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29/01/2015 15:47 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:52 -02

Uma conversa franca com Marcelo Rezende, apresentador do Cidade Alerta

AGLIBERTO LIMA/ESTADÃO CONTEÚDO

A BMW modelo Z4 freia na cancela de um luxuoso condomínio em São Paulo. Dentro do carro, o apresentador Marcelo Rezende acena após mais um dia de trabalho na Rede Record. Um taxista acena de volta e diz que ele deveria ser presidente do Brasil. Com posições políticas fortes, Rezende caiu nas graças da audiência vespertina quando voltou a apresentar o programa Cidade Alerta, em 2012, limpando a imagem de “o cara antipático e truculento da TV”, e quebrando o ritmo de suas pautas violentas com tiradas irônicas.

A vice-liderança no horário e os 11 pontos de média de Ibope corroboram a mudança. “Encontrei um paliativo. Eu brinco, me divirto, coloco apelido nos repórteres. Transformei meu telejornal num programa com entretenimento”, explica. Ao entrar na casa de três andares, inaugurada há pouco mais de dois anos, volta de seu quarto vestindo bermuda, chinelo e camiseta – não há fotógrafos ou assessores o rodeando.

Enquanto conversa, prepara uma vasilha com purê de mandioca como guarnição para um de seus pratos favoritos: bife à milanesa. Apesar de andar diariamente pelo condomínio, sabe que está acima do peso. Antes de devorar o jantar, abre um dos vinhos premiados de sua rica adega climatizada com mais de uma centena de rótulos – paixão que vem desde os anos 1980. Descontraído, fala por mais de três horas sobre a dicotomia polícia e bandido, paixões, polêmicas e o que gosta de fazer no tempo livre.

Um dia antes, entretanto, Marcelo estava elétrico. Era uma manhã de segunda-feira e, em poucas horas, ele entraria ao vivo para apresentar seu programa de mais de três horas de duração diária. Pai de cinco filhos com cinco mulheres diferentes, o apresentador recebeu o jornalista Marco Bezzi em um dos camarins da Rede Record, no bairro da Barra Funda, zona oeste de São Paulo. Cercado por um fotógrafo e uma assessora da emissora, na ocasião mediu mais as palavras. Falou exclusivamente de sua vida antes da televisão. Contou que nasceu em 1953, num cortiço do Rio de Janeiro, filho do bancário Iaures e da auxiliar administrativa Aurea.

Aos 6 anos de idade, foi levado pelo pai para estudar na Escola Granja, onde ele trabalhava, e que depois seria parte da Funabem (Fundação Nacional do Bem-Estar do Menor). No semi-internato, Marcelo aprendeu a beber, a cometer pequenos delitos, e conheceu de perto o mundo da bandidagem. Decidiu virar hippie e se mudar para a Bahia aos 16 anos. Seus pais imaginavam que seu futuro estaria ligado à marginalidade. E não é que eles acertaram?

Antes de se perpetuar no jornalismo investigativo, mergulhou no mundo do futebol. Seu primeiro emprego foi aos 17 anos, como repórter do carioca Jornal dos Sports – isso sem nunca ter cursado uma faculdade. Depois, passou pelo também carioca O Globo, onde ficou próximo de seu ídolo Nelson Rodrigues, e depois foi para a revista PLACAR, onde teve o jornalista Juca Kfouri como chefe. Em 1988, saltou para a TV.

Em mais de 40 anos de carreira, passou por Globo, SBT, Bandeirantes, RedeTV! e Record. Reportagens como a do escândalo da Favela Naval e a do falso integrante do PCC no programa do Gugu o consagraram. Contou muitas dessas histórias no livro "Corta Pra Mim" (Ed. Planeta), lançado em 2013 e frequente nas listas de mais vendidos do país. Em duas sessões e mais de seis horas de conversa, se emocionou algumas vezes quando falou da família. E se inflamou na mesma intensidade quando comentou as críticas ao seu programa. Corta pra ele.

Você já foi taxado de reacionário e de ser contra os direitos humanos. Como recebe essas críticas?

As comissões de direitos humanos são fundamentais para o país, especialmente em momentos de exceção, mas me perdoe, hoje em dia existem comissões de direitos humanos que só servem para amparar vagabundos. Você precisa ter comissão de direitos humanos para todos. Nesses anos de jornalismo investigativo, vi famílias sendo dizimadas, vi chacinas, vi sequestros, vi todo tipo de barbaridade, mas nunca vi uma família vítima de um crime receber uma visita da comissão de direitos humanos. E desafio qualquer um a me mostrar uma imagem. Temos inúmeros exemplos de filhas sequestradas, levadas para cativeiros, abusadas sexualmente, ameaçadas de morte, quando não assassinadas… E aí o cara é preso e tem a favor dele a comissão de direitos humanos. Isso aí é uma esculhambação que chega a fazer a gente ficar incrédulo.

O jornalismo que você faz não alimenta a criminalidade?

