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25/02/2015 11:31 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:03 -02

Greve dos caminhoneiros chega ao 8º dia e impacto na vida e no bolso do brasileiro já começa a ser sentido em todo o País

Montagem/Estadão Conteúdo

Além de afetar a produção de aves e suínos, a paralisação dos caminhoneiros provoca falta de produtos nos supermercados do norte e do noroeste do Paraná e oeste de Santa Catarina, as regiões mais prejudicadas pelo bloqueio das estradas. Também reduziu a oferta de frutas no maior entreposto de alimentos in natura do País, a Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais do Estado de São Paulo (Ceagesp), na capital paulista.

Pães industrializados, verduras, tomate e leite de saquinho (in natura) foram os primeiros itens que desapareceram das prateleiras de supermercados do norte do Paraná, conta o presidente da associação regional do setor, Maurício Bendixen. A região reúne 256 lojas espalhadas por 12 municípios, entre os quais estão Maringá, Apucarana, Cianorte, por exemplo.

Pelo fato de esses itens serem perecíveis e de giro rápido, as lojas não têm grandes estoques, explica Bendixen. Por isso, estes foram os primeiros produtos a serem afetados. Problemas de abastecimento de frutas, legumes e verduras também estão ocorrendo com mais intensidade no oeste e extremo oeste de Santa Catarina, segundo a Associação Catarinense de Supermercados.

Em São Paulo, os produtos in natura que sofrem com o bloqueio das estradas, por enquanto, são as frutas produzidas em outros Estados. Já as verduras são cultivadas em áreas próximas da capital, o chamado cinturão verde. Neste caso, o escoamento da produção pode ser feito por rotas alternativas, fora das áreas bloqueadas.

Um levantamento da Ceagesp mostra uma queda de 10% na entrada de frutas produzidas no Sul do País, como melancia, maçã, pera e ameixa. Parte da carga dessas frutas, produzidas nos Estados do Rio Grande do Sul e Santa Catarina, não conseguiu vencer o bloqueio das rodovias e chegar à Ceagesp.

Apesar de não ter números exatos, a assessoria de imprensa da Ceagesp tinha informações de que existiam caminhões carregados de banana, mamão, morango e atemóia, parados desde domingo em Governador Valadares (MG) e nas regiões metropolitanas de Belo Horizonte e Curitiba (PR).

Carnes

Nas próximas semanas, aves e suínos poderão ter o abastecimento afetado no varejo. Na terça-feira (24), por exemplo, o JBS, um dos gigantes da produção de frangos e suínos, paralisou a produção de oito fábricas no País: quatro em Santa Catarina, duas no Paraná, uma no Rio Grande do Sul e uma em Mato Grosso do Sul. A empresa informa que as outras 32 unidades trabalham com 40% de ociosidade, também prejudicadas pelo bloqueio nas rodovias.

A decisão da JBS de suspender as atividades dos frigoríficos de frangos e suínos ocorreu um dia depois de outra gigante, a BRF, ter paralisado a produção de dois frigoríficos de aves e suínos no Paraná por falta de matéria-prima.

"A situação é gravíssima", diz Ricardo Gouvêa, diretor do Sindicato das Indústrias de Carne e Derivados de Santa Catarina e da Associação Catarinense de Avicultura. Ele explica que a decisão dos frigoríficos de suspender os abates ocorreu porque essas empresas não conseguem vencer o bloqueio e entregar aos produtores integrados a ração para alimentar os animais.

"Os protestos são algo preocupante, com efeito importante sobre atividade econômica. A mobilização interrompe o fluxo de circulação de mercadorias, altera todo o ciclo de operação das empresas, com graves prejuízos", disse o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Armando Monteiro Neto, segundo a Agência Brasil.

Entenda o caso

Os protestos de caminhoneiros em importantes rodovias do Brasil se espalharam e chegaram ao oitavo dia de manifestação nesta quarta-feira (25). Nesta quarta-feira (24), os atos chegaram com força ao Estado de São Paulo e restringindo a oferta de combustíveis e matérias primas para a indústria de alimentos em diversos Estados e impactando a colheita e a exportação de produtos chaves do país, como a soja.

Os protestos fecharam 70 pontos em estradas federais, em sete Estados (Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Minas Gerais), segundo o último boletim Polícia Rodoviária. Mas há protestos também em rodovias estaduais, como no caso da rodovia Anchieta, que liga a Baixada Santista à região metropolitana de São Paulo.

As manifestações, além de interromperem o transporte interno de mercadorias, estão impactando a chegada de produtos de exportação aos portos, com reflexo no mercado externo. Os contratos futuros da soja fecharam em alta de mais de 1% nesta terça-feira na bolsa de Chicago, referência internacional para os preços da commodity, com operadores preocupados com a oferta do Brasil, líder global na exportação do grão em 2014.

O governo federal estima "graves prejuízos" em função das paralisações, e busca negociar com as lideranças do movimento para colocar um fim aos protestos, sem acenar positivamente para uma das principais reivindicações: a redução do preço do diesel. Os protestos ocorrem em um momento em que o país vive uma situação delicada de ajuste da economia e em meio ao escândalo de corrupção na sua maior empresa estatal, a Petrobras.

O aumento do preço do diesel no fim do ano passado ocorreu após a estatal sofrer anos com a defasagem entre os preços internos e externos dos combustíveis. Em janeiro, os preços do diesel e da gasolina subiram novamente, por conta do aumento dos impostos. "Não está na pauta do governo a redução do preço do diesel neste momento", disse a jornalistas o ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência, Miguel Rossetto, após reunião interna do governo para tratar da greve dos caminhoneiros.

Uma reunião entre empresários e caminhoneiros ocorrerá na quarta-feira, às 14h, no Ministério dos Transportes.

(Com Estadão Conteúdo e Reuters)

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