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07/01/2015 13:49 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

Morto em atentado em Paris, editor e cartunista da Charlie Hebdo disse em 2012 não temer ataques: "Não vou me esconder"

Michel Euler/AP

Três anos antes de ser morto por homens armados no escritório da revista Charlie Hebdo, em Paris, o editor-chefe e cartunista Stéphane Charbonnier, o Charb, dizia não temer ataques e ameaças contra ele e outros colegas de redação após um atentado que resultou um incêndio, em 2011. Em entrevista à revista alemã Der Spiegel, ele afirmou que “extremistas não precisam de desculpas” para os seus atos criminosos.

“Se nos preocupássemos com as consequências de cada um dos nossos desenhos em cada um dos nossos 1.057 pontos de venda, então teríamos que ter fechado a revista há muito tempo atrás (...). Deveria ser normal criticar o Islã tanto quando é criticar judeus ou católicos. Eu não tenho mulher ou filhos, nem um cachorro. Mas não vou me esconder”, afirmou Charb, em setembro de 2012.

“Nós criticamos apenas um forma particular de extremismo islâmico, embora de uma forma peculiar e satiricamente exagerada. Nós não somos responsáveis para os excessos que ocorrem em outros lugares, só porque nós praticamos o nosso direito à liberdade de expressão dentro dos limites legais”, emendou. Charb tornou-se 'figura non grata' e integrava, inclusive, uma lista de pessoas que eram alvo de extremistas islâmicos na imprensa europeia.

Charb aparece na terceira posição da segunda fileira horizontal, da esquerda para direita (Reprodução/Twitter)

Na época da reportagem da Der Spiegel, a Charlie Hebdo contava com 25 funcionários. Pelo menos 12 deles acabaram mortos no atentado perpetrado por três homens armados. Outras quatro pessoas estão em estado gravíssimo, segundo as autoridades francesas. As ameaças eram uma constante no ambiente de trabalho diário da revista francesa, tanto que uma escolta policial chegou a ser dada aos profissionais.

Os muitos cartoons críticos a um setor mais extremo do islamismo eram constantes nas páginas da Charlie Hebdo. Segundo Charb, os críticos podiam ter uma única atitude: “Se eles não se divertem com nossos desenhos animados, eles não precisam comprar a nossa revista”. O cartunista costumava “ficar muito irritado” com as alegações de que o trabalho da revista “jogava gasolina sobre o fogo” .

“Um desenho nunca matou ninguém. Nós publicamos caricaturas toda semana, mas somente pessoas as descrevem como declarações de guerra quando é sobre a pessoa do Profeta ou o Islã radical. Quando você começa dizendo que você não pode criar tais desenhos, então é a mesma coisa que será aplicada contra representações mais inofensivas”, comentou Charb. “Meu trabalho é provocar risos ou reflexões com desenhos”.

Editor afirmava que provocação não era o foco da revista

Em outra entrevista, ao site Deutsche Welle, outro editor da Charlie Hebdo, Gérard Biard, garantiu em 2012, após o incêndio ocasionado por um ataque um ano antes, que o trabalho da revista envolve a defesa do direito da liberdade de expressão ao publicar desenhos de Maomé. De acordo com ele, reações violentas não eram responsabilidade da publicação. “Eu rejeito o termo ‘provocação’. Não se trata de jeito nenhum de provocação, se trata de fazer nosso trabalho de jornalistas, de comentaristas da atualidade”.

“Na realidade, somos uma revista de sátira, de política, de desenhos. E somos, sobretudo, uma publicação ateísta: lutamos contra todas as religiões a partir do momento em que elas abandonam o âmbito privado para se ocupar da política e da opinião pública. A religião muçulmana tenta fazer uso da política, por isso ela deve, como todas as outras forças políticas, se submeter a críticas”, complementou Biard.

Entretanto, ele reconheceu que o medo de ataques era uma constante. “Da última vez em que publicamos uma capa sobre esse mesmo assunto, nosso escritório foi incendiado. Temos de contar com isso. Estamos sob proteção policial. Mas não é admissível num país democrático e laico que sejamos obrigados a nos preocupar com nossa segurança quando exercemos nosso direito de publicar caricaturas, nosso trabalho como jornalistas e comentaristas da atualidade”.