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05/01/2015 18:16 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

'Constelação de Gênios' mostra como 1922 foi crucial na cultura

Divulgação/Editora Objetiva

Ao final de cada ano, é tradicional rememorar os principais fatos ocorridos naquele período. Na área cultural, buscam-se principalmente aqueles eventos que, como uma onda, vão reverberar ao longo das décadas seguintes. É nesse grau de importância que se enquadra o ano de 1922, a tal ponto que o poeta americano Ezra Pound o instituiu como o Ano Um de uma nova era.

Para ele, bastaram apenas dois eventos para tornar aquele conjunto de 365 dias no “annus mirabilis” (ano miraculoso) do modernismo literário: a publicação de Ulisses, de James Joyce (1882-1941), e A Terra Devastada, de T. S. Elliot (1888-1965), respectivamente o romance e o poema de língua inglesa mais influentes do século 20.

“A proposta de Pound de que, de certa forma, o mundo mudou radicalmente a partir do início de 1922 não era uma insensatez completa”, comenta o filósofo inglês Kevin Jackson. “Foi o que pareceu quando estudiosos das décadas seguintes começaram a revisitar aqueles dias inebriantes e únicos, e a avaliar sua significância duradoura.”

E continua: “De repente, um irlandês magricela e surrado e um americano garboso e silenciosamente sinistro entram, os dois determinados a explodirem tudo o que a ficção realista e a poesia georgiana mais estimavam”.

Fascinado pela profunda ruptura provocada por tais obras, Jackson passou a investigar o ano de 1922 com uma lupa. Levantou fatos sobre diversas áreas do conhecimento, como política, economia, literatura, cinema, teatro, música, artes visuais. Classificou os dados em ordem cronológica e o resultado é Constelação de Gênios — Uma Biografia do Ano de 1922, cuja versão impressa chega às livrarias hoje.

Trata-se de uma espécie de almanaque, dividido em 12 partes (cada mês do ano) que, por sua vez, são formadas por verbetes com os principais fatos históricos, compondo uma espécie de diário. A leitura, portanto, assemelha-se ao hábito de navegar na internet, quando os assuntos são rapidamente trocados. Assim, salta-se com tranquilidade das notícias sobre a morte de Proust e do fim do dadaísmo para a estreia como diretor de Alfred Hitchcock (com Número 13) ou para o início das atividades da rádio britânica BBC.

Leitura mostra como áreas da cultura ganharam novos rumos em 1922

Quando publicado na Inglaterra há dois anos, Constelação de Gênios mereceu crítica do também escritor Will Self. “O livro se distancia do senso comum sendo ao mesmo tempo insanamente simples de ler. Na verdade, acho que não é nenhum desserviço a Jackson dizer que este livro é aquilo que o modernismo procurava: um caminho para o seu labirinto simbólico”, observou ele, em texto publicado no The Guardian.

Ulisses e A Terra Devastada tornaram-se, de fato, os ápices da literatura modernista. O primeiro — publicado em uma data palíndroma, 2/2/22 — revolucionou a forma e a estrutura do romance, influenciando decisivamente o desenvolvimento da “corrente da consciência” e impulsionando a linguagem e as experiências linguísticas aos limites da comunicação.

Já o poema de Elliot, em seus 400 versos, é muitas vezes lido como uma alegoria à desilusão experimentada pela geração pós-guerra. “Ulisses documenta um distanciamento da fé; A Terra Devastada, um desejo passional e atormentado por redenção”, observa Jackson. “Foram os primeiros grandes escritos a avaliar o mundo depois do final da Primeira Guerra Mundial.”

O pesquisador lembra que 1922 foi marcante também pelo lançamento de Sodoma e Gomorra, um dos últimos volumes de Em Busca do Tempo Perdido, monumental obra de Marcel Proust, que morreria em novembro, aos 51 anos, e de Tractatus Logico-Philosophicus, na qual o jovem matemático austríaco Ludwig Wittgenstein (1889-1951) vislumbrava uma lógica com contradições, diferente da versão ortodoxa — e essa foi uma abertura fundamental para o conceito de “paraconsistência”.

Veja outros momentos marcantes que tornaram 1922 um ano especial:

Galeria de Fotos 1922: o ano de ouro para a cultura Veja Fotos

 

Leia um trecho da obra: