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24/02/2015 20:38 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:02 -02

Por que você deve parar de chamar o câncer de tireoide de ‘câncer bom'

AlexRaths via Getty Images

O câncer de tireoide tem uma reputação estranha: é câncer, mas, com uma taxa de sobrevivência de quase 100% quando diagnosticado nos estágios iniciais, é um dos cânceres “bons”, como dizem muitos médicos e sobreviventes.

Alan Ho acha que essa categorização é um mal-entendido comum entre pessoas que nunca tiveram câncer de tireoide ou nunca trataram dele.

Ho é oncologista do Memorial Sloan Kettering Center e especialista em doenças malignas como o câncer de tireoide. Ele diz ao HuffPost que concentrar-se nas taxas de sobrevida “excelentes” desse tipo de doença deixa de lado as dificuldades enfrentadas pelos pacientes no tratamento e nos cuidados que eles têm de tomar a vida inteira.

“Dá para reconhecer alguns aspectos positivos nos índices de sobrevivência de quem teve câncer de tireoide, mas não podemos permitir que isso nos desvie a atenção das dificuldades reais e dos custos impostos aos pacientes”, diz Ho.

Não existe só um tipo de câncer de tireoide, o que significa que não existe só um tipo de cura. Tratamentos podem incluir cirurgia, radiação, quimioterapia e terapia hormonal.

Nenhuma dessas alternativas é simples e indolor; a cirurgia tem pequenos riscos de sangramentos, infecção e danos aos nervos; a radiação pode alterar os níveis hormonais da tireoide; e, é claro, a quimioterapia tem inúmeros efeitos colaterais sérios.

Muitas vezes, explica Ho, sobreviver ao câncer da tireoide pode significar conviver com ele para o resto da vida. Isso significa exames constantes, remédios diários e, é claro, o medo de que a doença volte.

A recorrência pode ocorrer de 10% a 30% dos casos e pode se manifestar de 10 a 20 anos depois do tratamento.

Um tratamento comum é a remoção da tireoide, glândula que produz hormônios essenciais para o funcionamento do organismo. Para suprir esses hormônios, os pacientes precisam de terapias de reposição que duram a vida toda – em geral por meio de comprimidos.

Ho nota que alguns médicos podem prescrever doses mais altas de hormônios para impedir a volta do câncer, mas a terapia tem outros possíveis efeitos colaterais, como osteoporose ou até mesmo arritmia cardíaca. Considerando todos esses fatores, diz Ho, lidar e sobreviver com esse tipo de câncer envolve muitas dificuldades.

“Especialmente em relação a essa doença, os números de sobreviventes não contam a história completa do que os pacientes têm de enfrentar”, conclui Ho.

Uma vida de terapia de reposição hormonal e vigilância certamente cobraram um preço de Gary Bloom, 53, de Olney, Maryland. Bloom sobreviveu a um câncer papilar da tireoide e é co-fundado e diretor executivo da Associação dos Sobreviventes do Câncer de Tireoide (ThyCa, na sigla em inglês).

Seu diagnóstico inicial foi feito há mais de 20 anos, e ele passou por três cirurgias e cinco tratamentos de radioterapia. Seu câncer voltou uma vez. Mesmo que a doença não seja mais uma preocupação diária para Bloom, os anos de tratamento e testes e o segundo diagnóstico de câncer o afetaram profundamente.

“Quando é hora de fazer um check-up, voltam a ansiedade e a realidade de ser um sobrevivente do câncer”, disse Bloom ao HuffPost. “A ansiedade é real, pois o câncer pode voltar, mesmo depois de 20 ou 30 anos.”

Recentemente, Bloom ajustou sua dose de remédios e confessou não estar “se sentindo tão bem” .

“Muitos de nós seremos monitorados a vida toda depois do diagnóstico e do tratamento”, diz ele. “Conheço muitas pessoas que não se dão bem com os remédios.”

Para ajudar outros sobreviventes a lidar com uma vida inteira de manutenção, Bloom ajudou a criar a ThyCa, uma organização que oferece materiais educativos para quem recebeu diagnóstico da doença e recursos para que os sobreviventes se mantenham saudáveis.

Essa perspectiva de longo prazo é necessária justamente porque há tantos sobreviventes de câncer de tireoide. E não é suficiente apenas estar vivo.

A manutenção imposta pela doença pode significar exaustão, perda de memória, queda de cabelo e problemas cognitivos – tudo isso resultado dos remédios, diz Bloom.

Ele também reconhece que a sobrevivência não é a história completa dos pacientes de câncer de tireoide.

Ele atualmente lidera um estudo internacional para ver se consegue aumentar a porcentagem dos pacientes cujo câncer é completamente eliminado na primeira fase do tratamento.

Fazer isso significaria reduzir as visitas ao médico e os testes subsequentes, um alívio para os sobreviventes.

“Uma visão mais equilibrada seria: ‘Sim, existem vários outros tipos de câncer com menores índices de sobrevivência’”, diz Ho. “Mas todos eles têm os custos associados do tratamento.”

“Não vemos uma competição entre os vários tipos de câncer”, concorda Bloom. “A única competição que enxergamos é contra a doença – todos nós sobreviventes estamos tentando viver.”

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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