LGBT
29/01/2015 18:27 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:47 -02

A força feminina tem nome e sobrenome: Cássia Eller

Cássia Eller deixou marcas. Por onde ela passou, naqueles que ela tocou e em quem ainda será tocado por sua voz. Ninguém escapou ou escapa ileso de Cássia. Mesmo hoje, 13 anos após a morte ter roubado a cantora para si. Algumas lembranças são nostálgicas. Outras são de escombros – pois Cássia quebrou inúmeras barreiras. É o que fica evidente no documentário "Cássia Eller", de Paulo Henrique Fontenelle, que estreia nesta quinta-feira (29).

Cássia Rejane Eller nasceu em 10 de dezembro de 1962, no Rio de Janeiro (RJ). Entretanto, para nós, ela nasceu apenas nos anos 1980, parida pela explosão do rock nacional daquela década. Urbano, desiludido, selvagem. Após passagens com a família por diversas cidades do País, em decorrência da profissão de paraquedista militar de seu pai, Altair Martins Eller, àquela época, Cássia morava em Brasília, ponto-chave desse cenário musical. E foi nas madrugadas brasilienses que a cantora fez sua voz rouca ecoar pelas primeiras vezes.

Nos palcos, a performance da cantora já era uma "catarse profunda", como diz Zélia Duncan em depoimento ao documentário. Em contrapartida, Cássia era tímida fora deles. Ela tocava em casas de show com sua banda; e atuou em musicais também. Desde aquela época, ela e Maria Eugênia Vieira Martins, a Eugênia, já tinham criado os laços que nunca mais se romperiam – nem a morte de Cássia em 2001 conseguiu fazer isso.

O sucesso regional a catapultou para São Paulo, e a cantora não deixou de lado a que já era uma de suas principais características: ecletismo musical. Pelo contrário – ela só o expandia, e sem parar. Em 1990, Cássia lançou pela PolyGram seu primeiro álbum, que levava seu nome. Já de início, interpretou canções de compositores do calibre de Paul McCartney, Renato Russo e Cazuza. Mas só o terceiro álbum, lançado quatro anos depois, a colocou no radar do sucesso, com "Malandragem", composta por Cazuza e Frejat.

A partir daí, cada passo que Cássia deu foi em direção à lua. Os álbuns "Veneno AntiMonotonia" (1997) e "Com Você... Meu Mundo Ficaria Completo" (1999) abriram espaço para o estouro de "Acústivo MTV" (2001). Para ela, foi a realização de um sonho. Para sua carreira e a comunidade da música nacional, a coroação de uma cantora que estava em seu ápice, fazendo shows para milhares de pessoas, que já pareciam querer engoli-la. E Cássia retribuiu: parecia querer engolir a plateia também. Sua força tinha esse tamanho.

Revolucionária até depois da morte

O diretor Fontenelle já tinha seu pé na atual fase de contemplação do cinema brasileiro pela música brasileira. Ele dirigiu "Loki – Arnaldo Baptista" (2008), sobre o membro dos Mutantes, e agora empregou sua sensibilidade na tarefa de contar a história de Cássia Eller. E acerta em muitos sentidos. Primeiro, por se afastar de lugares-comuns para abordar a cantora: não há uma "sapatona drogada" aqui. Há um ser humano multifacetado, que deixou uma textura própria no cenário musical brasileiro e na vida muitas outras pessoas. E cuja morte, à época, foi informada irresponsavelmente pela imprensa. Falou-se muito de overdose, mas pouco dos fatos. Na verdade, foi um infarto do miocárdio que matou a cantora.

Segundo, pela cuidadosa seleção de imagens – algumas raras e inéditas, outras feitas com colagens de fotografias a fundos supercoloridos – e depoimentos de família, amigos e músicos, como Nando Reis, Lan Lan e Oswaldo Montenegro. Terceiro, pelo bom sequenciamento dos fatos: o lançamento de cada álbum, as pessoas que passaram pela vida de Cássia, a maternidade que a mudou profundamente. A narração em off de escritos pessoais da cantora por Malu Mader tempera a mistura.

Por último, mas não menos importante, por enfatizar o pioneirismo de Cássia no que se refere aos direitos LGBT. Pouco antes de sua morte, em entrevista à revista Marie Claire, a cantora disse que gostaria de ter um contrato de casamento com Eugênia, para resguardar juridicamente sua família. A declaração foi usada no processo de guarda de Chicão, filho das duas. A tutela da criança e dos bens deixados por Cássia, por fim, ficou com Eugênia, depois da disputa com Altair, pai da cantora. Trata-se do primeiro caso do tipo na história do País. "Ela foi revolucionária até mesmo depois de sua morte", comentou Fontenelle, em entrevista ao Brasil Post.

Não diferente da obra da cantora, o documentário é pungente e, por vezes, sensível ou agressivo. É boa opção para quem quer relembrar Cássia ou conhecê-la.

Leia a entrevista com o diretor, Paulo Henrique Fontenelle, concedida ao Brasil Post:

Cássia foi transgressora. Quais foram os caminhos que ela abriu?