Imagine uma pessoa que se formou em jornalismo e saiu para cobrir a Sasha, da Xuxa e do cãozinho “Xuxo”. E eu sou o sensacionalista? Alguns estereótipos são criados por falta de criatividade. O Cidade Alerta reflete o que é a realidade brasileira. Se eu morasse na Finlândia, ia falar da pesca do salmão; se morasse na Noruega, da pesca do bacalhau. No Brasil, o povo está pescando tiro. Se fizéssemos como o avestruz, que esconde a cabeça, estaríamos numa situação ainda pior.

Mas as atrocidades da polícia não deveriam ter o mesmo espaço nesses programas?

E têm. Um policial, quando extrapola, é um bandido. Não é que a gente tem mais medo da polícia do que do bandido, é que a gente não sabe mais quem é quem. O governo, em todos os níveis, deveria ter mecanismos muito mais rigorosos de fiscalização. Hoje todo mundo quer ter um emprego público. O sujeito não tem a menor afinidade com a profissão e quer virar juiz ou policial.

Sua proximidade com a polícia não distorce os relatos do programa?

Tive uns três, quatro amigos na polícia, mas no momento em que eles atuavam eu me distanciava da pauta. Hoje não tenho relação nenhuma, tenho alguns conhecidos. Polícia para mim é fonte, ponto. Não tenho amigo diretor de polícia, secretário da segurança, ministro da Justiça. Tenho um distanciamento ético. Nos meus 17 primeiros anos cobri esporte. Na minha frente passaram Pelé, Falcão, Rivelino, Zico, Sócrates, Júnior, e por aí vai. Fiz alguns bons conhecidos, mas não fiz nenhum amigo. Se fosse amigo, não poderia analisar uma partida, por mais isento que fosse.

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Por falar em isenção, como é ter como chefe o bispo Edir Macedo?

Vou te dar um exemplo: o Edir Macedo é radicalmente contra a pena de morte. Numa reunião com os diretores, ele disse: “O Marcelo é a favor da pena de morte, e ele está errado”. Sabe o que aconteceu? Nada. Ele nunca me proibiu de falar sobre o assunto. Tanto na Globo quanto na Record, eu sempre tive liberdade para falar o que bem entendesse.

Ser a favor da pena de morte é algo recente na sua biografia, não?

Eu era completamente contra a pena de morte. Acreditava que o Estado não poderia ser assassino do assassino. Mas hoje sou a favor em alguns casos, como nos de violência sexual contra criança e mulher. Para isso não existe recuperação. Pode perguntar para o maior estudioso do tema, o [psiquiatra forense] Guido Palomba, se ele já viu alguma vez um maníaco sexual se recuperar. Se ele disser que sim, pago a você o dinheiro que quiser.

Mas o Estado não deveria dar educação antes de julgar?

Boa parte dessas pessoas nasce com o chip com defeito. Por isso também sou a favor de baixarmos a idade penal. Pega, por exemplo, o caso que aconteceu no Morumbi, quando uns moleques entraram numa casa e depois de roubar colocaram fogo num casal de velhos para se divertir. Eles eram menores de idade. Eu tenho que sustentar esses caras? Na Febem [como era conhecida até 2006 a Fundação Casa], os caras botam fogo no diretor.

Você frequentou a Febem quando criança. Como foi sua experiência?

Meu pai era funcionário de um banco que faliu logo que eu nasci. A vida era dura porque ele não ganhava nada e minha mãe ganhava muito pouco. Quando completei 3 anos, meus pais adotaram meu irmão. A maré era difícil, então fomos morar num cortiço na Tijuca. A casa era minúscula, não tinha banheiro, não tinha nada. Havia uma cama, um berço e um fogãozinho de querosene. E meu pai era gordo, tinha 1,80 metro e mais de 160 quilos. As coisas melhoraram um pouco quando eu fiz 6 anos. Meu pai arrumou um emprego de inspetor de alunos no serviço de assistência ao menor da Escola Granja, que depois veio a ser parte da Funabem. Eu não era um interno, mas meu meio social era aquele. Os garotos chegavam com mais idade, não tinham pai e eram infratores. Sempre digo que bandido eu conheço de berço, ninguém precisa me apresentar.

Você tinha amigos que eram criminosos?

Tinha contato direto com o crime? Na década de 1950, mataram uma mulher em Copacabana chamada Aída Curi [o crime aconteceu em 1958]. Uns caras levaram a garota para cima de um prédio para comê-la, deu alguma confusão, e jogaram a mulher lá de cima. Um deles era um menor de idade chamado Cássio Murilo. Ele tinha uns 16 anos. Pois o Cássio Murilo foi parar no meu colégio, virou meu amigo de pipa, de correria. Minha mãe entrou em pânico. Um tempo depois, ele foi para o Exército e matou um ofi­cial. Outro escândalo. E, de repente, apareceu em casa para fazer uma visita. Minha mãe quase morreu do coração. Estou contando para você perceber a facilidade que eu tenho para entender esse negócio de crime, entender o que é a mente assassina.

Você se metia em brigas?

