NOTÍCIAS
20/12/2014 15:06 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:35 -02

O segredo devastador da Samsung: as lágrimas das 'crianças de semicondutores'

한겨레

Este artigo foi traduzido do Huffington Post a partir de uma reportagem do Hankyoreh, parceiro de mídia do HuffPost na Coreia do Sul. O texto faz parte de uma série do Hakyoreh sobre os impactos da indústria de semicondutores nos filhos dos trabalhadores.

A Samsung Corporation vem enfrentando nos últimos anos várias acusações perturbadoras relativas à saúde de alguns de seus trabalhadores na Coreia do Sul, sede da empresa.

Ex-empregados e suas famílias, além de sindicalistas, dizem que as condições de trabalho nas fábricas de semicondutores da companhia levaram ao aumento da incidência de doenças como leucemia e outros tipos de câncer entre antigos funcionários que trabalhavam com semicondutores.

O HuffPost Korea e o jornal The Hankyoreh, seu parceiro de mídia, relatam que a exposição de longo prazo a substâncias químicas tóxicas pode ter efeitos duradouros não só sobre alguns antigos trabalhadores da Samsung, mas também sobre seus filhos.

Como muitos pais acham que a culpa é deles e guardam segredo em torno da condição de seus filhos, a questão da toxicidade reprodutiva, quando crianças adoecem devido ao acúmulo de diversos compostos tóxicos no organismo de seus pais por um período prolongado, raramente vem à tona

Para pessoas que, em muitos casos, jamais pensariam em atribuir suas doenças à empresa para a qual trabalharam, é difícil vincular as doenças de seus filhos a seus próprios locais de trabalho.

A Samsung Electronics e a SK Hynix, grandes corporações mundiais e líderes da indústria sul-coreana de semicondutores, negam que exista alguma relação entre toxicidade reprodutiva e as condições de trabalho no setor da manufatura de semicondutores.

A reação é semelhante à que surgiu após os primeiros relatos, em 2008, sobre “doenças industriais ligadas a semicondutores”, quando ex-empregados da Samsung começaram a atribuir a leucemia e outras doenças que tinham apresentado às condições de trabalho em fábricas de semicondutores.

Em um primeiro momento, a Samsung negou qualquer vínculo entre os incidentes e as condições de trabalho em suas fábricas, mas tribunais sul-coreanos decidiram, em vários casos, que ex-operários da Samsung com leucemia tinham sido vítimas de acidentes industriais. Em maio de 2014, a gigante da tecnologia finalmente divulgou um pedido de desculpas aos operários e suas famílias, prometendo pagar indenização apropriada às famílias dos trabalhadores.

O The Hankyoreh está acompanhando agora o assunto até agora pouco divulgado das “lágrimas da segunda geração dos semicondutores”. O relato que segue, o primeiro capítulo da série, é a narrativa arrasadora da luta de uma família para sobreviver aos problemas de saúde crônicos gerados no local de trabalho. Foram usados pseudônimos em lugar dos nomes reais de todas as pessoas que aparecem no relato.

“Uma foto do aniversário de 1 ano do meu filho? Não existe. Eu estava ocupada demais implorando aos médicos que salvassem meu filho, que estava internado no hospital.”

Kim Hee-eun tem 42 anos e mede 1,75 metro. Ela nasceu e cresceu numa ilha em Wando, na província sul-coreana de Jeolla do Sul, e ali viveu até concluir o ensino médio.

Era uma criança saudável e raramente sofreu qualquer tipo de problema de saúde na juventude. Agora, ao falar de seu filho Gunoo, de 15 anos, que nasceu em 1999, ela chorou. Falou dos anos de dor que Gunoo tem pela frente, já que o sofrimento que ele padece há 15 anos vai continuar pelo resto de sua vida.

"Espero e rezo que ele não fique doente e que cresça com saúde": foi o que Kim Hee-eun escreveu num álbum fotográfico quando seu filho Gunoo nasceu. Crédito: Kim Hee-eun

Gunoo sofre de diarreia incessante desde que nasceu. Sempre que ele come, não importa onde esteja ou com quem, os alimentos que passam por seu trato digestivo viram fezes líquidas. Gunoo não gosta de usar banheiros públicos, especialmente os da escola, porque tem medo dos traços deixados por seu problema.

