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26/01/2015 11:44 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:47 -02

Crise da água em SP: ‘Vilões' do consumo, indústria, comércio e agronegócio ensaiam êxodo e falam em novos tempos

Montagem/iStock e Estadão Conteúdo

Dono de 40% da água disponível para o abastecimento na Grande São Paulo e no litoral paulista, o setor industrial não esconde: há um êxodo de empresas deixando o Estado. Isso também vale para o comércio. Oficialmente, a crise hídrica é apenas um dos elementos que levam para outras regiões do Brasil o capital financeiro e, consequentemente, os empregos. A perspectiva de colapso entre o fim de março e o início de abril só dará prosseguimento a um natural ‘efeito cascata’ (com o perdão do trocadilho).

Segundo pesquisa realizada em agosto do ano passado pelo Departamento de Pesquisas e Estudos Econômicos (Depecon), órgão da Federação e do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp e Ciesp), 67,6% das 413 indústrias ouvidas temiam a chance de racionamento, sendo que 54,5% delas admitiam não ter uma fonte alternativa de água, como políticas de reuso ou outras fontes de captação, como poços.

“Não é propriamente diante da crise, mas há empresas saindo do Estado de SP por outras razões, sejam elas econômicas ou fiscais. Aqui o custo da mão de obra é maior pela qualidade de vida e aqui a questão da água coloca às industrias dificuldades reais. Muitas enxergam que não dá para ficar no Estado porque não tem água em determinadas regiões. Há um problema sério na região de Campinas, por exemplo”, explica ao Brasil Post o diretor do departamento de meio ambiente da Fiesp, Nelson Pereira dos Reis.

A Fiesp relembra que há 42 projetos de reuso e conservação da água em São Paulo, com os quais 10 milhões de litros são economizados por ano. A entidade diz estar trabalhando “com orientações” para melhorar os procedimentos de reuso e reaproveitamento da água. Contudo, a federação afirma ainda “depender dos órgãos reguladores e das concessionárias de água” para otimizar tais processos. Até março, a Fiesp espera ainda ter pronto um estudo com a identificação de áreas onde seja possível buscar água subterrânea no Estado.

“É uma das poucas alternativas que temos. É a mais eficiente e que dá mais esperança de termos uma oferta adicional de água no curto prazo. Não vai resolver o problema, mas é o que ajuda, assim como a continuidade das empresas em trabalhar com a restrição de consumo, com redução da jornada de trabalho, e concentração de atividades. Estamos enfrentando uma ‘guerra’”, completa Pereira.

Menos água, menos empregos e preços mais caros

A avaliação de Rogério Amato, presidente da Associação Comercial de São Paulo (ACSP) e da Federação das Associações Comerciais do Estado de São Paulo (Facesp), não é muito diferente da do dirigente da Fiesp. De acordo com ele, as tendências apontam de fato para um êxodo industrial e comercial em SP, com base nas informações de 420 bases da ACSP no interior e 15 distritais na capital.

“Há mais de um ano se fala na questão da água. Parte da produtividade que temos em SP se dá justamente por conta da água. O problema não é simples e se agrava no setor agropecuário, pois lá você tem queda de produtividade e isso mexe com o preço da comida e outras coisas. O transporte pelos rios também fica prejudicado e aumenta os custos (...). É preciso haver uma mobilização de todos e nós já orientamos os nossos associados a cortar o consumo pela metade”, revela Amato.

De acordo com a ACSP, os meses de novembro e dezembro apresentaram uma retração na criação de empregos, mesmo aqueles temporários, comuns em época de festas de fim de ano. O comércio de rua, segundo Amato, também vem sendo afetado e isso cria, na visão dele, uma necessidade de readequação no setor. "Temos uma 'nuvem negra' pela frente. O empreendedor precisa de esperança e da crença que as coisas vão melhorar, mas hoje o clima é muito ruim. Estamos em um momento de respiração suspensa, esperando o que vai acontecer".