Cássia sempre foi sincera e autêntica, em toda sua vida. Acho que esse foi o grande diferencial dela. Musicalmente, ela quebrou barreiras ao não se ater a apenas um único gênero musical. Ela misturava samba com rock e forró, misturava Chico Buarque e Nirvana. Ela uniu tribos que não se misturavam, fez roqueiros ouvirem samba e forró, e sambistas aceitarem o rock e a música internacional. Tudo de maneira natural e espontânea. Mas a revolução da Cássia vai além da música. Com sua autenticidade, ela quebrou barreiras sociais ao assumir sua homossexualidade em pleno anos 1990 e abraçar a maternidade. Até mesmo depois de sua morte ela ainda conseguiu revolucionar, quando a Justiça cedeu a guarda de seu filho à companheira. Ela fez muita gente debater assuntos que antes eram tabus.

O documentário tem uma carga tão emocional quanto as músicas que Cássia cantou. Isso foi intencional?

Ela sempre colocou emoção em tudo que fez. Cássia sempre foi sincera na maneira de viver e de cantar. E isso se reflete no filme, que busca mostrá-la de todos os ângulos, sem máscaras. Ao vê-lo, fica claro como ela fez do amor – seja pela música, pelo filho, pela família – um fio condutor para sua vida.

Como foi o processo de produção do documentário? Como e onde as imagens usadas foram encontradas?

Em 2010, levei o projeto para a Migdal Filmes e iniciamos a produção. Embora as filmagens só tenham acontecido de fato em 2013, passamos todos esses anos levantando o máximo de histórias, fotos e imagens de arquivo que podíamos. Conseguimos um rico material. Para isso, recorremos a todas as emissoras de televisão, família e amigos que tivessem imagens caseiras dela. Além disso, fomos atrás de qualquer pessoa que pudesse ter filmado Cássia em shows ou tivesse alguma pista de onde encontrar materiais. Foi um trabalho árduo, mas profundamente prazeroso.

Por que fazer um documentário sobre Cássia? Ela precisava ser abordada num projeto como este para que alguns fatos fossem divulgados?

O projeto nasceu da necessidade de resgatar essa figura tão importante da nossa cultura e que raramente teve sua história contada com o devido cuidado, evitando estereótipo que foram ainda mais reforçados na ocasião da morte dela, com notícias precipitadas e irresponsáveis sobre uma possível overdose. Ela foi uma cantora que emocionou e influenciou muita gente, mas poucos conheceram sua essência de fato. O filme busca mostrar todos os lados dessa pessoa, sem restrições. Falamos da Cássia artista, das relações com as drogas e casos amorosos, mas também mostramos a mulher, a mãe de família, a amiga, a filha e a companheira. O filme faz jus à sinceridade de Cássia, mostrando a complexidade que fez dela uma pessoa tão especial. Acho que, quem for ao cinema para matar as saudades da artista, vai poder relembrar as músicas e os shows, mas também vai conhecer a mulher Cássia Eller, que é tão fantástica quanto a artista.

Cássia tinha rebeldia em sua essência. O que a tornava rebelde?

A espontaneidade era uma marca muito forte dela, e as atitudes que ela tinha no palco eram reflexo disso. Ela queria mais era se divertir, e o palco era a oportunidade de se sentir livre de qualquer amarra de sua vida pessoal. Ali, ela extravasava e jogava para longe sua timidez. Como ela mesma dizia, quando ela estava no palco era como se fosse a última coisa que ela faria na vida. Desde criança, o convívio social era um problema para ela. Na música, Cássia encontrou uma maneira de botar para fora todo seu sentimento. No palco, ela encarnava outra persona, levava sua performance até as últimas consequências – e sorte de quem estava lá para presenciar isso.

Existe algo que você gostaria que tivesse ficado no documentário, mas teve de ser cortado na edição?

Puxa, tanta coisa! Tivemos ótimos depoimentos com pessoas como Milton Nascimento, Frejat, Djavan e Luiz Melodia, que acabaram ficando de fora por conta do tempo. Tínhamos muitas imagens caseiras e entrevistas com a Cássia que eu gostaria de ter usado, mas que também não cabiam no tempo do filme. Tinha uma sequência linda do Nando Reis contando a história da música "All Star", com ele a tocando no violão, que tentei preservar até o último momento. Quem sabe não conseguimos colocar no DVD? Acho que montar é um exercício enorme de desapego. A primeira lição para quem quer fazer cinema é estar preparado para jogar fora o seu melhor plano.

Como vai o mercado do cinema brasileiro para documentários? Ele é receptivo? O que sua experiência diz?

Acho que está cada vez melhor. O preconceito que existia com o formato está se diluindo cada vez mais. Há pessoas lotando salas de cinema em busca dos documentários. Já existem vários festivais dedicados exclusivamente ao gênero, e isso incentiva e aprimora a produção. Hoje temos documentários de vários estilos e linguagens diferentes sendo produzidos e fazendo bonito nas telas brasileiras e em festivais no exterior. Mas ainda é preciso criar mais público e lutar por maior distribuição.

Hoje, as demandas LGBT são debatidas como nunca na sociedade brasileira. Na sua opinião, qual é a contribuição de Cássia nesse sentido?

Ela foi importantíssima nesse contexto. Cássia nunca escondeu sua homossexualidade. Sempre tratou isso de forma natural – como deve ser mesmo. Ela nunca levantou bandeira ou fez discursos sobre o assunto. Numa época em que o assunto ainda era tabu, ela simplesmente agia de acordo com o que acreditava, sem dar explicações. O caso da guarda do Chicão [cujo pai biológico é Otávio Fialho, músico falecido pouco antes do nascimento do filho] foi, talvez, seu último grande ato e ajudou muito o Brasil evoluir como sociedade. Ela foi revolucionária até mesmo depois de sua morte.