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24/12/2014 18:05 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:35 -02

Mudanças climáticas estão destruindo uma cidade <br><small>À medida que o planeta aquece, uma vila no Alasca nos mostra como estamos despreparados</small>

A cidadezinha de Shishmaref, no Alaska, vem sofrendo os efeitos das mudanças climáticas em primeira mão. Nas últimas décadas, a costa da ilha está sendo erodida pelo mar, partindo-se em pedaços gigantescos sempre que uma grande tempestade atinge a região. (Foto: Gabriel Bouys/AFP/Getty Images)

É uma quarta de manhã no final de agosto, o primeiro dia de aula na Escola Shishmaref. As portas do edifício de cor azul pálido ainda não estão abertas, mas o novo diretor está na cozinha e com pressa passa manteiga nas torradas do café da manhã para seus alunos. Os professores lutam para fazer ajustes de última hora nas salas de aula, enquanto as crianças, que vão desde alunos do pré até os de ensino médio, esperam na varanda, ansiosas, com seus casacos bem fechados protegendo-se contra o frio ar do início da manhã. É tudo tão incrivelmente normal que você nem imagina que há apenas alguns anos ninguém pensava que Shishmaref fosse continuar existindo.

A remota vila de 563 pessoas está localizada a 48 quilômetros ao sul do Círculo Polar Ártico, flanqueada pelo Mar Chukchi ao norte e uma enseada ao sul, e está situada no topo de uma camada de permafrost com derretimento rápido. Nas últimas décadas, a costa da ilha vem sendo erodida pelo mar, perdendo pedaços gigantescos de terra sempre que havia uma grande tempestade.

Os moradores de Shishmaref, a maioria pessoas nativas de Inupiaq, no Alasca, tentaram combater este problema, movendo suas casas para longe das falésias e construindo barreiras ao longo da costa norte para tentar impedir as ondas. Mas em julho de 2002, imaginando a realidade da ilha a longo prazo, os moradores de Shishmaref votaram por arrumar suas malas e mudar a cidade para outro lugar.

A realocação, no entanto, provou ser muito mais difícil do que aquele voto. E 12 anos mais tarde, a cidade de Shishmaref ainda está aqui, pronta para começar mais um ano escolar.

Há sinais evidentes de que algo está errado. Uma das primeiras coisas que você vê quando chega em Shishmaref é uma pequena construção de madeira apoiada precariamente à beira da praia. A parte de trás fica pendurada na borda de um declive, com a água batendo a poucos metros de distância.

A cidade está construída em uma península estreita, de areia muito fina, com apenas 4.8 quilômetros de comprimento e 400 metros de largura, rodeada de água por todos os lados. A única maneira de chegar ou sair de lá é de barco ou avião, um voo de uma hora de Nome, que custa cerca de 400 dólares ida e volta. Na ilha, uma única e curta estrada asfaltada começa fora da cidade e leva para o aeroporto; o resto das ruas de Shishmaref são de areia. A maioria das pessoas se locomove em quadriciclos, motos esportivas e trenós motorizados no inverno.

Imaginando a realidade da ilha a longo prazo, os moradores de Shishmaref votaram por arrumar suas malas e mudar a cidade para outro lugar. Doze anos mais tarde, eles ainda estão aqui.

A maioria das casas não tem água encanada ou rede de esgoto, então os moradores captam água da chuva e da neve para reutilização. Além disso, a maioria toma banho e lava roupa em uma lavanderia pública. Empregos de tempo integral são raros e até mesmo os de tempo parcial são dificilmente encontrados. Dado o tamanho cada vez menor da ilha, não há muito espaço para novas habitações ou outros tipos de construção. Em algumas casas, várias gerações se aglomeram em um único andar de pequenas estruturas de madeira. A maioria das famílias depende da caça de subsistência, pesca e colheita de berries (“frutas selvagens”) para passar o ano. A cidade é conhecida em toda a região pela produção de óleo de foca e esculturas feitas de ossos e marfim, que são vendidas aos visitantes em lojas de presentes em Nome.

Todas as outras coisas na ilha - veículos, alimentos, material de construção para casas - são enviadas pelo mar. Como resultado, os alimentos frescos, fora aqueles que podem ser caçados ou colhidos na ilha, são raros e os preços nas lojas seriam absurdos para moradores dos outros 48 estados americanos: U$14,76 por uma lata de limpador Lysol, U$21,61 por um pacote de seis fraldas Huggies, U$7,40 por uma caixa de cereal Raisin Bran. A gasolina e o óleo para aquecimento também são enviados por um valor premium, junto com o abastecimento do ano que chega a cada verão em uma barcaça. Um galão irá custar pelo menos U$6, e quando o abastecimento se esgota por aqui, não há nada mais até o retorno da barcaça.

