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12/12/2014 17:30 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:02 -02

Sem corpo e sem paz: 4 PMs são denunciados pela morte de Amarildo em 2013; Testemunhas somem ou têm medo de morrer

Montagem/Estadão Conteúdo e Arquivo pessoal

O Ministério Público do Rio de Janeiro (MP-RJ) denunciou quatro policiais militares por participação e assassinato do pedreiro Amarildo de Souza, em 14 de julho de 2013. Entretanto, o corpo da vítima, até hoje nunca encontrado, é apenas parte de um crime ainda recheado de polêmicas e temores.

O major Edson Raimundo dos Santos, o tenente Luiz Felipe de Medeiros e os soldados Newland de Oliveira e Silva Júnior e Bruno Medeiros Athanasio são, agora, acusados de pagar a duas testemunhas para que apontassem, em depoimentos formais, traficantes da favela da Rocinha, na zona sul do Rio, como assassinos de Amarildo.

De acordo com a denúncia dos promotores do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), os PMs – integrantes da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) da Rocinha – deram R$ 500 e R$ 850 para as testemunhas acusarem o traficante Thiago da Silva Neris, o Catatau, pelo crime. Uma das testemunhas chegou ainda a receber fraldas descartáveis como propina.

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O diálogo telefônico entre o suposto Catatau e um PM foi combinado, segundo os promotores. Na conversa, Catatau diz que Amarildo foi morto pelo tráfico. Uma perícia na gravação feita pelo Centro de Criminalística (CCRIM) da Polícia Militar concluiu que um outro policial militar, Marlon Campos Reis, réu no processo criminal do caso Amarildo, que fingiu ser o traficante na conversa, em uma tentativa de enganar os responsáveis pelo inquérito policial.

Os depoimentos falsos das testemunhas viriam confirmar o teor do diálogo montado. Se condenados, os PMs podem pegar até 16 anos de prisão pela corrupção das testemunhas. Atualmente, Santos e Medeiros estão presos, enquanto Newland e Athanasio responderão a esse processo em liberdade, segundo o MP-RJ.

Já no processo criminal pelo sumiço e assassinato de Amarildo um total de 34 policiais militares é citado. Ele tramita na 35ª Vara Criminal, na qual irá ingressar na fase de alegações finais. Em outubro de 2013, a Justiça recebera denúncia do MP-RJ contra 25 policiais por tortura (oito deles na modalidade omissiva), 17 por ocultação de cadáver, 13 por formação de quadrilha e quatro por fraude processual.

Medo e desaparecimento

Apesar do Caso Amarildo estar em andamento na Justiça, nas ruas o medo daqueles que tiveram ligação com o crime continua. Líder comunitário na Rocinha, Carlos Eduardo, o Duda, concedeu entrevista ao Coletivo Carranca no mês passado, na qual destacou que a PM não teria mudado a sua conduta na comunidade, mesmo após a polêmica em torno do assassinato do pedreiro.

“Levei essas denúncias em abril e logo após, em julho, veio acontecer do Amarildo ser torturado, sequestrado, executado. Desde a chegada da UPP aumentou os índices de violência, de tortura, de autos de resistência forjado (sic). Estes crimes não são investigados pela polícia”, disse. Duda ainda afirmou que familiares seus “foram assassinados” e enterrados como criminosos, e tiveram suas mortes indicadas pelo conhecidos autos de resistência, tema este que pode deixar de existir pelas mãos do Congresso em breve.

“Hoje eu digo que a minha vida é um reloginho de areia, porque eu sei que a polícia vai me matar”, completou o líder da Rocinha. A entrevista completa você pode assistir abaixo.

Já uma das duas testemunhas que foram subornadas pelos PMs denunciados nesta semana está desaparecida, segundo noticiou o jornal O Dia e o portal UOL. A mulher em questão estaria sumida desde agosto, quando também deixou o cadastro de testemunhas protegidas pela Justiça. O desaparecimento está sendo investigado.

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