Nunca fui muito de briga, sempre resolvi as coisas no jeito. Mas tem hora que não dá para segurar. Havia um garoto que chamávamos de Pai do Circo, porque uma vez estava numa cidade do interior, foi ver o circo sem pagar e os funcionários deram uma surra nele. Na noite seguinte, ele voltou, tacou gasolina na lona e meteu fogo com todo mundo dentro. Ele foi para o colégio, e era folgado. Uma vez foi roubar minhas bolas de gude e a porrada comeu. A escola estava trocando a cerca por uma de arame farpado. Caímos e rolamos pelo arame, saímos esfolados. Cheguei em casa muito arrebentado. Mas isso criou em mim uma coisa curiosa. Eu sabia que tinha de resolver meus problemas. E eu resolvia do meu jeito.

Vocês apanhavam muito?

Aparecia gente machucada toda hora. Os inspetores batiam muito. Lembro de uma briga em que um menino maior bateu num menor. Fui me meter e levei uma porrada, meu olho ficou igual ao de um desenho animado, daqueles que pulam para fora. Minha avó falou que ia botar gelo, mas antes perguntou o que eu tinha feito com o cara. Eu disse: “Nada”. Ela falou: “Então não vou botar gelo porra nenhuma! Vai lá e dá-lhe uma porrada”. Peguei um pedaço de pau e dei na cabeça do cara. Quase matei o sujeito. Era simples assim. Era divertido.

Foi nessa época que você aprendeu a beber?

Comecei com 10 anos. Na escola faziam um negócio chamado Maria Louca [uma aguardente típica das prisões brasileiras]. Sempre gostei de beber, e nesse colégio tinha de tudo. Na época, não existiam cocaína, LSD, essas coisas. Mas existia a maconha.

E sexo, quando começou?

Perdi a virgindade numa zona do Rio de Janeiro, onde hoje é a Cidade Nova, aos 14 anos. Fui levado por uns amigos. Pra você ver, gostei tanto que, anos depois, aluguei um apartamento no mesmo lugar da zona.

Alguns anos depois, você decidiu dar uma guinada total na sua vida e virou hippie. Por que tomou essa decisão tão drástica?

Levava uma vida agitada, saía muito, então decidi aos 16 anos morar em Mar Grande, na Ilha de Itaparica [na Bahia]. Comprei um saco do Exército, botei minhas coisas e fui encontrar uns amigos da Tijuca, que eram uns outros delinquentes. [Risos.] Meu cabelo vinha até o ombro.

Quantas pessoas ficavam na sua co­munidade?

Umas 12. Vendíamos brin­cos, colares, pulseiras. Como eu não tinha jeito para trabalho manual, ia ven­der com um cara de apelido Tigrão. Sem­pre fui muito falante, e conseguia vender bem.

Todo mundo comia todo mundo?

Umas duas garotas da região namoravam uns quatro rapazes. Mas não era por mal. A vida era assim.

E com relação às drogas, você experimentou tudo?

Eu gostava de beber, bebia todos os dias. Mas sempre tive cisma com drogas. Rolava muito LSD, muita maconha e haxixe. Cocaína aparecia de vez em quando. Mas não era a minha onda.

O que mais vocês faziam para passar o tempo?

Escutávamos muita música: Pink Floyd, Jethro Tull, Led Zeppelin, Alice Cooper, Emerson, Lake & Palmer e Novos Baianos. A gente se divertia. Mas então eu cismei que não queria mais ficar lá. Fui morar numa casa que um amigo meu tinha feito em Ponta Negra, no Rio de Janeiro. Fiquei alguns meses, arranjei uma namorada bem novinha, virgem ainda, e decidi ficar lá. Virei pescador. Mas quando fiz 17 anos tive um estalo e decidi voltar a estudar.

Estudar jornalismo?

Não. Fui tentar recuperar o tempo perdido. Voltei para o colégio, mas precisava fazer uma prova de reavaliação. Quem aplicou o teste foi um professor de mecânica que vinha da Segunda Guerra Mundial, um almirante que morava numa casa de esquina na minha rua e tinha um carro preto que era o xodó da vida dele. Mas o filho da puta não queria que ninguém passasse. Eu peguei a prova, olhei, dobrei e entreguei a folha em branco. Não deixei barato, estava muito puto. Eu e uns amigos da Tijuca decidimos roubar o carro e dar um sumiço nele. Jogamos numa rua no fim do mundo. Fui no colégio no dia seguinte só para ver a cara dele.

E como foi parar no jornalismo?