Durante a minha visita, em agosto, a ilha já tinha esgotado o abastecimento de gasolina do ano, e a próxima entrega seria em uma ou duas semanas. Os moradores foram obrigados a racionar o que usariam em seus quadriciclos e suas lanchas.

O nome original da ilha, na língua nativa, era "Kigiktaq" e evidências arqueológicas de habitação remontam a 1600. A ilha é cercada pelo que é agora a Reserva Nacional Bering Lang Bridge, 2,7 milhões de hectares destinados ao Parque Nacional, um sistema que preserva a integridade natural e arqueológica do ponto de entrada dos primeiros habitantes humanos na América do Norte. Exploradores russos, que chegaram aqui em 1816, chamaram este local de "Shishmarev”, em homenagem ao navegador russo Glieb Semenovich Shishmarev, e acabou se tornando o nome da cidade. A ilha abriu sua primeira agência de correio em 1901, de acordo com a história local, mas a cidade não foi incorporada oficialmente até 1969.

Fotos antigas da ilha mostram largas praias de areia. Os moradores mais velhos da cidade lembram-se de brincar de pega-pega e "baseball esquimó" na praia, até tarde na noite, pois o sol ainda brilha passado das 11 da noite, no auge do verão.

"Existia uma praia bem grande lá embaixo", lembra Nora Kuzuguk, 67. "Foi o nosso playground."

Agora, essas praias estão desaparecendo rapidamente.

Fotos antigas da ilha mostram largas praias de areia. Os moradores mais velhos da cidade lembram-se de brincar de pega-pega e "baseball esquimó" na praia, até tarde da noite. (Fotos: Coleções históricas da Biblioteca do Estado do Alaska)

A ilha tem lidado com problemas de erosão desde os anos 50. Mas agora a mudança climática está agravando consideravelmente o problema. As temperaturas médias estão aumentando rapidamente no Alasca, muito mais do que no resto dos Estados Unidos, aquecendo 15ºC nos últimos 50 anos. As temperaturas mais altas estão fazendo com que a camada subsuperficial do solo, permanentemente congelado, normalmente encontrado no Ártico, derreta em algumas áreas. Este permafrost mais fraco é mais vulnerável a tempestades e atividade das marés, alimentando a perda da costa de Shishmaref.

Temperaturas mais quentes também têm encurtado a quantidade de tempo que o Mar Chukchi permanece congelado a cada ano, deixando a linha costeira exposta a tempestades no outono e mais cedo no inverno. Agora, durante as tempestades, a areia "derrete apenas com a água", disse Luci Eningowuk, de 65 anos. De 2004 a 2008 Eningowuk foi o presidente da Coalizão de Erosão e Realocação de Shishmaref, grupo encarregado de desenvolver e executar o plano de mudança da cidade. "As ondas vinham e arrebatavam um monte de terra."

Catorze casas do lado norte de Shishmaref tiveram que ser colocadas sobre rodas e arrastadas para a extremidade oposta da ilha depois de uma grande tempestade em outubro de 1997. Outra grande tempestade, em outubro de 2001, desprendeu enormes pedaços do litoral norte.

Através da comparação de fotos aéreas, o Corpo de Engenheiros do Exército estima que a ilha está perdendo entre 0,8 e 2,7 metros por ano, em média. Mas as medidas em anos com grandes tempestades têm documentado uma perda de terra de até 6,9 metros.

"As ondas vinham e arrebatavam um monte de terra."

Quando os moradores votaram para realocar a cidade, Shishmaref se tornou um exemplo do impacto causado pelas mudanças climáticas. A página web da Agência de Proteção Ambiental, que descreve os efeitos das mudanças climáticas no Alasca, tem uma foto que mostra uma das casas de Shishmaref caindo de uma falésia. “A severa erosão tem forçado algumas populações de Vilarejos Nativos do Alasca a se realocarem a fim de protegerem suas vidas e propriedades", diz o site. Mas, enquanto Shishmaref e várias outras cidades vêm tentando se realocar, seus moradores descobriram que a realidade por trás da ação é muito mais complicada.

