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28/12/2014 20:23 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:42 -02

Petrolíferas, mineradoras e construtoras lideram ranking das indústrias mais corruptas do mundo, segundo OECD

Montagem/Estadão Conteúdo e Thinkstock

Os prejuízos nas casas dos bilhões impostos pela corrupção na Petrobras, a maior empresa estatal brasileira, não saíram do noticiário em 2014 e devem seguir em pauta pelos próximos anos. Mas não é surpresa que uma petrolífera abrigue a preferência dos corruptos, conforme apontou um relatório apresentado neste mês pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

Com base em 427 casos de pagamentos de propina conhecidos pelo mundo entre fevereiro de 1999 e junho de 2014, a entidade traçou um mapa das indústrias mais corruptas do planeta. Dois terços dos casos de corrupção apurados - precisamente 59% do total - envolvem o top 4 a seguir:

- Setor extrativista (petrolíferas e mineradoras) – 19%

- Setor de construção (construtoras e empreiteiras) – 15%

- Setor de transporte e armazenagem – 15%

- Setor de informações e comunicações – 10%

Segundo o estudo da OCDE, executivos de postos mais altos estão envolvidos em mais da metade dos casos analisados pelo relatório, com chefes executivos tendo um papel ativo em 12% deles, fosse pagando ou recebendo propinas eles mesmos. Na Petrobras, o principal executivo apontado pelo esquema até aqui, com base nas investigações da Operação Lava Jato, é o ex-diretor de Abastecimento da companhia, Paulo Roberto Costa.

O setor público, a propósito, costuma ter a preferência quando o assunto é a corrupção. Funcionários de estatais receberam ofertas, promessas ou ganhar propinas em 80% dos casos analisados pela OECD. Intermediários, como o doleiro Alberto Youssef no escândalo da Petrobras, estiveram envolvidos em três de cada quatro casos de propina investigados.

Os subornos costumam ser pagos para se obter a vitória em contratos públicos de estatais (57%), embora possam ainda ter a evasão de divisas (12%) e tratamento fiscal preferencial (6%) como foco primordial. Quase um terço dos casos só foram descobertos pelas autoridades graças a auditorias ou processos de aquisição, enquanto 2% tiveram o envolvimento de delatores.

Uma regra geral que vale para a corrupção em qualquer país é bem simples e lógica: quanto mais alto o cargo do alvo da propina, maior a quantia a ser repassada. Isso explica o fato que apenas 5% dos casos do relatório apontarem a participação de chefes de Estado ou ministros, porém eles receberam 11% do total das propinas pagas.

“A corrupção mina o crescimento e o desenvolvimento. Os corruptos devem ser levados à Justiça. A prevenção de crimes econômicos deve estar no centro da governança corporativa. Ao mesmo tempo, os contratos públicos devem tornar-se sinônimo de integridade, transparência e responsabilidade”, comentou o secretário-geral da OCDE, Angel Gurría, em comunicado divulgado à imprensa.

Ao longo dos últimos anos, o tempo necessário para a conclusão de casos de corrupção como os apurados pelo relatório subiram de dois para sete anos. Segundo a OECD, a resposta para isso se deve aos mecanismos cada vez mais complexos adotados pelos corruptores, e a dificuldade de investigação por parte das autoridades, que nem sempre contam com as chamadas “delações premiadas”, quando participantes do esquema colaboram em troca de benefícios da Justiça – como vem ocorrendo durante os trabalhos da Lava Jato.

Para a entidade, cabe aos governos ao redor do mundo apertar o cerco, fazer sanções e acordos públicos, e proteger efetivamente os delatores como parte do processo de combater a corrupção. Vale lembrar que todos os casos que constam como base para o relatório da OECD foram alvo de investigação e julgamento e encontra-se encerrados.

A própria entidade admite que os dados apresentados são apenas “a ponta do iceberg”, sendo tal submundo muito maior. Assim sendo, o escândalo da Petrobras e seus desdobramentos devem constar apenas no futuro em documentos como esse, que buscam minar a corrupção do seio das nações. E a petrolífera brasileira está longe de ser exceção, seja por aqui ou mundo afora.

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