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14/12/2014 04:37 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:02 -02

Clarissa Garotinho vai reforçar bancada evangélica da Câmara, brigar por direitos das mulheres e enfrentar 'lobista com mandato'

Montagem/Estadão Conteúdo

Ela é a principal beneficiária do espólio político de Anthony Garotinho, candidato derrotado ao governo do Rio de Janeiro, e de Rosinha Garotinho, atual prefeita de Campos dos Goytacazes. Filha do casal, Clarissa Garotinho (PR-RJ) foi a segunda parlamentar mais votada no Rio de Janeiro com mais de 335 mil votos, atrás apenas de Jair Bolsonaro (PP-RJ).

Aliada leal da presidente Dilma Rousseff (PT), que pretende reconhecer o pai dela com algum cargo federal importante, ela promete fortalecer a base da petista em seu primeiro mandato na Câmara dos Deputados.

Em entrevista ao Brasil Post, a deputada federal eleita chegou a defender o polêmico projeto de mudança da meta fiscal de 2014, exigido pelo Planalto. E ressaltou que fará campanha contra o deputado federal Eduardo Cunha (PMDB-RJ), que quer ser presidente da Câmara em 2015, a contragosto de Dilma.

"Acho um grande mal para o País [se ele for presidente da Casa]", dispara. "Não concordo com essa postura de chantagem que ele faz", argumenta, acusando-o de lobista.

Posicionando-se como defensora de direitos das mulheres, Clarissa Garotinho promete ampliar o coro da bancada evangélica no Congresso.

Ela é a segunda entrevistada do Brasil Post em série que aborda os problemas atuais do País e traça perspectivas para 2015.

Campanha eleitoral no Rio de Janeiro

Brasil Post: Como você e sua família lidaram com a sua vitória expressiva e a derrota de seu pai nas eleições a governador do Rio de Janeiro?

Eu estava triste, não esperávamos isso. Nenhum resultado mostrava a derrota dele nem nossas pesquisas internas. A notícia foi chocante, fiquei realmente muito triste. Não consegui comemorar minha vitória naquele momento. O Garotinho não é apenas meu líder político; é meu pai. Não era o momento de comemorar, mas sim de a gente refletir.

A campanha de Garotinho foi bastante contundente nas críticas ao atual governador, Luiz Fernando Pezão (PMDB). Agora que a senhora está saindo da Assembleia Legislativa, como fazer oposição ao governante criticado por vocês?

Nosso partido [PR] continua na oposição: são oito deputados estaduais. Nossa representação na Assembleia cresceu. Nossa bancada continuará de oposição ao Pezão. É importante esclarecer em que bases foi feita a campanha do Pezão, candidato do [Sérgio] Cabral [ex-governador]. Ele se apresentava como anti-Cabral, candidato que defendia a mudança. Só que ele foi vice-governador do Cabral. Como era ainda muito desconhecido da população, foi fácil não fazer o elo entre Pezão e Cabral. Ele não falava de nenhum ato dele na gestão do Estado; sempre puxava a memória do eleitor para quando foi prefeito de Piraí, que é uma cidade pequena. Ele mesmo [Pezão] tentou disfarçar o que ele próprio era.

Essa estratégia da campanha do Pezão foi semelhante à da Dilma, que também se dizia candidata de mudança...

Existe uma diferença. O governo federal assimilou seu próprio discurso, disse tudo que ela e Lula vinham fazendo, e que as mudanças seriam aprofundadas e teriam continuidade. No caso do Pezão, era um discurso de ruptura com ele próprio.

Eduardo Cunha na presidência da Câmara

O candidato do PMDB a presidente da Câmara, Eduardo Cunha, é desafeto de seu pai, já até recorreu ao Supremo contra ele. Também é um verdadeiro calo no pé da presidente Dilma pela forma como articula os deputados, muitas vezes contra o Palácio do Planalto… Qual a sensação de trabalhar em uma Casa que pode ser presidida por Cunha?

Espero sinceramente que a Casa não seja presidida por ele. Acho um grande mal para o País. Não concordo com essa postura de chantagem que ele faz. O Congresso não pode ter o chantageador-geral da República como chefe da Câmara.

Acredita que Cunha chantageia a presidente Dilma?

A Câmara tem que manter independência do governo com harmonia. O que ele [Eduardo Cunha] quer é chantagear para buscar mais beneficios e interesses do grupo do qual ele faz parte. Ele disse que, dentro do Parlamento, ele representa os interesses de empresas. É um lobista com mandato, então. É isso que queremos?

Desafios em seu mandato na Câmara Federal

Você tem 32 anos, será uma jovem deputada em uma Casa cheia de meandros e com políticos muito . Sente-se preparada para enfrentar o Congresso Nacional?

Tem outros deputados mais jovens, mas, sim, sinto-me preparada. Fui vereadora na cidade do Rio, deputada estadual, líder da minha bancada. Integrei comissões importantes. Esses seis anos de experiência legislativa me deram bagagem para outro desafio. Agora, claro, tem suas diferenças: no Congresso Nacional, não é só você. É o comportamento da bancada que influencia muito, na atuação parlamentar de cada um. Estou animada, preparada. Mas será uma legislatura pesada, não será tão simples.

Que dificuldades você vislumbra?

Esse escândalo da Petrobras, as delações premiadas, tem envolvimento de muitos políticos que se reelegeram. Vai ter muitos processos de investigação, processos de cassação. E também há debates urgentes, como a reforma política. Mas o momento é de muito crescimento, porque crise também é sinônimo de oportunidade. Vamos tentar tirar os melhores ensinamentos dela.

"Não é possível que ainda hoje a gente aceite que mulheres no mesmo local de trabalho recebam menos que os homens para desempenhar a mesma função."

Como vê uma votação como a do projeto de lei que mudou a meta fiscal do governo federal — arrastando-se pela madrugada em um verdadeiro cabo de guerra entre governo e oposição, com muitos joguinhos da própria base aliada?

O que a Dilma está fazendo é uma mudança na meta. Ela está fazendo revisão, apenas para o ano de 2014. Estão fazendo um alarde maior do que realmente é. No momento em que a gente tem dificuldades de investimentos no setor privado, a Dilma conseguiu manter taxa de desemprego de mais ou menos 5%. E conseguiu a manutenção da renda média do trabalhador. E outros governos estaduais também estão fazendo isso, como o Marconi Perillo (PSDB), em Goiás. O discurso da oposição cai por terra quando se está fazendo isso em uma Assembleia Legislativa.

Quais serão as prioridades de seu mandato na Câmara?

Na verdade, defendi algumas propostas que eu considero importantes. A aposentadoria precisa ser rediscutida. Não é justo a pessoa que trabalhou a vida inteira receber menos do que recebeu a vida toda. É um debate difícil, mas necessário no Congresso. Também quero propor alterações no Estatuto do Idoso. Não pode ser idoso para um coisa e para outra, não. Para transporte público, é considerado idoso só quem tem mais de 65 anos, tendo direito à gratuidade. Para outras coisas, é 60 anos. não se pode fazer essa diferenciação.

Além de trabalhar pelo direito dos idosos, pretende ter alguma bandeira em relação às mulheres?

Quero fortalecer a participação feminina no Congresso. Temos países mais próximos, como o México, com 26% de taxas de participação das mulheres no Parlamento. Na Suécia, são 47%. Aqui no Brasil, é menos de 10%. Então, precisamos fortalecer a bancada feminina das assembleias legislativas, as secretarias e procuradorias da Mulher. Tem temas urgentes; não é possível que, nos dias de hoje, a gente aceite que as mulheres no mesmo local de trabalho recebam menos que os homens para desempenhar a mesma função.

Como parlamentar, de que forma pode ajudar no combate à violência contra a mulher?

Mesmo com leis mais rigorosas, sabemos que as mulheres sofrem todo tipo de violência. Tem pouquíssimas delegacias da mulher no Brasil. Só 10% dos municípios têm esse atendimento especializado. Precisamos provocar um debate sobre isso.

Pautas progressistas versus interesses da bancada evangélica

O PR é o maior partido da bancada evangélica da Câmara. A senhora vai trabalhar pelos interesses dos evangélicos, como seu pai fazia?

Eu sou evangélica, sou presbiteriana. É evidente que vou participar das reuniões dessa bancada.

Qual é a sua posição sobre o Estatuto da Família, que restringe o conceito de “núcleo familiar” aos casais de homem e mulher e seus descendentes ou a homens e mulheres sós e seus filhos?

Não li o Estatuto da Família, ainda sou deputada estadual. Ainda estou muito debruçadas nos assuntos do Rio. Comecei a estudar os temas federais depois da eleição. Não posso falar do estatuto.

Mas o que a senhora acha do casamento gay?

Eu não sou a favor de obrigar pastor ou padre de fazer casamento religioso de pessoas do mesmo sexo.

Mas estou falando de união civil e casamento civil?

O STF [Supremo Tribunal Federal] já decidiu isso.

Tráfico, guerra às drogas e descriminalização

O Congresso Nacional tem feito uma série de audiências públicas sobre a legalização da maconha. Qual é a sua posição sobre esse tema?

Sou contra. Acho que este não é um debate urgente no Brasil. Tem tantos países no entorno adotando esse medida. Podemos esperar e avaliar essas políticas dos países vizinhos. Nós temos tantas urgências, necessidades na saúde, na educação, segurança. Quero tratar esses temas com importância maior.

Sou contra a legalização. Depois da maconha, você legaliza o crack. Depois, mais o quê? A maconha não é o braço do tráfico.

Mas a descriminalização da maconha tem relação com debate de segurança, na medida em que contribui com minar o tráfico...

Vai acabar com a violência por quê? O tráfico não trabalha só com maconha. Trabalha com crack, ecstazy, com arma, com cocaína.

Não acredita que a legalização pode ser uma alternativa à violência da guerra contra o tráfico, que mata milhares de jovens, grande parte deles no Rio de Janeiro?

Depois da maconha, você legaliza o crack. Depois, mais o quê? A maconha não é o braço do tráfico.

Mas, deputada, qual é a alternativa para a guerra às drogas, no combate ao tráfico?

Você tem que investir em policiamento comunitário, em ações sociais e educativas. Não adianta entrar com a polícia na favela e não entrar com ações de cidadania. Não adianta ter política de enfrentamento do tráfico todo dia, sem oferecer posto de saúde e trabalho como alternativa aos usuários. E também tem a questão do atendimento aos usuários: as clínicas de recuperação de dependentes de drogas, criadas no governo Garotinho, que faziam a internação, hoje não fazem mais. Elas foram completamente abandonadas [na gestão Cabral] e praticamente inexistem.

Qual a sua avaliação sobre a experiência das UPPs (Unidades da Polícia Pacificadora), no Rio de Janeiro?

O governo do Rio pegou uma experiência de UPP, implementada em comunidades pequenas, e levou para Rocinha e para o Complexo do Alemão, favelas maiores que muitas cidades do interior do estado. A unidade foi feita de lata e funciona com policiais que acabaram de se formar e fizeram formação no interior. Eles são deslocados para a comunidade cuja geografia eles desconhecem. O que vai acontecer é o que estamos vendo: o tráfico coloca fogo na UPP, policiais perdem suas vidas porque não estão preparados psicologicamente nem treinados de maneira concreta.

Então, as UPPs fracassaram?

A UPP é uma política importante que ganhou credibilidade. Mas, no momento que quiseram disseminar e fazer delas política com ambição eleitoral, perderam o controle. Não há efetivo suficiente para cobrir o policiamento do Rio de Janeiro, e você tem os policiais enclausurados na UPP. Isso deixa as ruas completamente descobertas. Cresceu número de mortes, roubos, estupros. A média de estupro é maior que a nacional porque não tem policiamento ostensivo. Reconheço que o governo federal tem que assumir mais respostas. O combate ao tráfico não pode ficar só a cargo do governo estadual; constitucionalmente, é uma resposta federal.

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