Uma ideia ainda prevalece nos Estados Unidos de que a mudança climática é apenas um conceito, uma ideia afastada de nós no tempo, distância ou circunstância econômica. É algo que pode afetar as futuras gerações ou outras nações. Discussões sobre a realidade atual, ocasionadas pelas mudanças climáticas, tendem a se concentrar nas pequenas nações insulares, como Tuvalu, Maldivas ou Kiribati, que devido a enorme ameaça da elevação dos mares têm considerado adquirir terras em outros continentes, para que possam se realocar completamente.

Você não tem que procurar exemplos em outros lugares. As comunidades nativas da costa do Alaska têm tratado de nos alertar há mais de uma década que os efeitos das mudanças climáticas já estão aqui entre nós.

Se você acredita nas previsões sombrias da mais recente ciência do clima, Shishmaref é apenas o começo. Cidades costeiras em baixas altitudes e bacias hidrográficas sujeitas a inundações nos 48 estados americanos, podem ser as próximas. Um estudo do Serviço Geológico dos EUA adverte que 50 por cento da costa dos EUA estão em áreas de alto ou muito alto risco de sofrer impactos, devido à subida do nível do mar, e, de acordo com a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos EUA (NOAA), 16,4 milhões de americanos vivem em planícies aluviais costeiras. Se não encontrarmos uma maneira de salvar uma cidadezinha com menos de 600 pessoas de cair no mar, quais são as esperanças para o resto de nós?

É óbvio que tem algo errado em Shishmaref. Uma das primeiras coisas que você nota ao chegar é uma pequena construção de madeira apoiada precariamente à beira da praia. (Foto: Kate Sheppard/The Huffington Post)

A construção torta de madeira, visível ao aterrissarmos em Shishmaref, pertence a Tony Weyiouanna Sr., 55, que a utiliza para preservar peixes e fazer óleo de foca. Weyiouanna é o presidente do conselho de administração da Corporação Nativa de Shishmaref, que administra a terra e os recursos alocados para a comunidade sob a Lei de Acordo de Indenizações Nativas do Alasca. Quando o vilarejo votou pela realocação pela primeira vez ele foi o encarregado de liderar tal esforço, como assistente pessoal técnico da coalizão de realocação, que incluiu representantes do conselho da cidade, o governo nativo e a corporação nativa. Na época, Weyiouanna trabalhava como planejador do transporte para Kawerak, associação de desenvolvimento econômico e social regional, onde lidava com as estradas e outros projetos de obras públicas.

Planejar o transporte é uma coisa. Planejar a mudança de uma cidade é outra. "Eu disse, 'Como diabos vou conseguir fazer isso?'" lembra-se Weyiouanna. Estamos sentados na mesa da cozinha bebendo café, enquanto ele relembra os primeiros dias do esforço de realocação. Ele pausa ocasionalmente para checar o assado de rena no forno e o cheiro, rico e encorpado, preenche a pequena casa. Um de seus três filhos se espreguiça no sofá, na sala ao lado, assistindo televisão.

A coalizão montou um plano de ação detalhado, que expunha para a comunidade e as agências estaduais e federais o que uma "realocação ordenada" acarretaria. O primeiro passo era identificar lugares com alto potencial de realocação, grande o suficiente para acomodar a crescente população da cidade, com acesso à terra, água, caça e pesca que seus antepassados moradores usaram por gerações. A geografia, hidrologia e adequação ambiental dos locais seriam estudadas. A cidade iria determinar a necessidade de infraestrutura para a nova comunidade, como um aeroporto, estradas, uma clínica e uma escola. Finalmente, eles iriam salvar o que podiam de Shishmaref e limpar a ilha depois de abandoná-la.

Tudo isso, é claro, exigia dinheiro. Um estudo do Corpo de Engenheiros do Exército, de 2004, estimou que realocar Shishmaref para o continente custaria 179 milhões de dólares. Weyiouanna e outros membros da coalizão começaram a fazer lobby em órgãos estaduais e federais buscando apoio financeiro. A cidade também criou um website com o slogan "We Are Worth Saving!" ( “Vale a Pena Nos Salvar”, em tradução livre) que pedia doações, assistência técnica e ajuda para escrever pedidos de bolsas de auxílio financeiro a qualquer pessoa disposta a oferecer seu tempo como voluntário.

Seus esforços foram atendidos por uma avalanche de atenção da imprensa após a decisão da cidade em se realocar. Weyiouanna estima que cerca de 65 diferentes equipes de notícias visitaram a ilha só em 2003 e 2004, de todos os 48 estados e do mundo. "Para mim, eles foram cruciais", ele disse. "Essa foi a ferramenta usada para convencer alguém de Washington, Juneau, Anchorage, que precisávamos de ajuda."

