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24/12/2014 11:34 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:35 -02

PIB dos EUA cresce acima de 4% nos últimos meses e faz dólar disparar novamente no Brasil. Quais são as perspectivas?

Thinkstock/Getty Images

O dólar voltou a disparar nesta terça-feira, 23 de dezembro, no Brasil, atingindo novamente o patamar de R$ 2,70, como já havia acontecido na semana passada. Nesta quarta, véspera de Natal, dia em que o mercado opera de forma reduzida, segue no mesmo patamar.

O motivo foi o otimismo com o forte crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) norte-americano registrado nos últimos meses em contraste com o crescimento anêmico da economia brasileira.

Enquanto a economia norte-americana cresceu 5% no terceiro trimestre deste ano (e deve crescer pelo menos 4% entre outubro e dezembro), o Banco Central brasileiro reduziu a projeção para o crescimento da economia do País de 0,7% para somente 0,2% em 2014. Ou seja, quase zero.

Com o forte crescimento do PIB, o Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano) pode estar mais perto de subir os juros, mantidos próximos de zero desde 2008, quando os EUA entraram em sua pior crise financeira desde 1929.

O aumento dos juros nos EUA fará com que muitos investidores retirem dinheiro de países emergentes, onde os juros costumam ser mais altos, para investir no mercado financeiro norte-americano. Para isso, eles precisam comprar dólar, e o dólar fica mais caro não só no Brasil, como no mundo todo.

Com as boas notícias nos EUA, e as perspectivas de um 2015 difícil no Brasil, os operadores financeiros brasileiros se sentiram ainda mais motivados a acompanhar o movimento global de busca de proteção no dólar.

O resultado foi a aceleração da moeda norte-americana ante o real brasileiro, que voltou a fechar no patamar de R$ 2,70, verificado na semana passada, quando a desvalorização do rublo (moeda russa) acendeu um sinal de alerta no mundo. Nos últimos dias, o dólar estava sendo comercializado no patamar de R$ 2,65.

Dias (quer dizer, meses ou anos) difíceis no Brasil

Na última segunda, analistas econômicos ouvidos pela pesquisa Focus, feita semanalmente pelo Banco Central, projetaram pela primeira vez que a inflação em 2015 poderá estourar o teto da meta e chegar a 6,54%, enquanto que em 2014 deve ficar em 6,38%. A meta é de 4,5 por cento, com margem de dois pontos percentuais para mais ou menos.

Nesta terça, o Banco Central divulgou seu relatório trimestral de inflação e, após entregar uma inflação muito perto do teto da meta nos quatro anos do primeiro mandato de Dilma, o BC se comprometeu a fazer "o que for necessário" para trazer os preços para o centro da meta daqui a dois anos (2016).

"O BC irá fazer o que for necessário para que no próximo ano a inflação entre em longo declínio, que levará à meta de 4,5% em 2016", avisou a instituição.

O documento foi considerado pelos analistas mais duro, indicando chances maiores de uma alta de 0,75 ponto porcentual na Selic (taxa de juros) em janeiro, segundo reportagem do jornal O Estado de S.Paulo.

O BC revisou para cima suas projeções para o IPCA (inflação) de 2014 e 2015, além de derrubar de 0,7% para 0,2% a estimativa de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) de 2014. Confirmado o prognóstico do BC, a expansão do PIB será a mais baixa desde 2009, quando o País entrou em recessão por causa da crise financeira internacional, iniciada nos EUA.

Na segunda-feira, a presidente reeleita Dilma Rousseff também afirmou que a nova equipe econômica, liderada pelo ministro da Fazenda, Joaquim Levy, tomará "medidas drásticas" para melhorar as contas do governo (desempenho fiscal) no próximo ano. Em 2014, o governo conseguiu que o Congresso (onde tem maioria) alterasse sua meta fiscal para não fechar as contas no vermelho, o que gerou muitas críticas não só da oposição mas de economistas e analistas em geral.

"Vamos organizar primeiramente a casa e preparar uma retomada. Almejamos uma recuperação, uma melhoria das nossas condições. Para isso temos de fazer algumas medidas mais drásticas", afirmou a presidente em coletiva a jornalistas no Palácio do Planalto.

Ou seja, o governo terá de cortar gastos em 2015 e, possivelmente, aumentar impostos. Resultado: no ano que vem o PIB brasileiro não deve crescer muito mais do que em 2014.

Enquanto isso, nos Estados Unidos...

A economia dos EUA, que passa por uma longa e difícil recuperação desde a crise financeira de 2008/2009, surpreendeu e cresceu entre julho e agosto no ritmo mais forte em 11 anos, puxada pela expansão do consumo e dos investimentos. A previsão dos analistas é que a recuperação do país vai continuar avançando e pode ganhar fôlego extra com a queda dos preços do petróleo no mercado mundial, que deve estimular o consumo interno.

O PIB dos EUA foi revisado para cima no terceiro trimestre e mostrou expansão, em números anualizados, acima dos 4,3% esperados pelos economistas. Dados mais recentes, de novembro, mostram que o consumo, o motor da expansão dos EUA, continua avançando. No mês passado, cresceu 0,6%, a maior taxa dos últimos três meses e pouco acima dos 0,5% esperados pelos analistas.

A economista sênior do BMO Capital Markets, Jennifer Lee, avalia que a revisão para cima foi pelos motivos certos, o consumo interno está forte. Além disso, o investimento privado e os gastos do governo tiveram melhora. O único setor que vem decepcionando é o imobiliário. As vendas de moradias novas caíram 1,6% em novembro.

Na semana passada, a presidente do Fed (banco central dos EUA), Janet Yellen, afirmou que os juros podem não subir nas duas primeiras reuniões de política monetária de 2015, mas tudo depende de indicadores.

Para o economista-chefe do Bank of Tokyo-Mitsubishi, Chris Rupkey, a alta dos juros em dólar pode estar próxima, pois os norte-americanos estão gastando mais. A expansão do consumo no período foi revista para cima, de 2,2% da estimativa anterior para 3,2%. Com a redução dos preços dos combustíveis, esta taxa pode ser ainda maior, avalia o economista.

"A economia está quase em um estágio em que precisa de um aperto na política monetária", destaca Rupkey.

O economista-chefe do Deutsche Bank, Joseph LaVorgna, vai na mesma direção. Para o quarto trimestre de 2014, já com o estímulo dos preços menores dos combustíveis, LaVorgna vê o PIB com chances de crescer acima de 4%.

"O Fed não pode deixar os juros em zero com a economia crescendo neste patamar", afirmou LaVorgna.

Com Estadão Conteúdo

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