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24/02/2015 01:22 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:02 -02

Melhor universidade da América do Sul, USP concentra casos assustadores de trotes

Montagem/Arquivo pessoal e Estadão Conteúdo

Apontada como a 132ª melhor universidade do mundo e a melhor da América do Sul, a Universidade de São Paulo (USP) concentra não só uma boa porção da nata intelectual e acadêmica do Brasil, mas também alguns dos mais escabrosos relatos de trotes violentos já relatados. A Faculdade de Medicina (FMUSP) apareceu com mais destaque no ano passado, mas o desrespeito não ocorre apenas entre os estudantes do curso envolvidos nas denúncias investigadas pela Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp).

“A gente ouviu um ‘zum zum zum’ e não se atentou. Primeiro havia uma dificuldade, que ninguém queria se expor. E, no momento em que as poucas pessoas se expuseram, a primeira reação foi: vamos tentar resolver internamente. Houve uma certa tentativa de dizer: são desvios pontuais”, disse o professor da FMUSP Paulo Saldiva, à CPI que investiga os estupros e violações de direitos humanos nas universidades de SP.

Ex-integrante da Congregação da instituição, ele se afastou ao perceber que a resposta da faculdade não seria a ideal. “[A faculdade] estava mais doente do que pensávamos (...). A gente poderia ter atuado de uma forma um pouco mais dura no início, fomos moles”, completou.

Com tantos casos, é esperado que a saúde dos estudantes sofra. E foi isso que apontou a pesquisa do Projeto Quara (Qualidade das Relações no Ambiente), conduzida pela professora de Medicina Preventiva da FMUSP e coordenadora do Núcleo de Estudos da Violência da USP, Maria Fernanda Tourinho Peres. Segundo o levantamento, 92% dos alunos informaram ter sofrido pelo menos um episódio de violência física ou verbal na faculdade — de humilhação a violência sexual. Destes, 30% consideraram que o fato foi grave.

“Há uma cultura de considerar a FMUSP acima da lei e da sociedade, esquecendo-se do fato de que é uma instituição pública, que recebe grandes investimentos públicos”, analisou o presidente do Instituto Luiz Gama, professor de Direito, e mestre e doutor pela USP, Silvio Luis Almeida. “É preciso disseminar a educação sobre a cultura do consentimento, do valor do não”, afirmou a professora da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP (FFLCH), Heloísa Buarque de Almeida, ao discorrer sobre a naturalidade com que os trotes e perseguições são tratados na USP.

Foi justamente essa cultura que matou o calouro Edison Tsung-Chi Hsueh, em 1999. Ele acabou afogado durante um trote na FMUSP. Enquanto a instituição apontou a morte como acidental, a Justiça inocentou os quatro acusados pela morte em 2006.

Trotes não são exclusividade da USP

O problema da violência no ambiente universitário não é exclusivo da USP ou do ensino superior paulista. Há relatos de casos de abusos físico e sexual, racismo, homofobia e outras violências em instituições de dentro e fora do Brasil. No âmbito de São Paulo, pelo menos três casos foram registrados em 2015, o que mostra que a prática permanece forte, apesar de leis e discursos correntes das autoridades.

Alguns dos trotes mais violentos foram relatados nos campus de Campinas e Sorocaba da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Lá, as calouras são proibidas de usar cabelo solto, bijuterias e maquiagem e os homens são obrigados a manter o cabelo raspado. Além disso, eles não têm acesso ao Centro Acadêmico, ao restaurante e são proibidos de usar bancos e elevadores. Tudo em nome da tradição, dizem os veteranos.

Segundo um estudo feito pelo professor da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) Antônio Ribeiro Almeida Júnior, o trote não integra os alunos na faculdade e estimula atitudes preconceituosas. Muitos são forçados a participar, de acordo com sua pesquisa, por medo de retaliação. Alguns alunos abusados no trote ficam traumatizados e desistem do curso, pois muitos não aguentam ver seus abusadores impunes. Houve até caso de suicídio de estudante da Esalq.

“O calouro que está na rua, pedindo esmola, é soldado de uma hierarquia que tem general”, comentou Almeida.

Em defesa da PUC-SP, o vice-reitor José Eduardo Martinez garantiu que a instituição não compactua com trotes e perseguições e que é uma das únicas a expulsar alunos por trotes. Só em 1998, segundo ele, cinco estudantes foram expulsos após um estudante ter sido queimado em uma festa.

Já o diretor das Faculdades Adamantinenses Integradas (FAI), Márcio Cardim, ressaltou a mesma posição do colega da PUC-SP. Foi em Adamantina (SP) que foram registrados os trotes que queimaram a perna de uma caloura e que podem deixar outro aluno cego de um dos olhos. Ele disse que “é a primeira vez em 46 anos” que um caso assim é registrado e que os envolvidos devem ser expulsos. “Não queremos esse tipo de aluno e estamos prontos para punir os agressores.”