Tony Weyiouanna Sr. ajudou a lançar o plano de realocação da cidade. "Eu dizia, 'Como diabos vou fazer isso?'" ele relembra. (Foto: Kate Sheppard/The Huffington Post)

A cidade identificou 11 possíveis locais de realocação no continente e avaliações preliminares, conduzidas pelo Serviço de Conservação de Recursos Naturais do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, ajudaram a cidade a reduzir a lista para apenas dois lugares.

Em uma reunião pública, em dezembro de 2006, o vilarejo selecionou um lugar chamado Tin Creek, a menos de 19 quilômetros de distância da entrada de Shishmaref, como seu novo lar. A localização estava próxima o suficiente para que os moradores ainda pudessem acessar seus locais de caça e pesca de barco ou de trenó motorizado.

Após alguns anos, no entanto, o plano de realocar a cidade para Tin Creek desmoronou. Estudos subsequentes de viabilidade revelaram problemas com o local. Ele também ficava em uma área de permafrost - que, com o derretimento do ártico, provavelmente significava que os seus dias como um local adequado também estariam contados. A cidade teve que escolher um local diferente.

Assegurar o apoio adicional de Washington estava se tornando cada vez mais difícil, entretanto. Ted Stevens, poderoso senador e ávido legislador de fundos republicano do Alaska, tinha sido um dos principais articuladores na obtenção de dinheiro para os estudos de erosão e de realocação da cidade. Mas, tanto os democratas como os republicanos em Washington foram se voltando contra alguns fundos destinados ao projeto – que era uma das principais fontes de financiamento deste tipo de trabalho na cidade. E quando Stevens perdeu a reeleição em 2008, em meio a um julgamento por corrupção federal, Shishmaref perdeu seu maior defensor.

"Stevens era o nosso senador", disse Weyiouanna. "Ele foi o único que elaborou todos os esquemas de financiamento para nós."

Os moradores de Shishmaref mudaram suas casas para longe das falésias e barreiras construídas como esta aqui, ao longo da costa norte da ilha para tentar barrar as ondas. (Foto: Kate Sheppard/The Huffington Post)

Nesta altura, o entusiasmo de Shishmaref para a realocação era arriscado. O projeto de realocação inicial tinha indicado como objetivo que a cidade se mudasse até dia 30 de abril de 2009, mas desde o início ficou claro que o processo levaria mais tempo - provavelmente mais 10 ou 15 anos. Para ganhar tempo, a cidade construiu um quebra-mar de 200 metros de comprimento para proteger a costa norte da ilha, em 2004. Desde então, o quebra-mar tem crescido, com seções adicionais incluídas de 2005 a 2007, aumentando para 853 metros.

O quebra-mar protege apenas uma parte da ilha, deixando infraestruturas importantes como o aeroporto, o lixão, e grande parte da estrada principal expostos. Mas Weyiouanna diz que isso tem dado aos moradores uma falsa sensação de segurança. Ele disse que tentou avisar os outros líderes comunitários que "uma vez que começarem a construir esses quebra-mares, a comunidade vai ficar bem confortável com a proteção do quebra-mar, e muito em breve eles vão pensar que não precisam mais realocar."

Mesmo com o reforço na costa norte, outras partes de Shishmaref, no entanto, continuam a ser levadas pela água. Depois de pressionar para a realocação, tornou-se mais difícil adquirir financiamento estadual ou federal para projetos na ilha, como reparar o posto de saúde ou a construção de novas habitações.

"Isso parou todo o investimento nesta comunidade", disse Percy Nayokpuk, proprietário do armazém geral, sobre o plano de realocação. "Perdemos vários projetos por causa do voto pela mudança. Foi o que restou como resultado do voto. "

Líderes da cidade e das tribos dizem que o esforço com a realocação está em grande parte dormente, por enquanto. Os moradores que estavam envolvidos no plano de realocação disseram que têm se ocupado em outras coisas. Uma mulher foi diagnosticada com câncer e teve que fazer uma pausa. Outros disseram que ficaram enrolados com a família ou o trabalho, ou apenas frustrados com a natureza impossível da tarefa.

Weyiouanna também abandonou sua posição oficial na coalizão de realocação no final de 2007. "Havia uma facção bem forte da população que era contra o projeto de realocação", ele disse, inclusive membros da comunidade e outros líderes locais. "Então foi muito ruim para mim."

