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03/03/2015 13:56 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:12 -02

Organizadores de festa onde morreu estudante da Unesp tinham ligação com Atlética, apontam site oficial e perfil no Linkedin

Montagem/Reprodução Facebook e Atlética de Bauru

Apontados pela Polícia Civil de Bauru como sendo os organizadores da festa em que morreu o estudante Humberto Moura Fonseca, de 23 anos, Luís Scafi Menegatti, de 22 anos, e Gabriel Juncal Prudente, de 25, possuem ligação com a Associação Atlética da Unesp (Universidade Estadual Paulista Julio de Mesquita) de Bauru, no interior paulista, de acordo com o site oficial e postagens nas redes sociais. Oficialmente, a instituição não está ligada à organização da festa Interreps.

Na página da Atlética da Unesp de Bauru, Menegatti aparece com o apelido de ‘Noiva’ e também como integrante da gestão atual da entidade estudantil.

Estudante apelidado de 'Noiva' aparece na página da diretoria da Atlética (Reprodução)

Já Prudente dizia em sua página no Linkedin integrar a Atlética da universidade. Ele acabou deletando a página nesta segunda-feira.

Gabriel indicava estar ligado à Atlética da Unesp de Bauru (Reprodução/Linkedin)

O Brasil Post procurou a associação para esclarecer as informações. A resposta foi de que ambos não integram a atual gestão. Diante da insistência, com base nos dados disponíveis, a resposta foi a seguinte:

“A atual gestão da Atlética assumiu no início deste ano. Devido a reestruturação do nosso site, ele se encontra desatualizado. Por não se tratarem de membros da atual gestão, a Atlética não tem nada a declarar sobre o caso”.

Apesar da alegação do site estar desatualizado, a atual presidente e o seu vice constam na página da Atlética como membros da gestão atual. Ambos foram procurados pelo Brasil Post, mas não retornaram até a manhã desta terça-feira (3).

Defesa

O advogado Luiz Carlos Celso de Barros, que defende os dois organizadores da festa, afirmou que o evento não incentivava a competição conhecida como ‘Maratoma’, da qual Fonseca participou e a qual fez com que outros seis estudantes fossem internado no último sábado (28).

Barros também afirmou que a prova de resistência com consumo de vodca foi realizada por outro grupo de frequentadores da festa e os organizadores não tinham conhecimento. “Eles não tinham intenção de matar o colega”, completou o advogado.

Ao G1, o delegado seccional Ricardo Luís Martines disse que a alegação de desconhecimento não se sustenta, com base no que já foi apurado. “Comprovado por meio de documentação anexada ao inquérito, folder da festa, divulgação em redes sociais, por meio do vídeo que mostra claramente a competição, inclusive com o som do apito que identifica o início da competição”, revelou.

Após morte, página da festa foi deletada (Reprodução/Facebook)

A reportagem do Brasil Post conseguiu contato com a família de Gabriel Juncal Prudente, que preferiu não falar sobre o caso, dizendo que apenas o advogado é quem vai falar neste momento. Já Luís Scafi Menegatti não foi localizado até o fechamento desta matéria. Segundo o jornal O Estado de S. Paulo, apesar de a festa ter sido realizada fora das dependências da Unesp, a direção da universidade estuda punir os alunos envolvidos na tragédia.

A defesa dos dois estudantes investigados pela polícia promete apresentar outros nomes de mais pessoas que teriam envolvimento com a organização da festa.

O envolvimento, direto ou indireto, de entidades estudantis em trotes, estupros e violações de direitos humanos já foi tema na CPI que corre na Assembleia Legislativa (Alesp). Na semana passada, o relatório parcial aprovado pelos deputados estaduais pede, entre outras coisas, o fim das associações atléticas de várias universidades do Estado de São Paulo.

‘Vencedor’ da Maratoma recebe alta

Mateus Pierre Carvalho, cuja idade não foi informada, recebeu alta nesta segunda-feira (2). O jovem teria sido o ‘vencedor’ da competição de ‘shots’ e também foi socorrido durante a Interreps. Ele postou uma foto com as irmãs no Facebook e tranquilizou amigos e familiares.

Já as estudantes Gabriela Alves Correia, de 23 anos, e Juliana Tibúrcio Gomes, de 19, seguem internadas e sem previsão de alta.

Velocidade e presença de amigos mostram o lado negro do álcool

De acordo com o presidente da Sociedade Brasileira de Toxicologia, Daniel Junqueira Dorta, que também é professor de Toxicologia da Universidade de São Paulo (USP), a velocidade de ingestão de vodca pode ter agravado as complicações causadas pelo álcool no organismo do estudante que morreu em Bauru.

“O organismo teria tempo de metabolizar e eliminar o álcool em mais horas. Ao tomar muito rápido, não deu tempo de eliminar. A velocidade de ingestão foi maior do que a de eliminação. O álcool pode ser um veneno e, quanto maior a dose, mais severos são os efeitos”, explicou, em entrevista ao Estadão. Dorta comentou que o álcool atua como substância inibitória no sistema nervoso central. “Perto da nuca tem o centro que regula a respiração do organismo. A pessoa acaba perdendo a capacidade de respiração. Na literatura, encontramos que a partir de 5 gramas de álcool por litro de sangue pode acontecer a depressão do centro respiratório, levando à morte”.

Para exemplificar a relação entre a quantidade de bebida e álcool concentrado no organismo, Dorta usa outro destilado: o uísque. Uma dose de 25 a 40 ml de uísque leva a uma concentração de 0,6 a 0,8 grama de álcool por litro de sangue (g/l). A dificuldade de articular palavras e a diminuição dos reflexos podem aparecer com 1 g/l. A partir de 3 g/l, os processos de confusão e de perda da consciência já podem aparecer.

Muitos fatores interferem nos danos que o excesso de bebida alcoólica pode causar, como problemas no fígado, o metabolismo e o fato de o estômago estar vazio. “O peso influencia também. Na pessoa obesa, o álcool acaba se difundindo para o tecido adiposo e pode segurar um pouco (os efeitos)”, explicou.

Dorta afirmou que a sensação de relaxamento causada pela bebida pode ser mantida se a pessoa ingerir só uma lata de cerveja por hora. Em casos de mal-estar, o professor diz que é adequado não impedir o vômito. “É melhor, porque, se ainda tiver álcool no estômago, o órgão continua a absorvê-lo”.

No caso de jovens, a presença de amigos pode ter uma influência extra. Segundo um estudo publicado pela revista científica Addiction, quanto mais amigos bebem com alguém, mais esse alguém vai beber. Além disso, o impacto desse número de amigos sobre o indivíduo é maior em homens do que em mulheres.

A pesquisa levou em conta dados colhidos junto a 200 pessoas que consumiram álcool na Suíça. A cada hora de drinks, cada envolvido no estudo usava um aplicativo no smartphone para relatar com quantas pessoas estava bebendo e quantos drinks já havia ingerido. Os resultados apontaram que a presença de mais amigos deveria causar alegria, e não levar o indivíduo a beber mais e mais.

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