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12/12/2014 19:05 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:02 -02

Conferência do Clima no Peru ainda não tem acordo para 2020, mas fala em eliminar petróleo até 2050

CRIS BOURONCLE via Getty Images
US Secretary of State John Kerry delivers a speech in Lima on December 11, 2014, during the UN 20th session of the Conference of the Parties on Climate Change and the 10th session of the Conference of the Parties serving as the Meeting of the Parties to the Kyoto Protocol being held from December 1st to 12th in Lima. AFP PHOTO/CRIS BOURONCLE (Photo credit should read CRIS BOURONCLE/AFP/Getty Images)

A Conferência do Clima no Peru deveria ter acabado nesta sexta. Como não conseguiu produzir um texto de consenso, invadiu a madrugada. Os trabalhos foram interrompidos às 3 da manhã e serão retomados neste sábado. Os sinais são de fracasso para um acordo a partir de 2020. Mas um texto que circulou esta semana entre os negociadores fala em eliminar combustíveis fósseis a partir de 2050.

O fracasso dos objetivos de curto prazo se deve à velha polarização entre países desenvolvidos, liderados pelos EUA, e em desenvolvimento, com o Brasil à testa. Os ambiciosos objetivos de longo prazo, revelados pelo jornal inglês The Guardian, são patrocinados por países como Noruega, Ilhas Marshall, Chile, Colombia, Costa Rica e Guatemala.

Apesar do Secretário de Estado John Kerry, mais alto funcionário dos EUA a comparecer a essas conferências desde 2009, ter dito em discurso que "somos todos responsáveis" por um acordo, Todd Stern, o negociador-chefe norte-americano, não aceita critérios diferentes para ricos e pobres _problema que vem travando todos os acordos desde o Protocolo de Kyoto, de 1997.

A ministra brasileira do Meio Ambiente, Isabella Teixeira, contra-atacou em seguida: "A diferenciação entre países desenvolvidos e em desenvolvimento é absolutamente essencial". Os países em desenvolvimento acham que, como os ricos queimaram a maior parte do carbono que gera o aquecimento global, devem fazer cortes maiores e mais rápidos; já os pobres teriam o "direito" de queimar mais petróleo e florestas por mais alguns anos.

O raciocínio da Ministra brasileira pode fazer sentido na teoria. Mas como já estamos vivendo o caos climático, é absurdo nosso governo estar em Lima brigando para podermos poluir mais. A Cantareira que o diga. Como lembrou recentemente no Rio o ex vice-presidente norte-americano Al Gore, o tempo das negociações passou. A catástrofe climática já começa a nos engolir.

O encontro em Lima deveria estabelecer as linhas gerais do acordo a ser fechado até a próxima conferência, na França, daqui a um ano, para valer a partir de 2020. Faz parte desse "caminho para Paris" o anúncio, até abril, do compromisso de corte de emissões de cada um dos 190 países.

O EUA defendem que os cortes a serem anunciados por cada país sejam voluntários, sem compromisso legal. O Brasil e outros países do bloco Basic (Brasil, Índia, China e África do Sul) querem que os cortes sejam obrigatórios. E que os ricos ainda dêem dinheiro para combater os efeitos do aquecimento global nas nações pobres.

As propostas mais avançadas mostram que a indústria do petróleo vai enfrentar resistência crescente ao longo deste século. O caminho para Paris pode ser tortuoso, 2020 pode não ter acordo, 2050 ainda pode ver carros com motor a explosão circulando por aí. Mas no século 22 a gasolina e empresas como a Petrobras serão coisa do passado.

Nosso único problema é que, se demorarmos muito para abandonar os combustíveis fósseis, podemos desaparecer junto com eles.