Shishmaref tentou se mudar antes e mudou de ideia depois também. Duas tempestades em 1973 danificaram a ilha, fato que fez a comunidade decidir a mudança para o continente. Mas a cidade depois reconsiderou a decisão, optando por construir um muro de sacos de areia ao longo da costa norte, para fortificá-la contra as ondas. Nayokpuk trabalhou em um esforço de realocação desde o princípio, quando ele era um jovem recém-saído da faculdade. Manobrar o apoio para os recursos da mudança também foi um desafio na época.

Hoje os moradores de Shishmaref estão bem divididos sobre a mudança. Em 2002, apenas 11 por cento dos moradores da cidade votaram contra o plano de realocação, de acordo com relatos da imprensa local. Muitos dos votos "não" da vila vinham de anciãos, que sentiam que ficar era uma importante forma de proteger o seu modo de vida. O afastamento da ilha a tem mantido única, preservando a língua e a cultura inupiaque. Agora Weyiouanna estima que apenas cerca de metade dos moradores da cidade deseja se mudar e a outra metade prefere ficar o tempo que puderem.

"Eu votei pela mudança", disse Nora Kuzuguk, 67. "Mas agora - na verdade não, eu não quero me afastar de Shishmaref. Ela é única."

Stanley Tocktoo, 53, ex-prefeito da cidade e outro defensor da realocação, diz que acha que eles ainda poderiam convencer os moradores a se mudarem se eles tivessem um destino. "Eu acho que eles mudariam, mas não sabemos onde seria um local adequado", ele respondeu. "Nós precisamos encontrar um novo local."

Quando eu conheci o filho de Kuzuguk, Richard, ele estava no gabinete do prefeito apresentando a sua renúncia oficial da prefeitura. Além de servir no conselho, Kuzuguk foi coordenador ambiental de Shishmaref nos últimos cinco anos, liderando os esforços de reciclagem desde o porão da igreja. Ele também esteve envolvido em uma campanha em curso contra a perfuração do Ártico, e fazia parte do comitê de planejamento da realocação nos seus estágios iniciais.

Mas agora, Kuzuguk, de 51 anos, e sua família estão fazendo as malas e se mudando, com destino a Nome, onde lhe ofereceram um emprego na manutenção do hospital. É uma posição de tempo integral, ao contrário de seu posto atual, e oferece benefícios.

Para Kuzuguk, Nome é um lugar onde ele pode ver um futuro para sua família. Eu conheci uma de seus seis filhos, Lydia, no meu primeiro dia na cidade. A gregária menina de 11 anos se apresentou na noite de cinema no ginásio da escola e disse, voluntariamente, que estava se mudando para Nome dentro de poucos dias.

"Eu tenho que considerar o futuro dos meus filhos", disse Kuzuguk." A melhor forma que eu tenho de fazer isso agora é ir para Nome, recomeçar lá, apresentá-los ao estilo de vida ocidental. Eles podem voltar um dia, se quiserem, e aprender o estilo de vida tradicional e de subsistência."

É muito complicado mudar uma cidade inteira, decidiu Kuzuguk. "Para nós, ensinar ao Congresso o porquê queremos... a minha opinião é que isso é uma batalha impossível e perdida", ele disse.

"Eu votei pela mudança", disse Nora Kuzuguk, 67. "Mas agora - na verdade não, eu não quero me afastar de Shishmaref. Ela é única." (Foto: Kate Sheppard/The Huffington Post)

Se fosse só Shishmaref, isso seria uma coisa. Mas também tem Kivalina, Newtok e outros nove povoados nativos que estão enfrentando os impactos das temperaturas mais quentes e as condições de mudança climática como uma ameaça imediata, e elegeram se realocar. O Escritório de Prestação de Contas do Governo dos Estados Unidos descobriu que a maioria das 200 aldeias nativas do Alasca estão enfrentando inundações e erosão relacionadas a mudanças climáticas.

Destas aldeias, Newtok é a que está mais próxima de se mudar. Eles foram capazes de encontrar e chegar a um acordo sobre a nova terra e garantir o financiamento proveniente dos órgãos estaduais e federais para começar a construção. As disputas políticas na cidade, no entanto, colocaram o movimento em espera por tempo indeterminado lá.

Não há nenhuma cartilha de como mudar uma cidade completa. Não há nenhuma agência do governo, em qualquer nível, federal ou estadual, que seja responsável por tal processo. Não há nenhum fundo comum de dinheiro reservado para ajudar as comunidades. Não existem regras para escolher outro local, ou listas de como arrumar as coisas e o que deve ser levado. Cada comunidade escolhe como avançar com seu próprio plano.

