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14/01/2015 10:06 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

Na mesma semana em que 17 pessoas morreram em Paris, 2.000 morreram na Nigéria. E ninguém falou nada

Montagem/AP Photo/Reuters

Na mesma semana em que o mundo inteiro se comoveu com os atentados na França, a Nigéria – cuja capital, Abuja, fica a 4.450 km de Paris – viu o grupo terrorista Boko Haram perpetrar o que, segundo a Anistia Internacional pode ter sido o ataque mais mortal do grupo.

No sábado, 3 de janeiro, homens armados invadiram e saquearam a cidade de Baga e vilarejos vizinhos, no nordeste do país, e podem ter massacrado até 2.000 pessoas. De acordo com a CNN, quem conseguiu escapar, fugiu em ônibus ou a pé. Houve também relatos de pessoas queimadas vivas, dentro de suas casas.

Segundo números do governo da Nigéria, cerca de 150 pessoas morreram no ataque, incluindo “muitos terroristas”, de acordo com o Ministério da Defesa do país.

Mas... Por que a mídia não falou disso?

De acordo com o Guardian, a perseguição que os jornalistas sofrem pelo Boko Haram torna o trabalho no país muito difícil. Além disso, as pessoas estão isoladas nos vilarejos, sem acesso a internet, dificultando a difusão das informações – e de dados confiáveis – sobre os ataques.

Segundo informações do serviço de rádio da BBC, Baga também não conta com redes de telefone celular, que teriam sido destruídas pelo Boko Haram.

É um cenário bastante diferente dos atentados de Paris, onde quase ao mesmo tempo em que os fatos se desenrolaram, as redes sociais foram inundadas com informações, vídeos, e informações confiáveis que imediatamente estavam disponíveis para o mundo.

Além de a França ser mais próxima da nossa realidade - e da realidade dos americanos, por exemplo e dos europeus, por motivos óbvios - o assunto provoca mais empatia imediata nos leitores. É só pensar em quantas pessoas já visitaram Paris, e quantas já passaram as férias na Nigéria.

Isso explica, mas não justifica.

O Boko Haram, fundado em 2002, quer estabelecer um Estado Islâmico na Nigéria e, desde 2009, vem atacando civis em atentados cada vez mais violentos e mortais.

No idioma Hausa, Boko Haram significa “A educação ocidental é proibida”.

Em abril do ano passado, militantes ligados ao Boko Haram sequestraram mais de 250 meninas em uma escola em Chibok também na região nordeste do país.

A reação mundial a essa violência foi a campanha #BringBackOurGirls.

Dados da Eurasia Group

Além do silêncio da mídia internacional – que, tradicionalmente, cobre mal os assuntos africanos e conta com poucos jornalistas especializados no tema – chamou a atenção o silêncio das autoridades do país, ao contrário das autoridades francesas, que assumiram a linha de frente no combate ao terrorismo, convocando, inclusive, uma passeata que reuniu mais de 40 líderes internacionais.

Já os políticos nigerianos parecem estar mais focados no pleito eleitoral: o país escolhe seu próximo presidente no dia 14 de fevereiro.

O presidente atual, Goodluck Jonathan, expressou suas condolências em relação ao atentado na França, mas manteve o mais absoluto silêncio sobre o ataque do Boko Haram. No final de semana, o mandatário postou fotos do casamento da sua sobrinha, em sua conta oficial no Facebook.

O ministro das Finanças do país, Ngozi Okonjo-Iweala, também lamentou publicamente o ataque contra a revista Charlie Hebdo, mas não fez referência ao incidente em Baga.

Além dos 2.000 mortos, autoridades afirmam que 30.000 pessoas fugiram do Boko Haram, algumas delas para países vizinhos como Camarões e Chade.

Segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados, cerca de 7.300 nigerianos chegaram ao oeste do Chade nos últimos dez dias.

No último final de semana, pelo menos 19 pessoas morreram em um ataque chocante: uma menina de dez anos detonou explosivos que trazia presos ao corpo em um mercado, na cidade de Maiduguri. Outras crianças podem ter sido usadas nesse atentado.

#BagaTogether

Após a hashtag #JeSuisCharlie entrar para as mais utilizadas do mundo ao longo da semana passada, alguns internautas se mobilizaram em torno de uma hashtag para mobilizar o mundo em torno do drama vivido pelos nigerianos.

Nigéria, nós não esquecemos você. Sua humanidade é tão importante quanto a da França.

Não há algo como os ‘sem voz’, há apenas aqueles que são deliberadamente silenciados ou não ouvidos.

Toda a manhã eu acordo com notícias de uma carnificina. Eu sinto meu corpo, desesperada para saber se ainda estou viva.

Eu gostaria que os líderes mundiais fossem marchar no nordeste da Nigéria, onde milhares de pessoas morreram nessa semana.