Ele sempre tem que ir ao banheiro em casa antes de sair para a escola pela manhã e antes de ir ao centro de aprendizagem pós-escola, à noite. Algo que para a maioria das pessoas é um processo corriqueiro e sem dificuldade maior é vergonhoso e doloroso para Gunoo. A possibilidade de complicações futuras é desconhecida.

Gunoo três meses depois de nascer. Ele vomitava constantemente. Sua barriga era inchada, e ele sorria pouco. Crédito: Kim Hee-eun.

O The Hankyoreh se reuniu com a família de Gunoo em Onyang, no condado de Ulsang, Coreia do Sul, em 3 de novembro. Foi o segundo encontro com a família, após o encontro inicial em 12 de agosto. O tempo já esfriou muito, e foram lançados vários avisos sobre o frio. A estação do ano é novamente aquela em que Gunoo, ainda bebê, lutou para sobreviver.

“Nascido em 14 de abril de 1999 às 9h06. Peso: 3,2 quilos”, escreveu Hee-eun. “Um filho que nasceu depois de quatro horas de contrações. Estou pasma. Torço e rezo para que ele cresça saudável, que não fique doente.”

Esse primeiro e único desejo de mãe não seria realizado. Gunoo só produziu mecônio –as primeiras fezes do recém-nascido—três dias depois de nascer, o que é um indicativo de saúde fraca em recém-nascidos. Seu abdome começou a inchar, e ele apresentou febre alta. Passou um mês na UTI neonatal.

O hospital decidiu abrir seu abdome, dizendo que seu intestino grosso estava retorcido, como um novelo de lã. Uma semana depois, o hospital voltou a abrir 15 centímetros do abdome de Gunoo. Em novembro do mesmo ano, Gunoo, então com 8 meses, passou por duas cirurgias de grande porte e foi levado ao Hospital da Universidade Nacional de Seul com um coletor fecal preso a seu corpinho frágil. O hospital abriu seu abdome novamente e extirpou seu intestino grosso por inteiro.

“Eu o amamentei por sete meses, mas ele vomitava tudo. Mesmo quando eu lhe dava remédios numa mamadeira com leite para bebês, ele fazia a mesma coisa. Depois de ser tirado o intestino grosso, ele sujou as cuecas até completar 7 anos. Nem consigo encontrar as palavras para descrever aquele tempo.”

O Hospital da Universidade Nacional de Seul acompanhou Gunoo até ele chegar aos 13 anos de idade. Isso foi feito porque “uma extração do intestino grosso inteiro nunca tinha acontecido” na história do hospital. No último dia dos 13 anos de viagens entre Onyang e Seul – em outras palavras, em dezembro de 2013 --, o médico responsável disse a Gunoo: “Você deveria agradecer à sua mãe. Você sabe quantas dificuldades ela encarou, não?”. A observação só fez Hee-eun chorar mais. “É por minha causa que Gunoo é assim.”

Hee-eun trabalhou na fábrica da Samsung Electronic em Onyang de 1991 a 1998. Seu pai sentiu orgulho quando sua filha começou a trabalhar para a Samsung Semiconductor. Quinze funcionárias dividiam um dormitório de 83 metros quadrados e cumpriam uma jornada de trabalho de 12 horas diárias, com dois turnos.

Em 1993 o horário ficou um pouco mais fácil, com três grupos fazendo três turnos, um mês a cada vez. Com o tempo as coisas melhoraram ainda mais, com quatro grupos e três turnos, alguns anos depois. Quando sua carga de trabalho diminuiu, Hee-eun pôde conhecer e começar a namorar aquele que se tornaria seu marido.

“No fim de ano, a empresa me mimava, dando presentes, coisas como uma máquina de lavar louça e um forno de micro-ondas. Quando eu ganhava essas coisas, achava que trabalhava para uma boa empresa, apesar de estar exausta. Pensávamos que problemas de saúde e menstruação irregular eram coisas normais, que todo o mundo enfrenta.”

Sua percepção das coisas mudou dois anos atrás. Quando Hee-eun reencontrou antigas colegas de trabalho que tinham se tornado mães, elas trocaram notícias sobre a morte e as doenças de outras colegas e suas próprias experiências de infertilidade e abortos acidentais.