"Eles estão fazendo tudo o que podem por conta própria", disse Robin Bronen, diretor-executivo do Projeto de Justiça Imigratória do Alaska e talvez o líder das pesquisas da região sobre migração relacionada ao clima. Bronen tem acompanhado várias comunidades que tentam navegar essa situação aparentemente impossível. "Eu acho que as pessoas fora do Alaska não entendem o quanto é incrível o que estas comunidades, com recursos tão limitados, vêm desenvolvendo em um esforço de Golias para educar as pessoas no Congresso e no estado sobre suas necessidades."

Bronen se preocupa que em breve não serão apenas vilarejos nativos do Alasca que terão que considerar uma mudança - mas outras cidades costeiras dos EUA. Meu mantra é: precisamos obter um quadro institucional de realocação agora", disse Bronen. "Isto não pressagia algo de bom para os outros lugares no mundo que serão confrontados com esta mesma questão."

"Eu acho que as pessoas fora do Alaska não entendem como é incrível o que estas comunidade, com recursos tão limitados, vêm desenvolvendo em um esforço de Golias."

Em novembro de 2013, o presidente Barack Obama anunciou uma nova ordem executiva que orienta as agências federais a revisarem os programas e políticas que impedem a adaptação climática, e criou um Grupo de Força-Tarefa Internacional para a Prevenção e Resiliência Climática, que reúne líderes estaduais, locais e tribais para colaborarem em estratégias para lidar com os impactos das mudanças climáticas.

No mês passado, esta força-tarefa recomendava que a administração "explorasse o papel Federal para enfrentar os deslocamentos relacionados às mudanças climáticas", ecoando a preocupação de Bronen que a situação de comunidades como Shishmaref irá se espalhar por "todas as regiões do país e jurisdições afiliadas dos Estados Unidos." Resumindo, a força-tarefa afirmou que precisamos chegar a uma conclusão de como lidar com este problema - e rápido.

Reggie Joule, prefeito da área Nordeste do Ártico e ex-deputado estadual do Alaska, representando o distrito de Shishmaref, era o único representante do Alasca na força-tarefa. Quando perguntado sobre as recomendações da força-tarefa, Joule reconheceu que só "explorar" o papel do governo federal em projetos de realocação "não vai ser o suficiente, porque as nossas comunidades locais não têm a capacidade de fazer qualquer coisa." Mas ele estava, no geral, grato que Shishmaref, e outros vilarejos nativos do Alasca, finalmente pareciam estar no radar do governo federal. “Sermos incluídos nas recomendações do jeito que estamos", disse Joule, "é um grande passo para a frente, porque nós avançamos muito pouco antes."

"Nós não estamos falando de áreas altamente povoadas, então fica fácil negligenciar ", disse Joule. "Para as pessoas que estão a 11 mil quilômetros de distância do local, o que eles sabem e o que eles entendem sobre a questão são duas coisas diferentes. Você pode até saber que as comunidades estão se deteriorando, mas será que nós realmente compreendemos o que isso significa, o cronograma e o quanto estas comunidades são vulneráveis? ... Quando nós enviamos fotos e montamos uma proposta, nós somos apenas fatos e números no papel. Será que existe alguém lá [em Washington] que entende a urgência das informações apresentadas?"

O Departamento do Interior dos Estados Unidos ofereceu certo apoio com o projeto do quebra-mar no passado, através do Bureau de Assuntos Indígenas. E está trabalhando em uma abordagem de Gestão Integrada no Ártico para servir de ponte com a agência sobre as questões do Ártico. Mas um dos maiores desafios a nível federal é que muitos programas que poderiam oferecer assistência a um povoado como Shishmaref exigem como complemento fundos locais - que são, muitas vezes, inexistentes. Jessica Kershaw, secretária de imprensa do Departamento do Interior, disse ao HuffPost que o departamento "vem coordenando com outras agências federais como avaliar os esforços que devem ser realizados em situações como aquelas, enfrentadas em Shishmaref" e vai "continuar a trabalhar com uma ampla coalizão de interessados para identificar um caminho para o futuro."

O Corpo de Engenheiros do Exército também tem desempenhado um papel fundamental na realização de avaliações precoces de opções de realocação, bem como financiamento e apoio para a construção de quebra-mares. Mas o trabalho do Corpo de Engenheiros está limitado ao que o Congresso autorizou e financiou, e o trabalho também exige algum nível de divisão de custos com um parceiro local. Bruce Sexauer, chefe do escritório de planejamento do Corpo do Exército do distrito do Alaska, disse que eles estão atualmente considerando o financiamento para estudos adicionais de realocação ou de reforço para Shishmaref, como parte de seu pedido de orçamento para o próximo ano - mas não está claro se eles vão conseguir.

