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08/01/2015 16:37 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

Na CPI da Alesp, estudantes relatam agressões verbais e físicas durante trotes na PUC de Campinas

Montagem/Divulgação Alesp e Thinkstock

Criada após as denúncias de estupros na Faculdade de Medicina da USP (FMUSP), a CPI aberta na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) para investigar violações de direitos humanos no ensino superior estadual já encontrou indícios assustadores em outras instituições. Na quarta-feira (7), relatos assustadores foram feitos, a portas fechadas, por alunos da Pontifícia Universidade Católica de Campinas (Puccamp).

Estudantes de medicina da universidade descreveram vários casos de abusos físicos, ofensas sexuais e trotes desumanos, em quase a sua totalidade aplicados por veteranos contra calouros (apelidados pejorativamente de ‘bixos’). Os fatos teriam ocorrido, segundo os depoimentos, em dois locais: a chácara no bairro de Barão Geraldo, e a sede da associação de policiais militares de Campinas, a DPM.

Aos deputados Adriano Diogo (PT) e Sarah Munhoz (PCdoB), respectivamente presidente e vice-presidente da CPI, eles relataram que tudo começa quando o estudante entra na Puccamp. É esse o momento em que ele perde a sua identidade, ganhando um apelido pelo qual será conhecido. As perversidades só pioram a partir daí: decorar hinos que fazem ode ao estupro e agressão física, levar socos no esterno (osso localizado no tórax), tomar tapas na cara, simular sexo oral com banana e andar numa piscina de urina, fezes e vômito.

Várias passagens foram relatadas pelos estudantes, e muitos acontecendo durante os ensaios das baterias que acompanham os jogos Intermed – tradicionais entre as faculdades de medicina de São Paulo. “Participei de um desses ensaios. Após o término, as meninas foram retiradas do local e os ‘bixos’ foram encurralados num canto, cercados por veteranos. Não podíamos olhar para cima, só para baixo, senão levávamos tapa na cara. Todos demonstravam atitude coercitiva, tentando mostrar o quão desprezíveis nós éramos”, disse um aluno, em declarações reproduzidas pelo site da Alesp.

Veteranos teriam ‘orgulho’ por agressões

Em depoimentos anteriores, abertos à imprensa, a Intermed foi relatada como uma reunião de alunos que anualmente é marcada por relatos de violência e abusos dos mais diversos tipos. Os relatos apontam, em sua maioria, para veteranos da Associação Atlética Acadêmica Samuel Pessoa, os quais possuem apelidos como Boner, especializado em “esternadas” (soco no esterno); Castor, pediatra, cuja característica é expor seu órgão genital para as ‘bixetes’ (calouras de medicina), sugerindo relação sexual.

Um terceiro ganhou o apelido de Xoxota, após um tijolo em uma estudante durante um torneio amistoso de handebol entre estudantes de medicina da Puccamp e Unicamp, em 2007. A aluna sofreu fratura no rosto. Por conta desse episódio, a Puccamp ficou proibida de levar torcidas a torneios durante sete anos. No entanto, até hoje existe na Puccamp o hino do “tijolo mágico”, que faz alusão a esse fato com uma sátira à música do grupo Balão Mágico.

“Fui obrigado a decorar sete hinos em uma noite, sob risco de retaliação”, explicou um aluno aos deputados. As ‘músicas’ em questão atendiam por nomes como Amassa Amassa, O Eixo, A Vadia da Puccamp, e O Caralho, considerada “um clássico” pelos veteranos e que tem conteúdo explicitamente sexual, alusivo ao estupro anal.

Um dossiê sobre todos os relatos já foi entregue à direção da Puccamp e os deputados tiveram acesso a ele. Entretanto, os depoentes disseram não acreditar que algo seja feito pelo chefe do departamento de Clínica da Puccamp, o médico Carlos Osvaldo Teixeira, o Caia. Também fundador da Associação Atlética Acadêmica Samuel Pessoa, ele está sempre presente a cada edição da Intermed e seria protagonista da mais antiga tradição de reverência às personalidades importantes, o beija-mão.

A mulher de Caia, Maria Aparecida Barone Teixeira, a Cidinha, também foi alvo de críticas por “avaliações subjetivas” das residências médicas. Por fim, há o temor de que os alunos que venham a público denunciar os abusos possam sofrer retaliações, como a perda do financiamento do Fundo de Financiamento Estudantil (Fies), programa do Ministério da Educação. “O aluno se cadastra, mas o Fies passa por uma comissão da Puccamp e nós não sabemos quem a compõe”, disse um deles.

Novos depoimentos de estudantes na próxima semana

A comissão parlamentar, também chamada de CPI da USP, CPI dos Estupros e CPI das Violações dos Direitos Humanos nas Universidades, ouviu na terça-feira (6) a aluna Flora Goldemberg, que presidiu em 2013 o Centro Acadêmico Oswaldo Cruz (Caoc) da FMUSP. Ela disse que “ninguém é criminoso” na instituição e defendeu o Show Medicina, promovido anualmente pelos veteranos do clube Atlética e que seria palco de abusos.

“O show não é conhecido pela violência, tem o intuito de ser uma comédia”, explicou, admitindo mais além que existem questões com as quais ela não concordou, como a a última encenação do Show Medicina, em 2014, em que a protagonista Geni, da obra de Chico Buarque Ópera do Malandro foi usada de forma deturpada para ataques homofóbicos contra os que denunciaram as barbaridades que ocorriam na FMUSP.

Na próxima semana, os deputados esperam ouvir mais depoimentos a respeito de abusos na FMUSP, nas faculdades de Veterinária da USP, na de Medicina da PUC de Sorocaba, na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), e na Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto (Famerp). A CPI tem prazo até março para concluir os seus trabalhos e, até lá, deve convocar diretores de instituições citadas para prestarem esclarecimentos.