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10/01/2015 17:54 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

Estudantes da USP e da Esalq depõem à CPI na Alesp e revelam dramas pessoais após estupros e impunidade dos agressores

Montagem/Estadão Conteúdo e Thinkstock

“Nada não está tão ruim que não possa piorar”. É essa a impressão a cada novo depoimento na CPI aberta na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) para investigar violações de direitos humanos no ensino superior estadual. Mais três depoimentos de estudantes da USP e da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) foram colhidos pela comissão nesta quinta-feira (8) e sexta-feira (9) e um pesquisador procurou explicar do que se tratam os trotes.

No caso da USP, duas alunas da Faculdade de Medicina da instituição (FMUSP) – a mesma dos casos denunciados que deflagraram a CPI na Alesp e uma investigação do Ministério Público – falaram de estupros sofridos em 2004 e 2011, respectivamente, ambos em eventos da Associação Atlética Acadêmica Oswaldo Cruz. Ambas sofrem com os traumas e com a impunidade dos envolvidos até hoje.

A primeira estudante descreveu a rotina que vivia na faculdade, excluída por não gostar das atividades da Atlética. Chegou a entrar em depressão e tomava medicamentos por conta disso. A partir do quarto ano na FMUSP, segundo ela, começou a “ficar com alguns meninos, só por ficar, tanto que às vezes, nem me lembrava. Isso me envergonhava, mas a coisa foi se tornado natural”. Já morava em uma república de estudantes nesta época.

O abuso sexual aconteceu em duas ocasiões, com o mesmo rapaz. Em uma situação, ele tentou força-la a fazer sexo oral; na segunda, ele sugeriu que ela fizesse com ele e o namorado de uma amiga. A aluna se recusou, o rapaz foi embora, mas no dia seguinte ela acordou nua e com uma camisinha presa no ânus. “Não fiz boletim de ocorrência, porque achava que só ia me expor. Senti muita humilhação”, disse, em declarações reproduzidas pela Alesp.

A vítima guardou segredo até 2013, quando contou o que viveu ao marido, já que “acordava chorando”. Agora, resolveu denunciar o fato à CPI. “Soube que o que aconteceu não foi só comigo. É verdadeiro”, afirmou. “Fico impressionada ao ouvir os relatos, as histórias se repetem”, comentou em seguida a outra vítima, esta abusada sexualmente na FMUSP em 2011.

Ela viveu duas situações de estupro. Uma quando um diretor da Atlética – conhecido por assediar calouras – tentou abaixar as calças dela. Acabou sendo caluniada pelo mesmo homem dentro da universidade. De acordo com ela, essas situações “misóginas, machistas e perversas são recorrentes”, com veteranos chamando calouras de putas e agindo como se fossem “donos” das estudantes.

Essa mesma vítima ainda sofreu uma segunda violência sexual em 2011 na festa dos Carecas, no Bosque da Cidade Universitária. Depois de tomar duas tequilas, acordou no hospital, junto com os diretores da Atlética. Havia a suspeita de estupro e ela foi medicada com retrovirais. O abuso foi confirmado pouco depois pelos próprios diretores, e teria sido praticado por um funcionário da USP. Eles se negaram a ajudá-la a denunciar. Acabou conhecida nos corredores como “a estudante que transou com um segurança”.

Como outras estudantes da FMUSP, ela criticou a omissão da instituição. Apesar de existir pelo menos oito casos nas mãos do Ministério Público e pelo menos outros três denunciados, a Congregação da faculdade só reconhece três casos, os quais estariam sendo apurados ainda. A vítima diz “não ter medo algum”, graças ao apoio que recebeu. “Tenho uma rede de apoio institucional. Sozinha não teria conseguido”.

Estupro coletivo contra aluna da Esalq em 2002

Acompanhada pelos pais, uma estudante da Esalq que foi vítima de oito colegas na república Senzala, em Piracicaba, interior de São Paulo, compareceu à CPI para revelar a sua triste história. A vítima relembrou a dificuldade em se enturmar, não fosse envolvendo trotes, festas e álcool. Em outubro de 2002, foi até a república, convidada para um grupo de estudos. Era a única mulher em meio a oito rapazes de outras repúblicas.

De acordo com ela, havia muita cerveja no local. “Depois de um determinado momento, apaguei". Acordei toda molhada, a porta estava aberta... saí, já era madrugada, fui andando para a república onde morava”, relembrou. Ela se ausentou no dia seguinte para ir a um velório e, quando voltou a Piracicaba, começou o inferno pessoal.

Falavam que eu havia transado com oito meninos. As meninas com quem eu morava fizeram uma reunião e pediram para eu sair da casa, sob a alegação de que me chamavam de vagabunda. Na Esalq, comentava-se o caso, inclusive os professores. As pessoas olhavam, davam risadinhas. Um e-mail passou a circular, contando detalhes”, disse a vítima. Chegou a frequentar um psicólogo indicado pela direção, mas o que lá era dito acabava vazando.

Os pais dela não têm dúvidas de que a filha foi dopada com alguma droga. Um manuscrito com os apelidos dos supostos agressores foi entregue ao presidente da CPI, deputado Adriano Diogo (PT). A foto de dois deles foi mostrada para a estudante, que reconheceu ambos como participantes do estupro coletivo.

Quanto maior a aceitação ao trote, maior o preconceito

Na Esalq, a vítima descreveu ainda alguns trotes que lá ocorrem, como o ritual em que o aluno se apresenta ajoelhado a um veterano e é humilhado, atribuindo nomes pejorativos a si mesmo. Em outro, os meninos precisam fazer flexões nus, com o nariz no ânus do colega da frente, enquanto têm de tomar o “reforço”, uma mistura de vômito e comida estragada. Eles ainda são abandonados, nus e bêbados, em um canavial. A ‘tortura’ só termina no dia 13 de maio, quando se comemora a libertação dos escravos.

Para o pesquisador e sociólogo Antonio Ribeiro Almeida Jr., docente da Esalq e que destrincha o tema trote universitário desde 2002, os abusos foram deturpados por alguns veteranos das universidades paulistas, que, a pretexto de aplicar trotes, impõem superioridade com sadismo e malevolência. Ainda segundo o sociólogo, há dois tipos de instituições no Estado: aquelas em que o trote acontece de maneira eventual, com provocações, ferimentos e humilhações; e aquelas em que o trote torna-se recorrente e violento, virando tradição.

Almeida Jr. explicou ainda que, em instituições trotistas, para se tornar parte do círculo universitário, as pessoas têm de ser testadas, humilhadas e violentadas e mesmo assim permanecer em silêncio. “Os que aceitam as práticas trotistas são os mais preconceituosos; essa correlação é bastante forte”, comentou. Ele ainda relembrou o suicídio de um aluno, em 1997, que não aguentou o sofrimento ocasionado pelos trotes.

“O trote leve funciona como uma cortina de fumaça para os mais violentos”, explicou.

Na próxima semana, os deputados esperam ouvir mais depoimentos a respeito de abusos na FMUSP, nas faculdades de Veterinária da USP, na de Medicina da PUC de Sorocaba, e na Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto (Famerp). A CPI tem prazo até março para concluir os seus trabalhos e, até lá, deve convocar diretores de instituições citadas para prestarem esclarecimentos.