Há órgãos federais, como a Agência Federal para a Gestão de Emergência (FEMA), mas seu papel é principalmente limitado à prestação de apoio pós-desastres. "Se você observar o processo, acho que podemos deduzir que somos muito bons em reagir às coisas. É por isso que temos a FEMA", disse Joule. "Mas, a fim de abordar as coisas que a FEMA teria que lidar, eu não tenho certeza do quão bons nós somos em planejamento."

A administração Obama também deu passos para enfrentar as mudanças climáticas ao redor do globo. Em setembro, o presidente ordenou que todas as agências federais considerem "a resiliência climática na criação de seus programas internacionais de desenvolvimento e investimentos." E, em novembro, o governo anunciou que contribuía com 3 bilhões de dólares para um fundo internacional concebido para ajudar as nações em desenvolvimento a lidarem com as mudanças climáticas.

Funcionários do Departamento do Interior e do Escritório de Administração e Orçamento da Casa Branca também viajaram para Shishmaref no verão passado. Mas a contínua falta de ajuda relevante no vilarejo gerou o protesto da senadora republicana do Alasca, Lisa Murkowski. "Ao mesmo tempo que a administração não está disposta a comprometer os recursos para ajudar uma comunidade como Shishmaref, ela está priorizando o financiamento de ajuda ao Vietnã com a adaptação climática", escreveu Murkowski em uma carta a Obama, em janeiro." Eu peço que você coloque os Estados Unidos da América em primeiro lugar, especialmente os habitantes do Alasca que lidam com esta realidade diariamente."

Michael Boots, presidente interino do Conselho da Casa Branca para a Qualidade Ambiental, respondeu à carta de Murkowski, em maio, dizendo que o Departamento está "analisando como pode lidar da melhor forma com" os pedidos de Shishmaref. Boots disse que muitos programas que poderiam oferecer assistência à comunidade "podem ser um desafio para acessar" por causa de exigências como a divisão de custos, mas disse que o governo está "empenhado em identificar opções disponíveis" dentro da autoridade executiva existente.

Enquanto isso, no Alaska, os vilarejos estão começando a se perguntar se mudança é ainda uma opção realista. "Estamos trabalhando duro para a mudança da comunidade. É isso que estamos planejando", disse Joule. "É isso mesmo que está em jogo? Será que é uma opção que alguém tem autoridade de dizer: 'Sim, nós podemos fazer isso' e estamos dispostos a fazer isso? "

"Nós tomamos medidas temporárias", ele disse, "mas estamos falando sobre a vida dessas pessoas."

"Tenho que pensar no futuro dos meus filhos", disse Richard Kuzuguk. "A melhor maneira de fazer isso agora é me mudar para Nome." (Foto: Kate Sheppard/The Huffington Post)

O atual prefeito de Shishmaref, Howard Weyiouanna Sr., sabe o que é se mudar. Sua casa foi uma das que foram arrastadas para o outro lado da ilha após a tempestade de 1997, que destruiu a costa norte. Ele estava em sua casa no meio da tempestade. "Foi bem violento", ele relembrou. "Eu sentia o chão tremendo." Agora, 17 anos mais tarde, ele disse: "Eu sinto falta de ouvir o oceano."

Howard é primo de Tony e Weyiouanna é um dos sobrenomes mais comuns na cidade. Quando nos encontramos no edifício da Câmara Municipal, Howard expressou seu otimismo sobre os recentes investimentos na cidade. Após anos de poucos financiamentos do governo, a cidade está finalmente recebendo novas habitações graças a uma concessão do Departamento de Habitação e Desenvolvimento Urbano dos EUA. Eles estão dando os retoques finais em sete novas casas, edifícios bege modestos, com acabamento em cor marrom que, ao contrário da maioria das residências na cidade, terá água e banheiros. Sua filha adulta, Nellie, e seus três netos estão se mudando para uma dessas casas. O posto de saúde também está sendo reformado, finalmente.

Mas uma série de problemas ainda requer atenção. Um deles, o edifício do governo da cidade não passa pelas normas contra incêndio. E eles precisam de um maior sistema de armazenamento de água. Grande parte da cidade conta com o reservatório, que coleta a neve derretida, mas a população aumentou e isso não é mais suficiente. Eles também precisam de uma nova lavanderia, e tanques de armazenamento maiores, mais fortes, para o combustível que é enviado para a ilha.