Aos 17 anos, fui conversar com o meu primo que trabalhava como copideque [responsável pela revisão e checagem de textos] no Jornal dos Sports. Pensei em arranjar um emprego de office boy, mas até limpando privada estava bom. Cheguei na redação e, de repente, passou um homem com uma lista enorme e uma máquina Olivetti de escrever. Vi aquele homem de uns 40 anos parado, batendo na máquina antiga, e decidi ajudá-lo. No outro dia, meu primo me ligou e perguntou se eu queria trabalhar no jornal. “Aquele cara que você ajudou é diretor geral, e quer que você venha trabalhar como repórter.” No dia seguinte, comecei ganhando cem cruzeiros. Mas não me emendei. Um tempo depois, conheci duas garotas e fomos eu e um amigo para um apartamento em Copacabana. Passamos o domingo todo fodendo. Na segunda eu ia fazer minha primeira viagem como repórter para entrevistar o [técnico] Tim. Mas o problema é que a garota era mais gostosa do que o Tim, e eu fiquei com a mulher. Me mandaram embora.

Como você conseguiu um emprego no jornal O Globo depois disso?

Decidi mudar de vida. Consegui um emprego como rádio-escuta da Rádio Globo e logo depois virei repórter de esportes amadores no jornal. Fiz 21 anos e fui convidado para ser copidesque de O Globo, que na época era tipo uma entidade. Nesse período, parei tudo. Parei de beber, de sair… Não a zero, óbvio, mas reduzi 50%. Nem minha família entendia. Mudei da água para o vinho. Lia o que vinha pela frente.

E como foi que você conheceu o Nelson Rodrigues?

Eu estou lá trabalhando de copidesque, nisso senta um cara na minha frente. Quase desmaio. Era o Nelson Rodrigues! Já tinha lido todos os livros dele, era apaixonado por aquela coisa dramática e conservadora ao mesmo tempo, tinha um verdadeiro amor pelo que ele escrevia. Ele senta na minha frente e diz assim: “Garoto da sua idade tem nojo de chupar boceta”. Eu olhei e disse: “Mas faz tempo que você não vê uma, né?” Ficamos amigos. Era muito engraçado, ele não enxergava, então íamos para os jogos de futebol juntos e ele ficava me perguntando do jogo, e eu respondia na maior inocência. No jornal tem um monte de crônica em que ele fala de mim, me botou o apelido de Marcelinho. Aí ele começa a crônica assim: “Este Marcelinho é uma besta, ele vai ao futebol e não consegue enxergar o que está vendo”. Era ele que não via porra nenhuma! Era um jogo que só existia na cabeça dele, o Sobrenatural de Almeida. E assim foi até ele morrer.

Você também foi colega do João Saldanha, não foi?

Eu e João viajávamos sempre juntos, e também frequentávamos a praia no mesmo lugar, entre o Arpoador e Ipanema, um lugar chamado Castelinho, que não existe mais. Ali iam os caras antigos do futebol, Carlinhos Niemeyer, do Canal 100, Sandro Moreira, colunista importante da época, e jogadores da velha guarda… Eu era o único novo. Aquilo estreitou nossa amizade. Nas viagens, ele dizia: “Anda, porra! Você escreve demais!”, porque ele queria me levar para museus, para conhecer as coisas. Eu respondia: “No dia em que eu for o João Saldanha, vou escrever 30 linhas. Você pode, eu não posso…” [Com a voz embargada.] Quando ele morreu, eu escrevi umas 20 páginas sobre ele para PLAYBOY [na verdade, 11 páginas, em outubro de 90]. Era um livro que ele me pediu para escrever sobre a vida dele. Eu tomei o depoimento, parei pela metade, e nesse momento, quando ele morreu, fui tentar escrever. Mas não conseguia, começava a chorar. Era um sofrimento. Aí o Juca [Kfouri], que cuidava de PLAYBOY, me ligou pedindo a história do João. Eu disse: “O que tenho está gravado, mas não vou escrever. Posso te entregar o que já está mais ou menos escrito, mas o resto é muito sofrimento”. E o Juca publicou.

O Saldanha era um sujeito bem irritado, não?

O João era na dele, mas quando invocava… Certa vez nós fomos ao Chile acompanhar um jogo do Brasil, isso no início dos anos 1980, época do [ditador Augusto] Pinochet, com toque de recolher que, se não me engano, começava às 7 da noi­te. Aí o João resolveu sair para beber. “Mas, João, daqui a pouco tem toque de recolher!” E ele: “Mas que toque de recolher o cacete! Esquece isso”. Esquece is­so? Era uma ditadura sanguinária, por­ra! Como é que eu ia esquecer isso? Mas acabei indo com ele. Aquela porra­da de nego falando mal do Pinochet, e eu só pensando: “Eu vou me foder, eu vou me foder…” Nessa altura, ele já não bebia muito, porque um pulmão era um quei­jo suíço e o outro não existia mais de tanto que ele fumou. Mesmo assim fomos embora do bar só de manhã.

Voltando, na ter­ceira rua apareceu uma porrada de ca­ra armado, aqueles tambores de lata pegando fogo para mostrar que era uma barreira policial. “E agora, senhor João Alves Jobim Saldanha, que porra nós vamos fazer da vida?” Veio um cara e ele dizendo que era “periodista brasileiro”, começou a conversar com o cara. Veio então o tenente que co­mandava sei lá que porra, e ele: “Sou jor­nalista, está aqui minha cre­dencial, vim cobrir a seleção brasileira e não sabia de nada”. Isso com a cara mais inocente do mundo. E não é que o filho da puta fez com que a polícia fosse nos escoltando até o hotel?