Reitor fala em ‘mudanças’. Será?

No dia 21 de janeiro, o reitor da USP, professor Marco Antonio Zago, esteve na Alesp para falar sobre a violência envolvendo alunos da universidade. Seguindo o discurso oficial, ele garantiu que todas as denúncias estão sendo investigadas, tanto que a Comissão de Direitos Humanos da USP, presidida por José Gregori e que conta com notáveis como Celso Lafer, Maria Hermínia Brandão Tavares de Almeida, Calixto Salomão e Pedro Dallari, terá mais poder daqui para frente.

“A CDH será responsável pelas ações e respostas dos dirigentes da universidade diante de denúncias ou suspeitas, para que desapareça a suspeita de que diretores ou responsáveis por sessões estejam, de alguma forma, escondendo casos ou tentando abafar situações”, comentou Zago. Outra medida adotada é um acolhimento diferenciado aos calouros e a proibição do consumo de álcool nas dependências da instituição.

Entretanto, há muito ceticismo por parte de parlamentares e coletivos sobre a real eficácia das medidas anunciadas até aqui. “O foco do problema não são as festas, não é o uso do álcool, não é o uso de uma roupa curta. É preciso ensinar os alunos a não estuprar. É preciso apurar o abuso, e, se culpado, o aluno deve sofrer punição administrativa rápida, antes da formatura”, disse a advogada Marina Ganzarolli, do coletivo feminista Dandara, da Faculdade de Direito da USP.

“Os coletivos vão se encontrar com a comissão, assim como dentro da própria reitoria tomaremos providências com a lista de propostas que elas fizeram. As propostas são, se não todas, praticamente todas factíveis”, respondeu Zago.

Já o deputado estadual Marco Aurélio de Souza (PT), integrante da CPI na Alesp, defendeu que o reitor não permita à universidade conferir “título de médico a criminosos”. Zago disse que “o foco da USP é a educação” e evitou comentários “generalizados”. Ele também evitou falar sobre "tradições" da instituição, como o Show Medicina, alvo de denúncias de abusos de veteranos contra calouros. “Eu prefiro dizer que eu estou buscando tomar medidas. Eu não vou dar opinião sobre o passado.”

Outro fato que cria dúvidas sobre a viabilidade de mudanças é a retirada da professora e antropóloga Ana Lúcia Pastore Schritzmeyer da chefia de segurança da USP, após apenas nove meses no cargo. Ela foi substituída pelo médico veterinário José Antonio Visintin. Crítica da presença da Polícia Militar no campus e favorável a uma Guarda Universitária, Ana Lúcia não aprovou a forma como a reitoria vinha conduzindo os casos de abusos.

Falando na FMUSP, ela disse que nunca teve acesso ao esquema de segurança de lá. “O fato é que lá é um feudo e eu como superintendente nunca tive acesso. Tive uma conversa muito séria com o reitor em dezembro e ele me disse que cabia ao diretor da faculdade tomar as providências. Foi objetivo e curto. Havia tensões numa área cheia de problemas. E eu não estava lá necessariamente para concordar e, sim, como especialista em direitos humanos, justiça, trazer opiniões e alertar para os rumos”, comentou ao jornal O Estado de S. Paulo.

Por ora, no início das aulas, nesta semana, ocorre a "recepção dos calouros", organizada por unidades de ensino e centros acadêmicos. No período, as aulas são substituídas por palestras e atividades. Além disso, a USP organiza nesta terça-feira (24), a partir das 9h, no Teatro da FMUSP o evento “Democracia Universitária, ética e corpo: não à opressão, nenhuma vida vale menos”. A ideia é promover três mesas redondas, discutindo opressão e violência com os alunos.

“Estamos falando de uma violência que hierarquiza classes sociais, algo forte onde o machismo se impõe, os homossexuais não podem se emancipar e vivem em guetos, de banditismo”, explicou a professora Zilda Iokoi, do Núcleo de Estudos das Diversidades, Intolerâncias Conflitos (Diversitas) da USP.

Além disso, o manual do calouro deste ano contará com novidades, como informações sobre os canais de atendimento para denúncias de violência a ingressantes, com destaque e especificações de número de telefone, e-mail, site e horário de atendimento. É um adendo ao disque-trote (0800-012-1090), que existe desde 2000.

“Este ano eu irei pessoalmente à recepção dos calouros para dialogar com eles e apresentar os canais que terão para apresentar denúncias”, prometeu o diretor da FMUSP, professor José Otávio Costa Auler Júnior.

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