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29/01/2015 15:30 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:52 -02

Prefeitura de São Paulo trabalha com cenário digno de Mad Max com crise hídrica nos próximos meses na capital

Montagem/Divulgação e Estadão Conteúdo

Falta de água, saques, violência, problemas de saúde e o caos. O cenário, digno de Mad Max, vem sendo trabalhado nos corredores da Prefeitura de São Paulo nas últimas semanas. A informação está na coluna desta quinta-feira (29) da jornalista Mônica Bergamo, no jornal Folha de S. Paulo.

O colapso iminente do Sistema Cantareira, principal fonte do abastecimento de água da Grande São Paulo e na capital, previsto para começar entre o fim de março e o começo de abril, já faz com que o governo do prefeito Fernando Haddad projete um cenário parecido com aquele vivido por Itu, no interior paulista, em 2014. Lá, protestos e situações de calamidade pública foram testemunhadas.

A sugestão do diretor metropolitano da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp), Paulo Massato Yoshimoto, de que não só a capital paulista, mas todo o Estado, pode viver um regime de rodízio com cinco dias sem água, por dois com abastecimento, levou Haddad a pedir explicações junto ao secretário estadual de Recursos Hídricos, Benedito Braga. A resposta oficial trouxe pouco alento até o momento.

Em Itu, protestos foram registrados e, caso a água deixe de chegar definitivamente à casa dos paulistanos, incidentes de depredações, tumultos e saques são esperados. Outro problema seria relativo ao cuidado com a já escassa água da capital. Embora São Paulo se apresente em condição favorável na questão de saneamento básico quando comparada a outras capitais e Estados do País, a contaminação da água pode se tornar um problema mais sério.

Segundo especialistas ouvidos pelo Brasil Post, o uso indiscriminado de poços artesianos, intensificado nos últimos meses na Grande SP, pode colocar em risco os lençóis freáticos, uma vez que setores da cidade – sobretudo aqueles com histórico de terem abrigado indústrias e fábricas – já possuem um nível de contaminação do solo e, consequentemente, o uso de água não tratada pode disseminar doenças. O armazenamento muitas vezes equivocado também pode agravar o problema.

O próprio Massato, em outubro do ano passado, sugeriu em reunião fechada da cúpula da Sabesp, que “não saberia o que fazer” caso a seca se prolongasse em 2015 como se desenrolou no ano passado. “Vamos dar férias para os 8,8 milhões habitantes e falar ‘saiam de São Paulo’, tá certo? Porque aqui não tem água. Não vai ter água pra tomar banho, não vai ter água pra limpeza da casa. Quem puder compra garrafa, água mineral. Quem não puder, vai tomar banho na casa da mãe lá em Santos, Ubatuba, Águas de São Pedro... sei lá”, disse.

O vice-governador de São Paulo, Márcio França, contemporizou a situação no âmbito estadual, incluindo as declarações de Massato. “Ele é um bom técnico, respeitado por todos nós, e ele como técnico tem obrigação de falar 'olha, eu acho, minha opinião é esta', e foi o que ele falou. Agora se haverá ou não (racionamento) é uma decisão que cabe ao governador, ao secretário do Estado (de Recursos Hídricos)”.

Se no clássico filme de Mel Gibson a luta é pelo combustível, em SP a luta pela água está apenas começando.

Lições da história

De acordo com reportagem do jornal O Estado de S. Paulo desta quinta-feira, um cenário de cortes tão catastrófico só foi registrado antes da conclusão da primeira etapa do Cantareira, em 1974. Naquela época, sem os 11 mil litros por segundo que passaram a ser produzidos pelo Cantareira, a parte leste da Grande SP chegava a ficar dias sem água, aguardando por abastecimento com poços e caminhões-pipa. Eram tempos em que a região metropolitana tinha cerca de 8 milhões de pessoas, ou seja, menos da metade dos mais de 20 milhões atuais.

Nem a conclusão completa do Sistema Cantareira, em 1982, que elevou a capacidade de produção de água do manancial para 33 mil litros por segundo, foi suficiente para que 100% da região tivesse acesso a água tratada. O fim do racionamento contínuo, que afetava principalmente a zona leste da capital, só foi decretado em 1998 pelo ex-governador Mário Covas (PSDB), após a conclusão do Sistema Alto Tietê, cujas represas ficam na região de Suzano e Salesópolis.

Dois anos depois, a falta de chuvas fez cerca de 3 milhões de pessoas abastecidas pelo Guarapiranga na zona sul viverem durante três meses com água racionada. Na ocasião, o rodízio adotado foi de dois dias com água e um dia sem. A medida terminou em setembro de 2000.

Segundo dados da Sabesp, o Cantareira recebeu 151,1 bilhões de litros de água a menos do que a companhia esperava, levando em consideração o cenário mais pessimista. A pior previsão compara os dias de hoje com 1953, até então o ano mais seco da história do reservatório antes de 2014.

Câmara pode aprovar multa para quem lavar calçada

Diante da perspectiva catastrófica, a Câmara Municipal tem nas mãos um projeto de lei que pode multar quem desperdiçar água na capital. O PL 529/2014, de autoria dos vereadores Roberto Trípoli (PV), Nelo Rodolfo (PMDB), José Police Neto (PSD), Mário Covas Neto (PSDB), Laércio Benko (PHS) e Ari Friedenbach (PROS), pode aplicar multas de R$ 1 mil para quem lavar calçadas ou veículos com água tratada da rede de abastecimento da cidade.

De acordo com o texto de justificativa, a situação que a cidade está passando é muito grave e a prefeitura precisa tomar uma medida. “A despeito de não ter Lei Municipal que trate do saneamento e da distribuição de água, a cidade não pode ficar parada sem agir diante de uma ocorrência gravíssima como essa da seca”, diz o texto. O projeto está em tramitação e irá à votação em plenário após passar pelas Comissões de Mérito.

(Com Estadão Conteúdo)