Depois que você virou repórter policial, esse medo de morrer virou algo comum?

Já fiquei no meio de vários tiroteios na minha vida. Fiquei em tiroteio na Rocinha, no Borel, na Mangueira. É obvio que você pode morrer, mas precisa ter calma e, mais que isso, não dar chance ao azar. Muitas vezes, você já está tão envolvido que não presta mais atenção, mas eu sempre prestei. Tem esse livro que todo mundo gosta de ler, A Arte da Guerra [tratado militar escrito durante o século 4 antes de Cristo pelo chinês Sun Tzu], que diz que a melhor defesa é o ataque. É mentira. A melhor defesa e o melhor ataque são você esperar a fragilidade do outro. Se você sair correndo em cima do seu adversário, pode ser surpreendido. Ao mesmo tempo, se você ficar acovardado, cede uma série de espaços. Eu sempre tentei refletir, mesmo na hora em que estava em meio a um tiroteio.

Sempre tentei entender para onde eu ia, em vez de ficar correndo igual um desgraçado sem saber o caminho. Eu aprendi um negócio com o Armando Nogueira [jornalista morto em 2010] que é sensacional. Serviu para minha vida inteira. Eu tinha entrado na Rede Globo e rolou uma baita enchente no Rio. Fui recrutado, mesmo sendo do esporte. Estava todo mundo correndo, o Armando Nogueira me segurou pelo braço e perguntou: “Está correndo por quê?” Eu respondi que estava correndo como todo mundo pelo meu trabalho. Ele disse sabiamente: “Esquece. Esse povo está correndo sem saber o que quer. Isso é mais encenação do que verdade. Vai devagar que você vai fazer a mesma coisa com mais tempo e ainda vai oxigenar melhor o cérebro”. Levei isso para o resto da minha vida.

Você acha que o Tim Lopes deu chance para o azar?

Uma questão muito importante para mim é a seguinte: a minha cara, as pessoas conhecem; a do produtor, não devem conhecer jamais. O Tim ganhou um prêmio com aquela matéria da feira das drogas, feita no mesmo ambiente em que ele depois foi gravar o funk que leiloava garotas. Quando o Tim ganhou o prêmio, foi receber. E ele recebeu num Jornal Nacional, que naquela altura dava uma audiência da porra. E depois ainda voltou no lugar, porque na teoria não tinha dado certo na primeira vez. Aí não teve jeito. Quando ele estava no bar esperando o contato, deu azar, um dos caras que tinha caído na feira das drogas o reconheceu. Quando eu entrava num negócio perigoso desse jeito, eu entrava para dar certo na primeira vez, não tinha segunda. A segunda eu deixava para daqui a um ano, porque é muito arriscado.

Você já deu tiro em alguém?

Não, nunca andei armado. Nunca.

Nem anda com segurança?

Não tem medo de levar um tiro pelas costas, já que mexe com pessoas poderosas, como no caso da Favela Naval [em que policiais militares de São Paulo foram flagrados agredindo e roubando moradores de uma favela durante uma blitz]? Mas acho que Deus protege. Acho que eu tenho um pacto com Ele que dá certo. Mas uma vez passei um sufoco e achei que a coisa ia babar.

O que aconteceu?

Em 1999, eu estava fazendo o Linha Direta na Globo quando tocou o celular e era a minha ex-mulher, aos prantos. “Tentaram me sequestrar, tentaram me sequestrar!” Eu tinha comprado para ela um Jeep Cherokee, que era da Sasha [Meneghel], e que a Xuxa tinha mandado blindar igual a um tanque de guerra. Você ia fazer uma manobra numa curva e ele era pesado. As blindagens de antigamente eram muito pesadas, e pra cuidar da Sasha, então, imagina? Era pior ainda. Ela dirigiu uns 20 dias, e não aguentou. Resolveu que queria um outro Cherokee, esse sem blindar. Como eu não consegui convencê-la, apertei o botão de “que se dane” e comprei.

Roubaram o carro com ela dentro duas semanas depois. Quando cheguei em casa, ela estava sem a chave, os caras tinham roubado a bolsa, e mulher adora levar tudo na bolsa, até o gato de estimação se bobear. Por isso, se você quer algo inseguro é uma bolsa de mulher: tem foto do marido, do filho, conta cheia de endereço, e por aí vai. Quando acharam o carro, fui atrás do guincheiro que o trouxe pra delegacia. Chamei e disse: “Sabe onde você pegou o carro? Você vai me contar legal onde é, porque se eu for embora, vai ficar ruim pra você”. Aí o cara contou que eram uns moleques assim, assado. Ele sabia de tudo. Mandei grampear o celular roubado e descobri que os caras ligaram para a Região dos Lagos no Rio de Janei­ro. Peguei o endereço e fui sozinho. “Vocês sabem quem eu sou?” Os caras sabiam. “Sabem aquela Cherokee que vocês roubaram? Tinha uma bolsa, cadê a bolsa?”