Na mesma época, Hee-eun se conscientizou da possibilidade de ter sofrido lesões e exposição em seu local de trabalho. No verão deste ano, quando assistiu ao documentário coreano “Outra Família”, que trata de uma mulher que enfrenta doenças ligadas à indústria dos semicondutores, ela chorou de aflição, dizendo “eu também estava nesse lugar”.

Gunoo (dir.) com seu primo, depois de todas as cirurgias. Uma anotação na foto descreve o período, quando Gunoo tinha 1 ano de idade, como sendo “a época em que Mamãe e Papai choravam mais”. Crédito: Kim Hee-eun.

Hoje Hee-eun se recorda de muitos sinais que estavam presentes em seu ambiente de trabalho e que poderiam tê-la alertado. A fábrica de Onyang, para onde ela foi enviada depois de passar seis meses de treinamento em outra fábrica, tinha acabado de iniciar suas operações.

Havia falhas frequentes em seus equipamentos, que eram consertadas constantemente por engenheiros japoneses residentes. Uma das chaves da manufatura de semicondutores é o processo de fundição. Hee-un revestia os chips semicondutores com um composto de moldagem de epóxi que ela aquecia a 180 graus Celsius para a preservação e proteção dos chips.

Todas as operárias eram mulheres altas, como Hee-eun, porque tinham que levantar manualmente o composto químico e despejá-lo sobre o equipamento, que tinha a altura delas, e depois lavar os chips com outro composto químico, a melamina.

Carcinógenos perigosos como benzeno e formol são produzidos no processo de aquecimento, segundo o Instituto de Pesquisas em Segurança e Saúde Ocupacional (Occupational Safety and Health Research Institute, ou OSHRI).

Hee-eun, que lavava suas próprias roupas protetoras, sujas de substâncias químicas, descobriu que tinha concebido Gunoo uma semana antes de deixar a Samsung Electronics.

“Eu almoçava em 40 minutos para obedecer o cronograma dos turnos ao máximo. Naquela época eu tinha que trabalhar 12 horas por dia, transpirando constantemente. Ninguém me informou que seria preciso usar uma máscara. Quero perguntar: a Samsung não me aconselhou sobre a exposição a compostos tóxicos porque ela própria não sabia?”

Hoje Hee-eun sofre de câncer da tireoide, artrite reumatoide, meningite e câncer epitelial. Ela faz tratamento contra o câncer de tireoide a cada seis meses, tratamento de meningite a cada três meses e contra a artrite reumatoide de dois em dois meses.

Todo mês ela tem que voltar ao Hospital da Universidade Nacional de Seul, apesar de, depois de 13 longos anos, esse mesmo hospital ter dito a ela e Gunoo que não voltassem mais. “Quero passar pelo menos uma noite sem dor”, disse Hee-eun, expressando seu maior desejo.

Quando ela pediu sua ficha médica dos últimos dez anos, para encaminhar um pedido de indenização por lesões sofridas no trabalho, o atendente, chocado, perguntou a Hee-eun onde ela tinha trabalhado.

A família de Gunoo não tem acesso a muita cobertura de seguro-saúde. A única cobertura que ela pode pedir é a de problemas de saúde por desastres, mais algumas por câncer. Mesmo o marido de Hee-eun, que trabalhava numa empresa de papel, feriu os dedos na prensa. Mas ninguém na família se recorda de ter recebido qualquer seguro contra acidentes e lesões de trabalho.

Hee-eun, que gastou mais de 15 milhões de won (cerca de US$15 mil) com o tratamento médico de Gunoo, agora tem que se preocupar em como pagar seu próprio tratamento. Em 2015, o limite de cinco anos de cobertura por câncer de tireoide previsto em seu plano também vai acabar.

Hee-eun tem 42 anos e em 2007 sofreu um aborto espontâneo na 26ª semana de gestação. Ela não quer ver mais um filho sofrendo dores insuportáveis e decidiu que não terá mais filhos.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost Korea e traduzido a partir de uma versão em inglês. Telia Lavin colaborou com a reportagem de Nova York

LEIA MAIS

- Menina de oito anos vende limonada orgânica para combater trabalho infantil

- Escravidão não é coisa do passado