COMPORTAMENTO
01/03/2015 15:42 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:12 -02

Blogueira do Brasil Post é perseguida e ameaçada após publicar texto contra machismo

wwwuppertal/Flickr
An artistically designed wall in a passageway. If I'm not mistaken it offers some space for additions and contributions made by beholders. (Köln / Cologne, Germany).

"Depósito de porra, vou arrebentar essa vadia".

Ameaças de violência, estupro, perseguição. Ameaças que ferem por completo os direitos de uma mulher e cidadã. Ameaças de tirar o Brasil Post do ar. Tudo por causa de um post publicado aqui há algumas semanas. Um post de uma blogueira que não fez acusações diretas a ninguém, não citou pessoas específicas e nem locais específicos - só relatou como alguns ambientes na internet são profundamente misóginos e machistas. As reações à publicação confirmaram a tese. E é com essa história que nós abrimos a nossa semana da mulher - uma semana que não é de comemoração, mas sim, sobre a consciência de que a luta diária por respeito e igualdade se torna cada vez mais necessária.

Acharam e divulgaram meus dados pessoais, endereço, telefone, fotos, vídeos. Fizeram montagens com o meu rosto, monitoraram meus passos usando serviços de localização em redes sociais e insinuaram que iriam nos mesmos lugares que eu para “calar a boca dessa vadia”, ameaçaram eu e minha família e até ensaiaram enviar coisas para os meus vizinhos. Algumas mensagens chegaram a expressar claramente que o objetivo era não parar até que eu cometesse suicídio, como aconteceu com algumas meninas que passaram por algo parecido nos EUA.

(Veja o relato completo aqui)

O Brasil Post - assim como o Huffington Post internacionalmente - é profundamente comprometido com causas que envolvem direitos humanos. Você já deve ter reparado que nós publicamos muitos textos feministas e de luta pela igualdade, por exemplo. Também somos militantes pela liberdade de expressão. Este caso de perseguição e ameaça a uma de nossas blogueiras mexeu com dois valores que são muito caros para nós.

Nós sabemos que, embora a Constituição brasileira vede o anonimato, manter-se anônimo na internet pode ser muito importante em uma democracia. É o anonimato que protege organizações como o Wikileaks, por exemplo, e garante que informantes vazem informações necessárias para denúncias e investigações. É o anonimato que protege cidadãos de serem vigiados e perseguidos por governos e por inimigos.

Mas o anonimato tem outro lado: pode esconder criminosos.

No caso contra a blogueira do Brasil Post, vários crimes podem ter sido cometidos. Injúria e difamação, em primeiro lugar. Depois, ameaça, que pode gerar pena de até um ano ou multa. Incitação ao crime e apologia ao estupro. A lista, infelizmente, é longa. Isso sem falar dos processos civis, que podem envolver condenação por danos morais.

Só que usuários de fóruns do tipo que se escondem no anonimato parecem não se dar conta que eles não são 100% anônimos. "O anonimato na internet é relativo: quase sempre há um meio de identificação", explica o advogado especialista em direito digital Omar Kamiski.

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Segundo o Marco Civil da Internet, se o servidor do fórum estiver no Brasil, ele é obrigado a passar os registros de acesso a aplicações e registros de conexões para a Justiça. Se eles estiverem no exterior, acordos internacionais também garantem que os dados sejam acessados pelas autoridades brasileiras.

"Se o fórum não cumprir a lei, guardar e fornecer os registros, ele vai acabar sendo responsabilizado pelos danos que os usuários causaram", diz Francisco Brito Cruz, pesquisador em direito e internet e diretor do InternetLab. "Não existe crime perfeito."

Violência online é violência real

Casos do tipo são recorrentes. Na semana passada, a Folha de S. Paulo publicou uma reportagem enumerando casos de blogueiras feministas que sofrem constantes ameaças por defender seus direitos, ou simplesmente falar sobre um determinado assunto. "Eu era chamada de depósito de DST, e desejavam que eu morresse", relatou a blogueira Nádia Lapa.

Dolores Aronovich, 47, professora da Universidade Federal do Ceará (UFC), autora do blog feminista Escreva, Lola, Escreva, desde 2011, recebe ameaças de estupro e morte vinda de homens. "Publicaram meu endereço e meu telefone na internet e fotos da minha casa que tiram do Google", relatou à Folha de S. Paulo.

Ano passado as ameaças se intensificaram: logo após publicar no Twitter que havia voltado de uma viagem, a professora recebeu ligações com ameaças de morte em sua casa."Qualquer mulher que se destacar na internet vai ser ameaçada de estupro. Infelizmente, a internet reflete a misoginia que existe na sociedade", continuou.

Uma pesquisa recente da Pew Research mostrou que 26% de jovens mulheres entre 18 e 24 anos já foram perseguidas on-line, e 25% já foram alvo de assédio sexual via internet.

No ano passado, a desenvolvedora Zoe Quinn começou a receber ameaças depois de lançar um jogo chamado Depression Quest, que narrava sua experiência com depressão. Acusada de trair o namorado, ela teve de deixar sua casa após ter seu telefone e endereço divulgados. Segundo o New York Times, ainda não voltou para lá. O caso ficou conhecido como Gamer Gate. Na mesma época, a blogueira e feminista Anita Sarkeesian, do blog Feminist Frequency, foi perseguida e ameaçada após começar uma série sobre como as mulheres são retratadas em games. Após receber ameaças anônimas por e-mail, ela chegou a cancelar um discurso na Universidade de Utah, nos EUA.

A violência contra a mulher é real. É presente. É diária. E não é apenas física. Está mais próxima do que nós pensamos. E a realidade só mostra que o feminismo e a luta por uma sociedade mais justa para as mulheres é mais necessária do que nunca.