Qual era o meu medo? Não era de eles meterem um sequestro lá em casa, porque eles eram uns merdas, mas sim de entregarem pra alguém mais profissional. “Nós liberamos tudo, jogamos fora, pegamos o dinheiro, cartão de crédito, e o resto jogamos fora”. Eu disse: “Lembra que eu sei quem vocês são, sei onde vocês moram. Sei onde mora a sua tia. Sei quem é quem nisso aqui”. Aquele foi o dia em que eu mais tive medo, porque é um medo que você não sente por você, mas pela sua família.

Você tem cinco filhos, um menino e quatro meninas, com cinco mulheres diferentes. Nunca pensou em ter uma família mais “tradicional”?

A vida inteira eu quis ter uma família, e não consegui. Eu fiz cinco filhos com cinco mulheres diferentes, e não consegui construir aquela família estruturada de domingo. É a antítese do que eu aprendi e do que sempre tentei. Eu busco ainda, mas meus casamentos foram muito rápidos – menos o último, que durou 18 anos.A minha filha mais velha mora em Amsterdã, chama-se Patrícia, e agora está grávida do meu segundo neto. Na época em que a mãe dela ficou grávida, ela viajou, foi embora, e eu não queria ter filho. Foi uma coisa traumática. Um erro que cometi de não querer conhecê-la quando ela era pequena, porque intempestivamente fiquei com raiva.

Se eu pudesse refazer a vida nesse aspecto, teria refeito. A minha terceira filha também só fui conhecer quando ela tinha 20 anos de idade, porque a mãe dela engravidou, eu não queria que engravidasse, e houve uma absoluta separação. Cometi dois erros na vida, erros muito graves pelos quais eu não me perdoo, que foram não querer conhecê-las porque as mães quiseram ter os filhos e eu não queria ter. Mas também não as obriguei a tirar. Meu erro foi não reconhecê-las imediatamente. Até hoje eu sofro.

Você é a favor do aborto?

Sou a favor. Como você pode imaginar que as pessoas podem ter domínio sobre o corpo das outras? Não dá para ser contra. Meu caso era diferente. Só achei que estava acontecendo tudo muito rápido. Mas a partir do momento em que minhas mulheres ficaram grávidas, dei todo o apoio. Agora, imagine a situação de uma família em que o homem chega bêbado em casa e força a mulher a fazer sexo e a engravida. Ou uma mulher que é violentada na rua. Cada pessoa sabe exatamente as circunstâncias em que aquele problema lhe aflige. Por isso sou a favor do aborto. Mas sou também literalmente a favor do controle de natalidade. Acho uma inconsequência um governo não ter um programa de controle de natalidade, programas educacionais para que as mulheres possam se proteger. Não é possível as pessoas jogarem filhos no mundo para ficarem em esquinas e serem criados por avós.

Seu último casamento terminou de forma traumática?

Terminou em 2011. Mas em 2009 as coisas começaram a ficar feias. Àquela altura eu já estava havia cinco meses desempregado. Um dia, minha ex-esposa entra no quarto e diz: “Essa casa não tem dinheiro para nada, não tem dinheiro para champanhe, não tem dinheiro para carro novo, nem para viajar”. Imagine para um sujeito que passou a vida inteira trabalhando, de quem as pessoas sempre gostaram, que sempre, graças a Deus, deu certo, de repente se ver numa encruzilhada absoluta, sem saber o que fazer da vida. Não tinha emprego.

O diretor do SBT foi à minha casa, mas não virou. O Douglas [Tavolaro, diretor de jornalismo da Record] falava comigo, mas a resistência a mim ain­da era forte na emissora. Na Globo, ha­via uma barreira entre os diretores. Es­tava sentado na minha cama e tinha acabado de receber a última parcela da RedeTV!. Eu olhei para o céu, pois acredito em Deus firmemente, e disse que já havia feito a minha parte, o Senhor agora corre porque eu não tenho mais força. A minha sorte é que a RedeTV! foi de uma correção exemplar comigo. Nós negociamos o pagamento de 2 milhões que eles me deviam em oito meses, e eles pagaram integralmente, certinho, sem problema.

Felizmente, depois desse período, fui contratado pela Band. Para vo­cê ter uma noção, quando me empreguei na Band, ganhava um sexto do que ga­nhava antes. Também reduzi minha vida para um sexto, só queria acabar a casa. Naquele momento, segurando dinheiro, de­cidi que precisava reerguer minha vida. Muita gente dizia que minha carreira tinha acabado.

Você fala muito em Deus. É re­ligio­so?

