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10/12/2014 19:36 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:02 -02

'Chega de Fiu Fiu': arrecadação para documentário chega a R$ 50 mil e você ainda pode colaborar

Você é mulher e está andando na rua. Um estranho te olha, faz um comentário erótico sobre a sua aparência, ou sobre o que ele pensa do seu corpo. Não é o que ninguém deseja, mas ainda assim acontece com quase todas as mulheres brasileiras todos os dias, e pensamentos como esses abaixo são mais comuns do que você imagina:


"Você vê uma menina linda, do seu lado, ‘tranquilona’, não dá para não mexer"

"Não quer que ninguém mexa com você? Passa aqui de moletom, então"

"Ela pode andar do jeito que ela quiser, mas também não exagera, não é?


O documentário "Chega de Fiu Fiu", dirigido por Amanda Kamanchek e Fernanda Frazão com colaboração de Juliana de Faria, do coletivo Think Olga, pretende ampliar ainda mais o debate sobre este tipo de assédio registrado acima, e quer gerar mobilização a favor do direito das mulheres de circular pelo espaço público sem medo.

assédio nas ruas

Para coletar recursos de forma independente, o projeto foi inscrito no Catarse – uma ferramenta colaborativa para arrecadar fundos para projetos autônomos – e, em apenas 22 dias, já bateu as duas primeiras metas. A primeira, de R$ 20 mil, foi batida em cerca de 19h após entrar no ar, e ficou entre as quatro campanhas mais populares da história do site; a segunda meta, de R$ 50 mil, foi alcançada nesta quarta-feira (10).

A próxima meta é de R$ 80 mil, e vai garantir a finalização e distribuição do filme por todo o Brasil. Se você tem empatia com o tema e quer colaborar, ainda dá tempo. Basta clicar aqui e fazer a sua doação. O projeto ficará mais 37 dias aberto para doações.

Um “Fiu Fiu” não é só um “Fiu Fiu”

O documentário quer mostrar quais são os tipos de assédio; as situações específicas que as mulheres sofrem todos os dias; debater o espaço da mulher na cidade e formas de ampliar os direitos das mulheres no espaço público.

Para isso, as idealizadoras buscaram inspiração no documentário “Femme de la rue", que mostra uma moradora de Bruxelas relatando o assédio que sofria no bairro onde morava, nas situações do dia a dia, e chegou a influenciar a agenda pública do país.

A ideia é usar um óculos com uma microcâmera escondida nos percursos de rotina como a ida para o trabalho ou a volta para casa. Ao sofrer um assédio, cada participante do projeto fala com o agressor e questiona: por que ele mexeu com ela, se ele sabe que aquilo é um assédio, e explica o quão constrangedor é.

“A gente quer mostrar o que está acontecendo nas ruas, usar o corpo como ferramenta para isso”, contou Juliana de Faria, do Think Olga, ao Brasil Post.

Assista ao vídeo de apresentação:


O vídeo acima é só o começo. Além de usar a microcâmera nas ruas, o documentário vai contar também com depoimentos de grupos de homens com perfis econômicos diferentes e análises comportamentais e psicológicas feitas por especialistas. Segundo as idealizadoras, se a terceira meta for batida ainda este ano, a ideia é lançar o filme em 2016.

98% das mulheres já foram assediadas nas ruas

Este dado acima foi divulgado pelo coletivo Think Olga em 2013, em uma pesquisa sobre assédio sofrido pelas mulheres em todos os âmbitos e situações, elaborada pela jornalista Karin Hueck, como parte da campanha Chega de Fiu Fiu. Cerca de 7.762 participaram e 99,6% delas afirmaram que já foram assediadas.

E mais: cerca de 81% disseram ter deixado de sair para algum lugar com medo de sofrer assédio e 90% trocaram de roupa pensando no lugar que iriam por receio de passar por esse tipo de situação. Você pode ver os resultados da pesquisa aqui.

Este tipo de assédio está dentro de um contexto de violência marcado pelas desigualdades de gênero. “Nós estamos acostumadas a mudar de calçada para não passar na frente de um grupo de homens, não passar na frente de um bar ou pensar duas vezes antes de colocar uma saia mais curta”, diz Juliana de Faria.

assédio sexual

Recentemente, para tornar visível esse assédio e ajudar a desnaturalizar uma situação que, na prática é uma violência e não algo "bonitinho", em parceria com a Defensoria Pública de São Paulo, o coletivo lançou uma cartilha de orientação para as mulheres que sofrem assédio. Ela está disponível aqui.

O coletivo também produziu um mapa colaborativo cuja ideia é reunir testemunhos de mulheres que sofreram algum tipo de violência ou tentativa de intimidação e, assim, criar uma ferramenta para descobrir quais são os pontos mais críticos de violência contra mulheres no Brasil. Conte em qual local aconteceu com você e colabore para o combate da violência de gênero no Brasil.

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