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11/01/2015 19:17 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

Marta Suplicy escancara cisão dentro do PT e impõe duros desafios ao partido, à Dilma Rousseff e Lula até 2018

Montagem/Estadão Conteúdo

“Ou o PT muda ou acaba”. A declaração é da senadora Marta Suplicy (PT-SP) e foi publicada na edição de domingo (11) do jornal O Estado de S. Paulo. A repercussão das declarações da ex-ministra da Cultura e ex-prefeita de São Paulo foram imediatas, porém não representam algum tipo de segredo de Estado. É conhecido, até pelo PT e pela oposição, que o partido precisa se revitalizar, sob pena de fracassar em 2018. Mesmo com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva na cabeça de chapa.

Não é de hoje que Marta estava insatisfeita com os rumos do País e do próprio PT. Se antes ela negou os problemas, agora apontou uma dissonância entre a presidente Dilma Rousseff e Lula durante todo o processo eleitoral. É uma análise já apontada por uma reportagem da Revista Piauí, feita durante as eleições do ano passado. O estilo centralizador de Dilma mantém Lula e o próprio PT às margens de posições adotadas pelo Palácio do Planalto. O resultado foi o aumento de uma cisão que não é nova na sigla, que agora tenta “revitalizar-se sem se refundar”, como prega o presidente do partido, Rui Falcão – chamado de ‘traidor’ por Marta.

“O partido se acovardou ao recusar um debate sobre quem era o melhor para o País”, disse Marta ao Estadão. Ela foi uma das principais articuladoras do movimento chamado “Volta, Lula”, que tinha o conhecimento do próprio ex-presidente, que teria deixado a possibilidade em aberto, esperando um aceno que não veio de Dilma para ser candidato. Entretanto, fica claro que a senadora apresenta uma mágoa grande por ter sido preterida, no entendimento dela, de disputas mais relevantes, como a candidatura à Presidência de 2010, ou ao governo de SP em 2014.

“Sempre achei que ia ficar meio de fora das coisas, talvez pela origem, talvez por ser loura de olhos azuis, não sei”, desabafou. Ataques ao novo ministro da Cultura, Juca Ferreira, feitos há algumas semanas, já ajudaram a montar um cenário em que Marta, ao que tudo indica, deixará o PT. E tudo “por vaidade”, segundo o vice-presidente do PT, Alberto Cantalice. “É uma entrevista muito ruim para o partido. Essas vaidades, colocando os interesses pessoais acima do partido, prejudicam muito. A militância vê isso com muito maus olhos”.

Rachado, o PT pode pôr a perder o que, em 2010, o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu chamou de “projeto” do partido em seguir no comando do País, em 2018. Na época, ele descrevia Lula como “duas vezes maior do que o PT”, conforme noticiou o jornal O Globo na época. Mas a forte rejeição ao partido, que não era segredo e ficou escancarada no último pleito, pode ameaçar a disputa de 2018 ao Palácio do Planalto. Dois anos antes, os petistas acreditam que a disputa à Prefeitura de SP colocará o petista Fernando Haddad contra Marta, que até lá estará em outro partido (“tenho convite de todos os partidos, menos PSDB e DEM, disse ela”).

‘Inimigos’ e convergência à esquerda

Os ataques ao ministro da Casa Civil, Aloizio Mercadante, também causaram muito mal-estar entre os petistas. Ao jornal Folha de S. Paulo, Mercadante disse que Lula é o candidato do partido em 2018. Marta o desmentiu e o chamou de ‘mentiroso’, entendendo que ele deverá ser o nome endossado por Dilma para sucedê-la. A presidente deu uma demonstração de ‘ignorar’ as diretrizes definidas pelo PT após as eleições ao retirar do corpo de ministros nomes ligados a Lula, como o agora ex-ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Gilberto Carvalho.

Internamente, caciques do partido tentam ‘apagar o incêndio’ que ameaça pôr tudo a perder daqui a quatro anos. Seja pela pressão interna de correntes mais à esquerda ou como reação ao sentimento antipetista crescente em setores da sociedade, a chapa Partido que Muda o Brasil (PMB), que reúne alas que detêm 70% da direção da legenda, admite um discurso de reformulação interna e endurecimento no combate à corrupção. A tentativa é de unir o PT novamente a grupos historicamente aliados, como forças de esquerda e movimentos sociais, que se distanciaram nos último doze anos.

“Revitalizar, repensar, refazer, revigorar. Nunca refundar”, comentou o presidente do partido, Rui Falcão, sobre seu discurso aos correligionários da PMB. “É preciso um diálogo com as pessoas beneficiadas pelo governo do PT que atribuem a melhora de vida a si mesmos, a diversos outros fatores, à providência divina, mas não ao governo”, adicionou o atual assessor especial da Presidência Marco Aurélio Garcia, em encontro da Executiva petista em Fortaleza, em novembro do ano passado.

Mas antes de colocar a proposta de Garcia em prática, é preciso reunir lulistas e dilmistas na mesma mesa – e no mesmo caminho. Não é o que acontece neste momento, segundo declarações do deputado federal Paulo Teixeira (PT-SP), representante da Mensagem ao Partido (chapa de oposição interna e mais à esquerda) e segundo candidato mais votado nas eleições internas da sigla. De acordo com ele, Lula já está articulando essa aproximação com a esquerda e com os movimentos sociais. E Dilma, está participando do processo?

“Sabe quando o Garrincha brincava que faltou combinar com os russos? Os russos, neste caso, é a Dilma”, ironizou Teixeira. Internamente, a Mensagem e a Democracia Socialista (outra corrente de oposição) conta com nomes como os deputados Henrique Fontana e Alessandro Molon, o ex-governador do Rio Grande do Sul, Tarso Genro, Fernando Haddad e os ministros Pepe Vargas, José Eduardo Cardozo e Miguel Rossetto, que substitui Carvalho na Secretaria-Geral da Presidência.

Se conseguir ‘juntar os cacos’, o PT poderá dar uma boa mostra de qual caminho pretende seguir como partido em junho deste ano, quando está marcado o 5º Congresso do partido, em Salvador. Para a oposição, a expectativa é que o processo “autofágico”, descrito pelo deputado federal e senador eleito pelo DEM, Ronaldo Caiado, seja irreversível. “O partido está se destruindo. A corrupção com a vaidade tomaram proporções inimagináveis e esses dois fatores são determinantes no colapso do PT”, avaliou Caiado.

O que Marta ‘jogou no ventilador’ não é novidade, mas é bastante coerente no cenário atual. Pode ser o empurrão que faltava para os petistas executarem as mudanças que já reconhecem serem necessárias, sob pena de serem engolidos pela notória insatisfação presente, ora em maior ou menor grau, em todos os setores da sociedade brasileira.

(Com Estadão Conteúdo)

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