Tais melhorias podem ser interpretadas como sinais de que a comunidade não vai a lugar nenhum - pelo menos, não tão cedo. Mas uma coisa que preocupa o prefeito é o caminho que leva ao lixão, passando o aeroporto, no extremo ocidental da ilha. O afastamento da ilha significa que praticamente tudo que entra, permanece nela. O lixão, localizado na extremidade mais distante da ilha, está cheio de restos de geladeiras, barris, lixo doméstico, um caminhão velho. E já que a maioria das casas não tem água encanada, o lixão é também onde os dejetos humanos são depositados em uma grande lagoa. Uma tempestade em novembro de 2013 lançou ao mar grandes pedaços de estrada, tirando 50 pés de terra em alguns lugares, o que tornou o lixão quase inacessível.

A cidade redirecionou a estrada ao redor da destruição. Mas todo mundo sabe que é uma solução temporária. "Aparentemente, a estrada vai se deteriorar de novo", disse Weyiouanna.

Perder a estrada para o lixão por si só já era bastante ruim, mas o mais preocupante é a invasão do mar no final da pista. Mais do que um lugar para pousar aviões, é a salvação da cidade, pois traz alimentos, suprimentos e pessoas. E é a única maneira de sair de lá, se tiverem que evacuar. Em tempestades anteriores, o ponto mais alto da água chegou a 22 metros da pista de pouso.

"Sem nenhuma proteção, vai acabar chegando na pista", disse Weyiouanna.

As mudanças climáticas tornam a perspectiva de uma grande tempestade e a evacuação de emergência mais uma questão de quando e não de se vai acontecer.



"Uma vez que forem evacuados", disse Kuzuguk, "ninguém vai ter autorização para voltar à ilha."

O ideal, ele diz, é conseguir mais dinheiro para estender o quebra-mar e proteger o resto da costa norte. "Iria nos dar mais tempo", ele disse, "mas eu não sei quanto tempo mais."

De fato, as mudanças climáticas tornam a perspectiva de uma grande, perigosa tempestade - e a evacuação de emergência - mais uma questão de quando e não se vai acontecer. Tal desastre provavelmente marcará o fim de Shishmaref como uma cidade independente, disse Kuzuguk.

"Uma vez que eles forem evacuados, ninguém vai ter autorização para voltar à ilha", ele disse. Eles se tornariam refugiados, em Nome, Fairbanks ou Anchorage.

Essa é a única coisa que muitos em Shishmaref querem evitar. A ideia por trás de iniciar um projeto de realocação, afinal de contas, era garantir que Shishmaref ainda pudesse ser uma cidade - só que em outro lugar. Ao se mudarem juntos, eles esperavam que pudessem proteger as coisas que os tornam únicos, como seu estilo de vida de subsistência e seus costumes.

Kuzuguk não está mais otimista sobre isso. "Eu não acho que existem suficientes pessoas razoáveis que saibam que temos que realocar por opção, em vez de sermos forçados com uma evacuação. Por escolha, ainda poderíamos manter a nossa identidade, como cultura, como comunidade", ele disse. "Mas, se não estivermos dispostos a fazê-lo nós mesmos, isso não vai acontecer."

Tony Weyiouanna Sr., apesar de suas frustrações passadas com o processo de realocação, ainda não desistiu. "Eu ainda acredito no projeto. Eu ainda digo às pessoas que acho que nós precisamos nos mudar", ele disse. "Eu ainda acho que é importante ter algum porta-voz lá fora, que continue contando histórias, transmitindo experiências, que as pessoas saibam que a ajuda ainda é necessária."

Ele tem uma nova ideia, uma que ele apresentou aos legisladores, chefes de agências e funcionários da Casa Branca durante uma viagem a Washington no início deste ano. Em vez de mudar toda a cidade, talvez eles pudessem tentar um projeto de realocação piloto, ele disse, com "apenas um grupo que realmente queira se mudar."

Ele ainda está tentando descobrir exatamente quantas pessoas eles teriam como voluntários, a fim de se beneficiar do apoio estadual e federal para a construção de um novo posto de saúde e uma nova escola. Mas uma mudança piloto como esta, ele acredita, iria resolver as questões complicadas, como encontrar um local viável, e daria um roteiro a outras comunidades como eles ao enfrentarem o mesmo desafio. E custaria cerca de metade do que eles projetaram em uma mudança maior.

"Nós só temos que fazer o planejamento", ele me disse. "Nós só temos que começar de novo e fazer o planejamento."

Ele acha que eles poderiam fazer isso dar certo, talvez em um ou dois anos. "Todo mundo vai seguir eventualmente.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.