NOTÍCIAS
04/02/2015 20:58 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:23 -02

Quatro coisas que você deveria saber sobre o transtorno obsessivo-compulsivo

Reprodução/YouTube

Um episódio recente do Invisibilia, novo podcast da NPR, jogou luz sobre uma forma de transtorno obsessivo-compulsivo sobre a qual raramente se fala: a que envolve pensamentos sobre machucar outras pessoas.

Os apresentadores do programa, Alix Spiegel e Lulu Miller, entrevistaram um homem não-identificado que passou a ter ideias obsessivas de assassinar sua mulher depois de ver o filme Cidade de Deus. Ele explicou:

“[No filme] as gangues brigam entre si e se matam. Era muita violência gráfica. Mais ou menos na metade do filme comecei a ser inundado por pensamentos violentos. E seu eu esfaqueasse ou atirasse em alguém, ou machucasse minha mulher?”

Quem sofre desse tipo de TOC é incomodado por esses pensamentos e imagens e sente altos níveis de estresse, ansiedade e desconforto. Os pensamentos não indicam o verdadeiro caráter nem os desejos da pessoa, segundo Bruce Hyman, do OCD Resources Center, da Flórida. Eles ocorrem “completamente fora de contexto” da história e do caráter da pessoa, diz Hyman.

Isso não tem nada a ver com a mania de lavar as mãos ou o medo de se contaminar com um mero toque numa maçaneta, comportamentos tipicamente associados ao TOC na cultura popular. E isso pode ser uma fonte de confusão para quem sofre de maneiras diferentes com esse transtorno relativamente comum. Por exemplo, as pessoas que acometidas por ideias violentas podem achar que são psicopatas, por mais que o fato de elas se preocuparem com isso indique o contrário.

Estima-se que o TOC afete até 2,3% da população americana. Alguns dados chegam a sugerir que até 25% dos adultos tiveram compulsões ou obsessões em algum momento de suas vidas – ou seja, até 60 milhões de americanos podem ter apresentado sintomas de TOC, mesmo que não se encaixem no diagnóstico da doença.

Grosso modo, o TOC é caracterizado por duas coisas: obsessões (pensamentos intrusivos e recorrentes) e compulsões (comportamentos tipicamente repetitivos que ajudar a diminuir a ansiedade provocada pelos pensamentos). Mas o transtorno pode ser de difícil identificação, pois ele pode se apresentar de diversas maneiras.

A Aliança Nacional de Saúde Mental define o TOC como a “doença da dúvida”. Os indivíduos têm “dúvidas patológicas” porque não conseguem distinguir entre eventos prováveis e muito pouco prováveis.

“A pessoa fica presa num ciclo comportamental. Os pensamentos e as compulsões se repetem sem parar”, disse Hyman ao The Huffington Post. “Eles se repetem várias vezes por dia e provocam prejudicam a capacidade da pessoa de funcionar.”

“S”, o homem entrevistado pelo Invisibilia, buscou terapia, e os pensamentos violentos diminuíram. Mas e as outras pessoas como ele?

Eis quatro verdades importantes sobre TOC que vão mudar como você enxerga a doença.

Obsessão é mais que preocupação.

As obsessões que caracterizam o TOC ocorrem na mente de forma “espontânea e intrusiva”, diz Hyman. “Os pensamentos trazem consigo tremendo medo e ansiedade.”

Pesquisadores acreditam que os pensamentos do TOC sejam resultado de desequilíbrios químicos no cérebro, o que significa uma incapacidade de filtrar pensamentos indesejados, possivelmente por causa de baixos níveis de serotonina.

Mas Hyman enfatiza que os pensamentos de quem sofre de TOC não são substancialmente diferentes dos das pessoas que não têm a doença. Pesquisas sobre o conteúdo dos pensamentos mostram que qualquer pessoa pode ter um pensamento intrusivo (por exemplo, você pode pensar: ‘E se eu empurrasse essa senhora na frente do metrô?”) Uma pessoa com TOC, porém, tem uma reação diferente a essa ideia – elas podem achar que são perigosas, enquanto uma pessoa que não tenha TOC simplesmente não vai dar tanta importância ao pensamento.

Como a pessoa entende a mera presença do pensamento como uma possibilidade maior e mais perturbadora, ela vai fazer o que estiver a seu alcance para se livrar dele, o que dá origem às compulsões.

Compulsões podem ser muito mais sutis do que contar ou lavar as mãos.

Tendemos a pensar no TOC em termos de compulsões extremas, como lavar as mãos até que elas sangrem, contar em voz alta, conferir a fechadura dezenas de vezes, rearranjar itens numa mesa para colocá-los em uma ordem específica. Mas muitos, se não a maioria, dos casos de TOC não podem ser identificados por esses comportamentos óbvios.

Cerca de 20% dos pacientes de TOC têm apenas obsessões, uma variante da doença conhecida como TOC puramente obsessiva.

Mas, como nota Hyman, pesquisas realizadas nos anos 1990 sugerem que, mesmo nessa forma, ainda ocorrem certas compulsões – elas podem simplesmente ser menos evidentes. Elas podem se manifestar como compulsões internas (a repetição mental de um mantra, por exemplo) ou como comportamentos de evitação (ficar longe da cozinha para não estar perto de facas).

“O fato de não haver compulsões óbvias não quer dizer que não existam muitas compulsões internas”, diz Hyman. “A ideia de obsessões sem compulsões não para em pé.”

O TOC muitas vezes não tem nada a ver com limpeza ou organização.

Cerca de um terço de quem sofre de TOC tem obsessões que envolvem germes e limpeza. Essa forma de TOC se manifesta pela compulsão de manter os espaços e o corpo limpos, por medo de contaminação.

“As pessoas cometem o erro de associar o TOC a germes e a limpeza excessiva”, diz Hyman. “Mas, na verdade, essa é uma minoria [dos casos]. É uma minoria significativa, mas não é um retrato completo do TOC.”

Outras obsessões e compulsões não têm nada a ver com limpeza. Essas fixações e comportamentos incluem violência, desvios sexuais, acumulação, pensamentos mágicos, crenças religiosas, simetria/ordem e conferência de trancas ou eletrodomésticos.

TOC não tem cura, mas pode ser tratado de forma efetiva.

Hyman enfatiza que, apesar de não haver cura para o TOC, há tratamentos muito eficazes. Opções populares são terapias de exposição e resposta, terapias baseadas em conscientização e remédios. Exposição e resposta costuma ser a primeira linha de tratamento – ajuda o paciente a superar os pensamentos intrusivos colocando-os em contato com o que os dispara, como uma faca ou uma maçaneta. A conscientização pode ser uma excelente intervenção complementar.

“A conscientização ensina uma não-resposta aos pensamentos obsessivos, a estar aberto e a aceitar esses pensamentos horríveis, apesar dos distúrbios que eles trazem consigo”, diz Hyman. “A abordagem da conscientização pode ter benefícios tremendos quando combinada como exposição e resposta.”

Galeria de Fotos Sintomas do transtorno do estresse pós-traumático (TEPT) Veja Fotos