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02/02/2015 11:28 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:52 -02

Forças progressistas lamentam eleições de Eduardo Cunha e Renan Calheiros e preveem ‘chumbo' e ‘fundamentalismo'

Montagem/Estadão Conteúdo

As eleições do deputado federal Eduardo Cunha (PMDB-RJ) e Renan Calheiros (PMDB-AL) para as presidências da Câmara e do Senado, respectivamente, representam um passo atrás na luta de forças progressistas. Esse foi o sentimento expresso por alguns parlamentares e figuras que estão mais ao lado das mudanças expressas pelas Jornadas de Junho de 2013 – as quais não representaram alterações nas eleições pelos motivos aqui levantados.

No caso da Câmara, o deputado federal Jean Wyllys (PSOL-RJ) definiu como início da “idade das trevas” a eleição de Cunha para o mandato de dois anos. Para o parlamentar, representante de temas ligados à comunidade LGBT e demais minorias, a governabilidade da presidente Dilma Rousseff será mais complicada com o peemedebista à frente da Câmara e o “tempo ruim virá pra todos nós - progressistas, minorias e pobres em geral”.

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Outra a demonstrar receio como a eleição de Cunha é a deputada federal Erika Kokay (PT-DF). Na opinião dela, é possível esperar “um Parlamento ainda mais fundamentalista”, sem temas como a legalização das drogas, a criminalização da homofobia ou a discussão do aborto na pauta do Legislativo federal.

No Senado, Cristovam Buarque (PDT-DF) definiu a reeleição de Renan Calheiros como “uma chance perdida” da Casa em se sintonizar com “os gritos de mudanças que vêm das ruas”. Sobrou crítica não só para o PMDB, mas também para o PT, que era amplamente favorável ao prosseguimento do comando nas mãos do senador alagoano.

Candidato à Presidência pelo PSOL no ano passado, Luciana Genro apontou ainda que “as piores práticas políticas seguem no comando do Congresso” com as eleições de Cunha e Calheiros. Para ela, as revelações da Operação Lava Jato – as quais já ligaram, em diferentes momentos, os dois presidentes das Casas do Congresso ao esquema investigado pela Polícia Federal – podem piorar o cenário.

Conforme o Brasil Post já informou logo depois das eleições de 2014, uma Câmara mais conservadora terá reflexos em diversos temas questionados por protestos nos últimos 18 meses. A tendência é que as reformas política, tributária e trabalhista tenham espaço na pauta, ao lado de assuntos de cunho econômico, ao longo de todo o ano.

PT tenta ‘remendar’ alianças para obter governabilidade

A derrota humilhante na Câmara, sem sequer espaço na Mesa Diretora da Câmara, já faz o PT trabalhar para ‘remendar’ as alianças que se rebelaram dentro da própria base aliada, permitindo a vitória de Eduardo Cunha. O chamado ‘pacto de governabilidade’, proposto ainda antes da votação deste domingo (1º), deverá tomar boa parte dos bastidores petistas nas próximas semanas.

Os três grandes derrotados do lado petista – os ministros Aloizio Mercadante (Casa Civil), Jaques Wagner (Defesa), Pepe Vargas (Relações Institucionais) e Miguel Rossetto (Secretaria Geral da Presidência) – falharam na articulação de uma reação contra Cunha, que já viajava em campanhas pelo Brasil antes mesmo do PT ter sequer o nome à presidência da Câmara definida. O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva queria uma composição com o PMDB, mas já era tarde demais.

“Não acredito que Eduardo Cunha vá agir como inimigo. Durante o processo eleitoral, ele rompeu alguns cercadinhos que eu não rompi, mas ninguém pode sentar na cadeira de presidente da Câmara e virar oposição”, afirmou o deputado Arlindo Chinaglia (PT-SP), que perdeu a eleição para Cunha. “Não se pode, depois da eleição, ser sangue para todo o lado. Vamos apostar no diálogo para garantir a governabilidade”, emendou José Guimarães (PT-CE), um dos coordenadores da campanha de Chinaglia.

O discurso do líder do PT na Câmara, deputado Vicentinho (PT-SP), não foi muito diferente dos colegas. “Para reconstruir essa base, é necessário muito diálogo, muita conversa e propostas concretas. Qualquer conversa tem que ser junto com o povo, movimentos sociais, negros e mulheres”, destacou. O diálogo – somado a alguns ‘agrados’, conforme noticiou a coluna Painel do jornal Folha de S. Paulo desta segunda-feira (2) – deverá ser uma tônica.

O temor da base do governo é se ver diante de uma ‘pauta bomba’, com projetos que aumentem as despesas do governo, em tempos de dificuldades na economia, além da abertura de espaço para os vários pedidos de CPIs que a oposição pretende protocolar nesta semana, como uma nova CPI da Petrobras e uma relativa à crise no setor elétrico.

No Senado, a reeleição de Calheiros, somada à renovação de apenas um terço da Casa, não preocupa de imediato a base governista, que segue possuindo a maioria. Isso pode mudar, caso o nome do senador alagoano seja citado na denúncia que o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, pretende fazer ainda neste mês com base nas investigações da Operação Lava Jato. Todavia, os 31 votos recebidos pelo senador Luiz Henrique (PMDB-SC), apoiado amplamente pela oposição, também acenderam o alerta na Casa para o Planalto.

(Com Estadão Conteúdo e Agência Câmara)