Não acredito e não gosto de religião. Ela divide o homem, ela não leva o homem para um caminho de agregação. Eu acredito em Deus, em um diálogo direto com Ele. Não preciso de intermediário, o que não significa que eu não possa escutar um sermão de um padre, de um bispo ou um conselho de um espírita. Quer ver uma coisa que eu acho de abestalhado? A história que se fala do dinheiro que a Igreja Universal pega dos fiéis. Mas vai pegar de quem? Da Casa da Moeda? De uma máquina de fazer dinheiro falso? Como é que se fez a construção da Igreja Católica? Com doações, e pior, doações vendendo indulgência! Com a Santa Inquisição, vendendo espaços, vendendo alforrias. Assim se fez a fortuna da Igreja Católica. E ela tem suas marcas, que são difíceis de engolir. A última é a da pedofilia generalizada. Vai pedir dinheiro pra mim, eu não vou dar. Como também não vou dar pra Universal.

Por que aceitou fazer uma matéria detonando o Valdemiro Santiago, da Igreja Mundial do Poder de Deus, na Record?

Porque ela foi brilhantemente apurada pelo Amauri Ribeiro Júnior e pelo Leandro Santana [produtores da Record]. Quando o Douglas Tavolaro foi à minha casa pedir para eu amarrar a matéria, não tinha noção de quem era o Valdemiro, apesar de falarem que ele morava no meu condomínio, cinco ruas para cima. Eu nunca o vi. E eu tenho uma encrenca em dizer não para o Douglas. Ele é meu chapa. Mas, se fosse preciso, eu diria. Minha primeira pergunta foi: “A gente tem prova? Tem prova documental? Tudo?”As provas eram tão consistentes e robustas que não era mais a igreja, era um homem desviando dinheiro da igreja pra si mesmo, completamente diferente da época em que me pediram para fazer uma devassa sobre a Igreja Universal.

Naquela época era uma acusação sobre saco de dinheiro sendo carregado. Tem dinheiro sendo carregado por todas elas. Amigo, é melhor ter uma igreja do que um ponto de droga, uma casa de prostituição. Eu não gosto de religião, mas sem ela ia ser um caos absoluto. A diferença é que a Igreja Universal era uma história que, pra mim, não tinha consistência. Eu achei, pelo menos. A Glo­bo não achou. Mas ninguém me obrigou a fazer. Se eu não acho que tenho que fazer, eu não faço.

Mas a igreja do Edir Macedo é assim tão diferente da igreja fundada pelo Valdemiro Santiago?

Muito. O Edir Macedo foi fazendo a igreja, mas ao mesmo tempo foi montando pequenas empresas. Paralelamente à igreja ele conseguiu se tornar um empresário. O Edir Macedo já foi investigado pela Polícia Federal, pelo Ministério Público, pelo Gaeco [Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado], pelo Valdemiro Santiago. O fato é que até agora ninguém conseguiu condená-lo por nada. Não tem uma condenação, um processo em julgamento. O Valdemiro Santiago não aguentou o primeiro tranco. O Edir Macedo já foi investigado umas 60 vezes.

O advogado do Paulo Maluf, por exemplo, vai dizer que ele continua firme e forte apesar de inúmeras acusações…

O Maluf resiste por uma única razão: o mandato que mantém a imunidade dele. O Maluf não pode sair do Brasil, ele é procurado pela Interpol, pela polícia americana. O Edir Macedo viaja para onde quiser. Curiosamente, desde quando eu estava na Globo estão tentando arrumar uma sarna para o empresário Edir Macedo. Tentaram arrumar para o bispo, mas não conseguiram também. O Templo de Salomão [inaugurado em 31 de julho deste ano] custou 680 milhões de reais. Você acha que ele gastaria essa fortuna se pensasse só em dinheiro? Lavar dinheiro também não é uma possibilidade. Ali é tudo declarado.

Mas o Templo não foi erguido à margem da lei, sem todos os alvarás necessários?

Não foi. Estive uma vez na minha vida com o Edir Macedo. Ele é meu patrão, mas não tenho procuração pra defendê-lo. Mas quando ele foi preso há 15 anos, prenderam e não conseguiram manter preso. Agora é a história de que o Templo não está autorizado. Se não estivesse, você acha que o [prefeito de São Paulo Fernando] Hadadd estaria lá na inauguração?

Este ano foi ano de eleição… O [governador de São Paulo Geraldo] Alckmin tinha mais da metade dos votos nas pesquisas. O Haddad nem candidato era. Eles não precisariam estar ali no Templo pedindo voto. O Edir Macedo falou na cara da presidente Dilma que a questão da saúde e da segurança só Deus pode salvar. Ele convidou a presidente e falou para todo mundo ouvir aquilo. O Templo por fora é um impacto. Você olha e não tem noção do que é aquilo, vai revitalizar o [bairro palistano] Brás. Eu entrei no santuário e fiquei impressionado com a energia positiva.

Você saiu da Record em 2005 por causa do ex-presidente Lula?

O Cidade Alerta saiu do ar em 2005 porque o Lula não queria mais, ele interveio junto à Record. Ele tinha ido viajar para Angola e Japão, onde as colônias brasileiras fizeram questionamentos fortes sobre a insegurança no país, pois assistiam ao Cidade Alerta na Record internacional. Nisso eu leio uma nota na seção Radar, da VEJA, escrita pelo Lauro Jardim, falando que o presidente foi surpreendido e que havia uma pressão muito forte em cima da Record. Não é fácil ter uma pressão do presidente da República.

