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16/12/2014 14:53 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:02 -02

Rússia eleva juros em 6,5% de uma só vez, mas rublo despenca 17% em relação ao dólar. Entenda o que está acontecendo

Por Alexander Winning e Vladimir Abramov MOSCOU (Reuters) - O rublo despencava fortemente pelo segundo dia seguindo nesta terça-feira e registrava sua pior queda desde a crise financeira da Rússia em

AP

A tão temida "tempestade perfeita", que alguns analistas disseram que poderia atingir o Brasil neste ano ou no próximo mas por enquanto não se concretizou, parece estar caindo sobre a economia russa _e o governo do todo-poderoso Vladimir Putin_ nesta terça-feira (16).

Numa medida dramática para tentar conter a derrocada do rublo em relação ao dólar, o Banco Central russo elevou a taxa de juros em 6,5% de uma só tacada na madrugada de segunda para terça, de 10,5% para 17%. A manobra, no entanto, falhou e a moeda russa teve a pior queda desde a crise financeira da Rússia em 1998.

O rublo começou a ser negociado cerca de 10 por cento mais forte ante o dólar após a subida dos juros, mas logo começou a cair e chegou a perder 17% do valor perante o dólar (77,30 rublos por dólar), depois de atingir mínimas de 80 rublos por dólar e 100 rublos por euro.

Desde o início do ano, o rublo já perdeu cerca de 57% de seu valor em relação à moeda norte-americana. Além de subir os juros, o Banco Central russo já gastou US$ 90 bilhões de suas reservas para tentar defender o rublo, sem sucesso até agora. O país ainda tem cerca de 416 bilhões de dólares em reservas internacionais.

Com o rublo derretendo, empresas e bancos russos podem não ter dinheiro para pagar suas dívidas com credores estrangeiros e entrar em moratória. Também a dívida pública ficará mais cara para o governo.

A inflação no país também está acelerando e deve atingir 10% no final do ano, segundo a CNN, pois a maior parte dos alimentos são importados do exterior e, com o rublo mais fraco, os alimentos ficam cada vez mais caros para a população.

A grave ameaça à economia russa se aprofundou nos últimos meses por dois motivos:

1. A queda do preço de petróleo no mercado mundial, com o barril custando menos de US$ 60 - Em razão do intervencionismo praticado nos últimos anos, a economia russa se tornou cada vez mais dependente dos recursos do gás e do petróleo. Enquanto os preços do petróleo estavam altos, o presidente Putin tinha gordura para gastar (o que também aconteceu em outros países produtores de petróleo, como a Venezuela de Chávez/Maduro). Mas, com a queda de 40% no valor do barril de petróleo neste ano, a bonança acabou. O barril está sendo comercializado a menos de US$ 60 o barril e já há quem diga que pode continuar caindo. Já uma pesquisa da CNN prevê que ele suba para em torno de US$ 74 em 2015.

2. A imposição de sanções econômicas por parte da UE e dos EUA em retaliação à anexação da Crimeia no primeiro semestre de 2014 e o apoio de Putin aos separatistas do leste da Ucrânia - Nos últimos meses, Putin ganhou ainda mais popularidade entre os russos ao apoiar o separatismo na Crimeia e no leste da Ucrânia, relembrando os tempos áureos da União Soviética. Mas muitos analistas já previam que, mais cedo ou mais tarde, ele sentiria os efeitos das sanções econômicas, o que parece estar acontecendo antes do que o previsto. Uma das reações de Putin contra as sanções foi justamente banir a importação de alimentos da Europa, mas a consequência disso é que eles ficam mais caros para os próprios russos.

Segundo a CNN, se o preço do petróleo e do gás não se recuperar, a economia russa pode diminuir 5% neste ano, uma recessão comparável à ocorrida durante a crise russa do final dos anos 1990. Há um ano atrás, a economia crescia cerca de 1,5%, o que não é nada demais, mas, diante do quadro atual, deixará saudade.

Em 1998, o rublo sofreu um colapso em questão de dias, forçando a Rússia a declarar moratória de sua dívida. Embora as finanças públicas e as reservas internacionais sejam muito mais saudáveis agora do que em 1998, analistas dizem que o país está à beira de uma crise total do câmbio.

Diante da crise iminente, o presidente Vladimir Putin, cuja popularidade do presidente depende em parte de sua reputação por garantir prosperidade e estabilidade, culpou especuladores e o Ocidente pelas quedas no preços do petróleo e do rublo.

Até quando ele poderá culpar os outros?

E qual o impacto que a crise russa, se não for revertida, pode ter no resto do mundo? E no Brasil, cuja economia já está bastante fragilizada?

Com informações da Reuters

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