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06/02/2015 13:46 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:53 -02

Crise da água em SP: Morador oferece água suja a vereador e é hostilizado em Itu; funcionários confirmam cortes em SP

Montagem/iStock e Estadão Conteúdo

Um morador de Itu, no interior de São Paulo, foi expulso da Câmara Municipal da cidade na última quinta-feira (5). O motivo: ele ofereceu um copo de água ao presidente do Legislativo local, o vereador Marquinhos da Farmácia (PSD). Mas não era qualquer água. Era o líquido turvo que chega na casa dele todos os dias. É apenas um caso entre os vários da semana que mostram a gravidade da crise hídrica e da falta de transparência em São Paulo.

“Tome, vereador, é água boa, saiu da torneira da minha casa”, disse Marcos de Moraes, morador do bairro Itaim, ao oferecer o copo de água ao vereador. Ao ver que a água estava suja, Marquinhos se dirigiu ao homem, advertindo-o de que não poderia se manifestar. “Aqui não aceito bagunça”, afirmou, chamando guardas municipais para retirá-lo do local. A água levada por Moraes, que trabalha numa indústria, cheirava mal e tinha resíduos.

O morador garantiu ter colhido o líquido na torneira da cozinha. “A Câmara defende a concessionária de água de Itu e o presidente foi um dos que elogiaram a empresa, mas no meu bairro a água continua suja e com mau cheiro”, criticou. Itu ficou dez meses com racionamento drástico em 2014, ocasionando protestos, mas este ano os reservatórios estão cheios em razão das chuvas. Após o caso, a concessionária Águas de Itu informou que mantém 250 pontos de controle da qualidade da água na cidade.

Em relação ao bairro Itaim, em razão de reclamações de clientes, equipes estiveram no local e na semana passada foram realizados trabalhos de manutenção de rede. Desde então, não ocorreram reclamações. Segundo sua assessoria, o presidente da Câmara não iria se manifestar sobre o episódio. A verdade, ao que parece, foi mais forte do que o cheiro da água recusada pelo vereador.

Cortes e roubos de água em SP

Pelo menos dez funcionários da Sabesp denunciaram ao IG o que boa parte da população de São Paulo já sabe: existe sim cortes de água na cidade, e a pelo menos seis meses. Enquanto a companhia culpa a ‘redução de pressão’ como a razão para a falta de abastecimento em alguns bairros durante horas, a reportagem garante, com base em depoimentos de trabalhadores, que o corte do fornecimento (e não redução) é diário.

“Você fecha aqui, aí já era, zera... não fica nada de pressão. Onde tem um pouco de subida já não tem mais água”, comentou um funcionário. Outros trabalhadores da própria Sabesp reclamaram que sofrem nas próprias casas com os cortes. “Eles não falam que é rodízio, sabe? Eles falam que é demanda noturna. Segundo eles, demanda noturna é o modo mais sutil, mais suave, né?”, declarou outro.

Como de praxe, a Sabesp negou que existam cortes ou racionamento de água em SP. O que a companhia confirmou foi a investigação contra 46 pessoas da região metropolitana da capital que integrariam quadrilhas especializadas em furto de água. A notícia foi publicada no jornal Folha de S. Paulo nesta sexta-feira (6). A Polícia Civil também atua no caso. Há pelo menos 147 inquéritos que apuram crimes praticados por esses grupos criminosos.

De acordo com a Folha, ex-funcionários da própria Sabesp integrariam a maioria das quadrilhas, tendo consigo informações privilegiadas de como burlar os hidrômetros. Um desses desvios foi descoberto em uma gráfica na região central de São Paulo, no mês passado. O estabelecimento pertence ao líder da Igreja Mundial, pastor Valdemiro Santiago. Só em 2014, segundo o governo paulista, mais de 15 mil fraudes foram descobertas no Estado.

Alckmin ‘guarda’ 3ª cota e secretário aborda rodízio

O secretário de Recursos Hídricos de São Paulo, Benedito Braga, afirmou nesta sexta-feira, em evento sobre a crise hídrica na Federação do Comércio (Fecomercio), que é preciso “uma forte redução” do consumo em SP e que “a próxima opção é um rodízio”, reconhecendo que existem limites para a medida de redução de pressão de água nas tubulações adotada pela Sabesp.

“Rodízio é uma forma de redução de consumo que eu, como técnico, sempre critiquei. A Sabesp preferiu usar o método de redução de pressão. Mas em uma situação onde a redução de pressão não é suficiente, a próxima opção é um sistema de rodízio. Se vai ser implementado amanhã ou depois, eu não sei”, disse, acrescentando depois que não garante que haverá ou não rodízio em São Paulo.

Braga afirmou ainda que são necessários estudos para tomar essa decisão. “Você não sai de um sistema A para um sistema B do dia para a noite. Tem que ver se é possível fazer. Tudo isso requer análise. Não estou dizendo se vai ter ou não”, disse. Ele frisou também que haverá transparência no processo. “Não posso garantir se vai ter rodízio, mas se nossos estudos indicarem essa necessidade, a população vai ser avisada com a devida antecedência. Neste momento, eu não tenho essa informação”, afirmou.

Ele também foi cobrado sobre a “falta de transparência” do Palácio dos Bandeirantes sobre o tamanho da crise hídrica, no que disse não ter influência “por não ser um político, e sim um técnico”.

Um dia antes, em evento em Hortolândia, na região de Campinas, o governador Geraldo Alckmin destacou que a terceira cota do volume morto do Sistema Cantareira não será usada agora. “Nós não pretendemos utilizá-la. É uma reserva importante para o período de inverno”, comentou. Serviços de meteorologia preveem que o inverno, que se inicia em 21 de junho, poderá ter índices menores de chuva do que a média histórica.

O governador voltou a afirmar ainda que não está decidido o racionamento de água em São Paulo. “Não existe previsão de rodízio. Nossa prioridade agora são obras”, afirmou. Segundo ele, no momento o governo se concentra em obras que vão ajudar a superar a crise. Será iniciada nos próximos dias a interligação do Sistema Rio Grande, com a Represa de Taiaçupeba. A transferência de 2 metros cúbicos por segundo, na primeira etapa, será feita por bombeamento e vai reforçar o Sistema Alto Tietê, que abastece a região leste da capital e parte da Grande São Paulo. As obras devem terminar em maio.

(Com Estadão Conteúdo)