Ainda mais sendo uma concessão pública, não é?

E ele é o mandatário. Ele pediu para tirar o programa do ar. Àquela altura, a audiência batia na casa dos 21 pontos. A pressão era muito forte, e eu sentava a mamona nele. Na verdade, exagerei. Eu concordo, batia com muita violência nele. E o presidente da Record, na época o Denis Munhoz, foi ao Palácio do Planalto e o Lula reclamou do Cidade Alerta. Ele propôs tirar o Cidade Alerta do canal internacional, mas o Lula disse que não, que queria que tirasse do ar. Fiquei igual a balão no vento. Não estava feliz, e aí me convi­daram para fazer o Hoje em Dia com a Ana Hickmann. Almocei com ela e o Edu Guedes. Todo mundo diz que saí da Record porque colocaram o Edu Guedes, e não foi na­da disso, eu adoro o Edu. O que me fez sair foi que cada vez era uma coisa. Me mandaram fazer o Repórter Record, eu fiz um Repórter Record diferente e não era o Repórter Record. Me mandaram bolar um programa novo, aí não era mais aquilo. Aí era o Hoje em Dia. Estava parecendo ga­rota de programa, passando de mão em mão. Qual a vantagem nisso? Fui em­bora.

Tem alguma coisa de que você goste na TV?

Vai parecer ridículo, mas acho engraçada a sobrevivência do Silvio Santos. E vou explicar por quê. Ele de otário não tem nada, é astucioso, sabido. Comete gafes de propósito, tem acessos de riso, a calça cai. É obvio que ele sabe o que está fazendo, senão ele não era o maior comunicador do país. Um outro negócio de que eu gosto é o Legendários, do Marcos Mion. É muito legal.

Você brigou com o Gugu no episódio da falsa entrevista com um integrante do PCC. Por quê?

Quando você quer fazer audiência a qualquer preço, acaba pagando a conta. E olha, o Gugu paga aquela conta até hoje. Não porque eu queira. Mas foi um erro brutal de avaliação de quem fez. Eu vi que era uma farsa, e coloquei no Repórter Cidadão a farsa do “Domingo Ilegal”. Sentei a mamona nele. Tudo errado: o jeito de o sujeito falar, o jeito de segurar a arma com o dedo em guarda e não no gatilho… Você via o estacionamento atrás. Um amigo meu do Deic [Departamento Estadual de Investigação Criminal da Polícia Civil de São Paulo] me ligou e disse que tinha uma fita do irmão daquele cara fazendo uma procissão em Carapicuíba. O cara se chamava Barney e fazia pegadinha na Gazeta. Coloquei uma equipe na casa da mãe do Barney e, à noite, mandei ligar o equipamento. Foi fácil desmascarar.

Você assiste ao programa do Datena?

Muitas pessoas comparam vocês dois. O que ocorre é que nós somos diferentes. Ele é um comunicador, que olha aquilo lá e põe uma opinião. Eu sou um comunicador que olha aquilo lá, mas que fez aquilo e sabe como funciona, eu sei o mecanismo. A minha vida foi construída fazendo investigação. O Datena é um comunicador fora de série. Eu sou um comunicador que sabe como aquilo funciona. Ele diz que não gosta, e eu acredito que ele não aguente mais fazer o programa [Brasil Urgente, na Band]. E por que ele não aguenta? Porque está há 20 anos falando a mesma coisa e o negócio não muda, o repertório vai encurtando. Eu me divirto porque sei o que está acontecendo, lembro uma história minha, vou misturando tudo.

Hoje você tem 60 anos, cinco casamentos nas costas e cinco filhos. Já chegou a hora de usar Viagra?

Eu já usei. Agora não, que minha vida está tranquila. Logo que saí de um casamento, tomei bastante. Com o Viagra você pode fazer conta [do divórcio] e trepar ao mesmo tempo. Você está preocupado e a coisa anda. Quando me separei, não vim morar em casa, fui para um flat na Rua Amauri [no bairro paulistano de classe alta Itaim Bibi]. Flat tem três coisas: cara separado, executivo de passagem e puta querendo pegar os dois. O flat era de um amigo que tinha uma balada, a Josephine. Eu aguentei esse negócio dois meses, tinha momentos na vida em que eu não sabia o que estava fazendo, se deixasse, eu vivia na horizontal. Tinha um camarote fechado com champanhe francês rolando à vontade e um flat na outra esquina da balada. No início, achei o máximo, levava as meninas que eram capa de revista, mas cansei. Hoje, namoro uma mulher mais velha.

Quer dizer que você levou várias capas de revista para o seu flat?

Alguma era capa de PLAYBOY? Não só uma, foram duas! Hoje elas são minhas amigas, falo com elas, mas não posso dizer os nomes. Uma era até namorada de um cara importante, então é melhor não contar. [Risos.]