A desaceleração já em andamento na indústria não só paulista, mas brasileira, leva a um fechamento de vagas. Segundo a Fiesp, apenas no segundo semestre de 2014 quase 3 mil vagas foram fechadas e, entre outras causas, a crise hídrica não pode ser desprezada. “Confiaram em São Pedro e se descuidaram da metrópole. Se houver racionamento, é preciso que esse governo venha conversar conosco, coisa que não fez antes, quando disse que não havia problema”, completa Nelson Pereira. Não por acaso, o pessimismo impera hoje.

Em entrevista ao IG no ano passado, o presidente do Ciesp Rafael Cervone já apontava que os setores mais afetados pela crise hídrica seriam os de alimentos, bebidas, têxtil, pape/celulose, e o químico. Não por acaso, duas grandes empresas do setor de bebidas – Ambev e Coca-Cola – levaram para fora de SP investimentos de R$ 2,4 bilhões em novas plantas, conforme noticiou o jornal Folha de S. Paulo.

Hora de um novo paradigma

Divulgada na semana passada, a sexta edição da pesquisaIndicadores de Referência de Bem-Estar no Município (Irbem) mostrou que dois em cada três paulistanos (68%) já sofreram algum problema com o abastecimento de água. Isso significa dizer que cada cidadão tem tido de repensar o seu uso de água, com banhos mais curtos, reaproveitamento de água da máquina de lavar, e adoção de sistemas mais modernos de descarga nos banheiros, para citar apenas três medidas eficazes em tempos de crise.

Naturalmente, os setores industrial, comercial e agropecuário têm de fazer o mesmo. É a oportunidade que a secretária-geral da ONG WWF-Brasil, Maria Cecília Wey Brito, vê como imperdível.

“Acho que temos pela frente uma situação que nunca vivemos antes, tamanho o potencial conflito que vai se estabelecer não só em SP ou no Rio, mas em outros Estados também (...). Temos 21 bacias hidrográficas em SP e apenas seis comitês de bacia funcionando. São eles que cobram pelo uso das industriais e onde não há esse uso não é cobrado para ser reinvestido. Já a agricultura não para com ou sem comitê de bacia. É preciso que todos saibam que isso acontece e que seja discutido”, opina.

O professor de Engenharia Hidráulica da Universidade Presbiteriana Mackenzie Antonio Giansante também vê como necessária a cobrança pelo uso do recurso hídrico, ainda mais com o aumento da competição pela água. “É uma ferramenta utilizada em outros países que que torna o processo mais eficiente até para as indústrias”, diz.

Na semana passada, em artigo publicado na Folha, o presidente da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp), Jerson Kelman, disse que o racionamento pode ser “forçado” pela falta de chuvas. “Não é sensato brigar com os fatos. Se for necessário chamar isso de racionamento, que assim seja. O relevante é impedir que ações na Justiça, de proteção a supostos direitos individuais, atentem contra a segurança hídrica de todos”, escreveu.

O que nem Kelman, nem a Sabesp, parecem querer responder é quem são os grandes consumidores de água do Estado. Reportagem da Pública tentou descobrir quais são as 500 empresas que consomem quase 2 milhões de metros cúbicos por mês, mas não conseguiu, mesmo utilizando a Lei de Acesso à Informação. E, de todos os entrevistados pelo Brasil Post, a convergência atendeu por uma única palavra contra a crise: transparência. É o que todos pedem.

“É preciso transparência nesse momento difícil, olhando para frente e planejando um novo caminho, discutido com toda a sociedade”, analisa Giansante. “É preciso que sejamos avisados do problema, para que planos sejam feitos com inteligência, impactando menos”, diz Pereira. “Pedimos muito isso no ano passado. Podíamos ter reduzido o consumo antes, mas o governo fingiu que nada acontecia. É preciso ser claro com a população”, conclui Maria Cecília.