós dois estávamos chorando.”

Sabe, quando seus filhos lhe contam de seu relacionamento com pacientes no hospital, e você os vê fazendo um trabalho tão bonito... Eu disse “uau. Esta é minha filha. Dá para acreditar?”

#MatthewHubble #MayBrittMoser #NobelLaureate2014 #1895MarieCurie #SubrinaO

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Que livros lhe deixaram uma impressão duradoura?

Temos três línguas na Noruega. Uma delas é o lapão, que não entendemos a não ser que tenhamos sido criados falando lapão ou o tenhamos aprendido na escola.

Temos a língua que herdamos da Dinamarca, mais germânica. E temos a língua que está mais ligada ao norueguês antigo e ao idioma dos vikings. É uma língua construída, e ler poemas nessa língua é encantador.

Henrik Ibsen é fantástico, é claro. Não sei se você já leu Ibsen. Os textos dele são tão belos que sua leitura é dolorosa.

E adoro os livros de Isabel Allende. Quando Edvard e eu começamos a viajar, me apaixonei pela América do Sul e o povo sul-americano, e quando li “A Casa dos Espíritos”, por exemplo, me senti como se tivesse voltado à América do Sul.

O livro também me fez volta à minha infância. Venho do cinturão bíblico da Noruega; as pessoas da minha família eram supersticiosas e viviam falando em espíritos. E o livro tem personagens femininas tão fortes. Assim, realmente me apaixonei pela obra de Isabel Allende.

Outro livro que adoro é de Toni Morrison, “O Olho Mais Azul”. Ela é uma autora maravilhosa, com muitos livros fantásticos; este é tão simples e curto.

É sobre uma menina afro-americana cujo pai a maltratava terrivelmente. Inúmeras coisas terríveis acontecem em sua vida. Foi tão doloroso ler. Mas ela tinha uma grande esperança.

Ela rezava, pedindo a Deus que lhe desse olhos azuis. Os olhos azuis exerciam um fascínio mágico; ela conseguisse olhos azuis, sua vida mudaria, ela seria feliz.

É quase como os contos de fada que minha mãe lia. Você tem esses sonhos, e são sonhos loucos. É claro que a menina não podia ganhar olhos azuis. Mas ela tinha o sonho. Através do sonho, podia ter esperança e continuar a viver.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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