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15/01/2015 09:59 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

Estudantes da Faculdade de Medicina da USP relatam abusos físicos, ameaças e até sequestros em CPI da Alesp

Montagem/Maurício de Souza/Alesp/Thinkstock

Financiado parcialmente por ex-alunos, hoje médicos formados, o Show Medicina, promovido por veteranos da Associação Atlética Acadêmica Oswaldo Cruz (AAAOC), é palco de uma série de abusos e condutas de humilhação e violência. É o que relataram alunos aos deputados que conduzem a CPI que investiga violações de direitos humanos no ensino superior estadual na Assembleia Legislativa (Alesp).

Para quem não conhece, o Show Medicina trata-se de um espetáculo teatral com veteranos e calouros da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP). Segundo depoimentos de estudantes, o show é cercado de trotes, misoginia, machismo e quebra total dos direitos humanos. Os incidentes de humilhação são vários, envolvendo violência física, sexual e até mesmo sequestros.

“Os veteranos podem sequestrar os calouros para aplicar um trote neles a qualquer momento. E assim foi. Pegaram cinco calouros. Tivemos que tirar a roupa e simular prática homossexual na frente de 20 ou 30 pessoas. Foi bastante constrangedor e humilhante. Eu não contei aos meus pais, só ao meu terapeuta”, disse o estudante Mauro Xavier, em declarações reproduzidas pelo site da Alesp.

Os dois primeiros anos na FMUSP, aliás, são os piores para os calouros. Já durante os ensaios para o Show Medicina, que duram entre 20h e 4h, quem não consegue ficar acordado acorda com o órgão sexual do veterano no rosto. Para participar do espetáculo, de maneira voluntária, os alunos ainda precisam passar por um ‘vestibular’, no qual precisam ficar nus no palco e simular situações de estupro. Sob fortes holofotes, eles não conseguem ver quem está na plateia.

Além de terem se aturar piadas machistas e contra minorias (negros, homossexuais e nordestinos), os calouros são alvo dos veteranos em trotes violentos. Um deles consiste em subir em uma mesa para simular posições sexuais, enquanto outro envolve passar gelo nos genitais. Para o estudante Alan de Oliveira, o pior que viveu foi o de ‘beber até cair’. Literalmente. O aluno chegou a perder um dente durante o trote.

“Você é amarrado numa cadeira para não cair de tanto beber e vai tomando destilados até passar mal e desmaiar. Isso porque, quando você não aguenta mais, um outro colega faz você beber ainda mais. Em dado momento, mesmo sendo segurado, levantei, tropecei, caí de cara no chão, bati a cabeça e quebrei o dente molar. Me deram um banho porque eu havia vomitado. Ligaram para um sapo (apelido dos veteranos) da Ortopedia. Ele me cutucou, acordei, me deu um ‘mata-leão’ e me levaram para o Instituto Central. Lá, um cirurgião fez tomografia porque eu estava com um traumatismo cranioencefálico”, relembrou.

Em outro evento dos veteranos da FMUSP, chamado ‘Churrasco da Invasão’ e realizado em um sítio, os calouros são jogados em uma piscina por “mascarados vestidos com roupas de hospital” e doses de lança-perfume são atiradas na água, para causar formigamento. Oliveira disse que teve os olhos queimados porque o lança-perfume o atingiu nos olhos, e “por sorte” ele não tem sequelas do episódio.

Prostitutas, ameaças e silêncio

Diretores da Atlética ainda contratam prostitutas para “se divertirem” em outro trote contra os calouros. Nele, os estudantes devem seguir a um apartamento vestidos a rigor. Lá eles recebem um medicamento indicado para déficit de atenção e Viagra. Após beberem muito álcool, são “apresentados” a várias prostitutas, pagas pelos veteranos.

Perante tantos abusos, muitos deles levados aos diretores da faculdade, por qual razão nada é feito? “A violência é negada. Há uma cultura interna de que ali se encontra a elite do País. Existe uma espécie de fraternidade com modus operandi semelhante a uma seita ou maçonaria, com privilégios e poder. É uma instituição conservadora e machista. Quem se opõe a essa tradição é estigmatizado e perseguido”, afirmou o estudante Felipe Scalisa.

O ‘pacto de silêncio’ que reina na FMUSP acaba marginalizando aqueles que resolvem trazer a público as denúncias de abusos em festas e eventos da instituição. Com os estudantes que têm feito as denúncias, isso não é diferente. Todos alegaram estar recebendo ameaças de veteranos. A situação não é muito diferente da vivida pelo estudante Luiz Fernando Alves, ex-aluno da Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto (Famerp).

Na instituição do interior paulista, ele disse que os trotes contam com a conivência dos diretores, professores e funcionários. “Para mim, eles são os maiores responsáveis, pois o aluno que apanha esse ano será o que vai bater no ano seguinte. Se a direção não toma nenhuma atitude, essa situação não vai mudar nunca”, disse aos deputados da CPI. Por conta das denúncias que fez, Alves disse ter recebido ameaças de morte e foi acusado de ser mentiroso e usuário de drogas.

“Não é fácil, a gente estuda quatro anos para entrar na faculdade e quando consegue é obrigado a abandonar. Isso deixa a gente sem rumo”, relatou. Na Famerp, ele relatou ter sido alvo de um trote em que várias pessoas urinavam em cima dele, que tinha de ficar deitado no chão. “Em outra situação, eu e outros calouros fomos obrigados a ficar nus em cima do palco, ocasião em que me jogaram cerveja gelada, o que me levou a ter princípio de hipotermia”, emendou Alves.

Enquadramento e depoimentos aguardados

Segundo o presidente da CPI, deputado Adriano Diogo (PT), defende o enquadramento do trote e dos abusos de direitos em festas universitárias como crime de tortura. “Gostaria de buscar, com o Ministério Público e os reitores, termo de ajustamento de conduta para estabelecermos limites. Não há hierarquia entre universitários, ninguém pode ser submetido ou coagido”, explicou o parlamentar.

Nesta quinta-feira (15), a CPI recebe o diretor da FMUSP, José Otavio Costa Auler Junior, e o presidente da Comissão de Graduação da FMUSP, Edmund Chada Baracat. Ambos os depoimentos são dois dos mais aguardados desde o início das denúncias de abusos na universidade. Pelo menos oito casos já estão sendo investigados pelo Ministério Público e o número de denúncias “não para de crescer”, segundo a comissão.