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12/12/2014 11:23 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:02 -02

Mapa de DNA redesenha a 'árvore da vida' das aves

VALDEMI SILVA/ESTADÃO CONTEÚDO

Um grupo internacional de cientistas sequenciou o genoma de 45 espécies de aves, em um esforço sem precedentes para redesenhar a "árvore da vida" dos pássaros.

O projeto, que envolveu centenas de pesquisadores de 20 países ao longo de quatro anos, teve os resultados divulgados nesta quinta-feira (11), em 29 artigos científicos publicados simultaneamente, oito deles em uma edição especial da revista Science. Supercomputadores foram usados para analisar a enorme quantidade de dados.

Os resultados revelaram como vários ramos da família das aves divergiram em diferentes espécies, o que deverá ajudar a responder antigas questões sobre a evolução a partir dos dinossauros.

"As aves são um dos grupos mais diversos que existem, com cerca de 10 mil espécies. Essa diversidade tornava complexa a tarefa de entender as relações entre elas e, por isso, até hoje não tínhamos uma árvore filogenética confiável", diz o brasileiro Claudio Mello, da Universidade de Ciência e Saúde do Oregon (Estados Unidos), um dos cientistas que participou do projeto.

Segundo ele, pela primeira vez dezenas de espécies foram sequenciadas dentro de um mesmo grupo de vertebrados. A quantidade de dados obtidos permitiu traçar a árvore da vida (ou árvore filogenética) com confiabilidade inédita.

De acordo com Mello, ao acessar os dados genômicos completos de pelo menos uma ave das principais linhagens, foi possível reorganizar a árvore e compreender o parentesco entre as espécies. "A árvore da vida era baseada na similaridade de traços observados nas espécies, agrupando aves de rapina, aves aquáticas e assim por diante. Com os dados, conseguimos ver que várias classificações estavam erradas."

O estudo fortalece a teoria do "big-bang" da evolução das aves, que se diversificaram em muitas espécies em período considerado curto, entre 10 e 15 milhões de anos, após a extinção dos dinossauros, há cerca de 70 milhões de anos.

"Muitos ramos surgiram quase simultaneamente. Isso aumentava a dificuldade para organizar a árvore evolutiva das aves. Agora, temos dados confiáveis que deverão gerar muitas descobertas nos próximos anos", disse.

As primeiras análises, entretanto, já trouxeram revelações. Em um dos artigos publicados na Science, Robert Meredith, da Universidade Estadual de Montclair (Estados Unidos), encontrou pistas sobre em que momento da evolução as aves perderam os dentes.

Ao comparar os genomas das espécies atuais de aves aos de vertebrados que tinham dentes, os cientistas identificaram mudanças-chave em genes ligados à produção de esmalte e dentina, principais componentes dos dentes. O estudo sugere que cinco genes relacionados à dentição foram "desligados" em um ancestral comum das aves em um curto período, há cerca de 116 milhões de anos.

Ancestral comum a pássaros, dinossauros e crocodilos

Outro estudo, liderado por Ed Green, da Universidade da Califórnia (Estados Unidos), usou os dados dos sequenciamentos genômicos das aves para reconstruir parcialmente o genoma do arcossauro, ancestral comum a crocodilos, pássaros e dinossauros, que viveu há 240 milhões de anos.

Há ainda pesquisas, com participação brasileira, que tiveram foco no aprendizado vocal - uma habilidade rara no reino animal, compartilhada apenas por humanos, golfinhos, baleias e três grupos de pássaros.

Liderado por Claudio Mello, Maria Paulo Schneider, da Universidade Federal do Pará (UFPA), e Francisco Prosdocimi, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o grupo descobriu que papagaios e aves canoras (capazes de cantar) estão mais próximos do que se pensava nas sequências genômicas.

"Dos mais de 30 grupos de aves, somente três são capazes de aprender vocalizações: pássaros canoros, papagaios e beija-flores", disse Mello.

Em um artigo na revista Science, o grupo mapeou os genes dos três grupos relacionados ao aprendizado vocal e os comparou com os marcadores do cérebro humano que controlam a fala. "Muitos dos genes ligados ao canto do passarinho estão também nas áreas do cérebro humano responsável pela fala", explicou o cientista.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.