COMPORTAMENTO
10/12/2014 09:35 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:02 -02

Considerado novo vilão da medicina, hidrogel pode tratar câncer e recuperar tecido cardíaco

Divulgação

O hidrogel se tornou o novo vilão da saúde desde que casos como o de Andressa Urach, modelo que segue na UTI desde o dia 29 com infecção generalizada por causa de aplicações inadequadas, e Maria José Brandão, que morreu após colocar o produto nos glúteos, começaram a pipocar na imprensa.

Nesses dois casos, a equação entre a pressão social pela beleza a qualquer custo, o uso de substâncias desregulamentadas, a aplicação de dosagens até duzentas vezes acima do recomendado e profissionais irresponsáveis não tinha como dar certo.

"Hidrogel é um nome genérico para qualquer gel à base de água. O problema é abusar do uso da substância, fazendo o procedimento com profissionais que não estão aptos. Não é preciso ficar com medo porque injetou 2 mililitros. Basta realizar um acompanhamento, ao menos uma vez por ano, com um cirurgião plástico ou um dermatologista", diz Alexandre Kataoka, cirurgião-plástico perito do Instituto de Medicina Social e Criminologia do Estado de São Paulo.

Ou seja, o vilão da história não é o hidrogel, e sim seu uso inadequado. Veja, abaixo, alguns motivos para isso:

1. Toda substância tem quantidades seguras e "inseguras"

Assim como os remédios, que podem causar overdose se ingeridos acima da dose recomendada, hidrogéis injetáveis não podem ser utilizados indiscriminadamente.

As quantidades consideradas seguras são pequenas. "Entre 2 e 3 mililitros é o indicado. Seu uso é orientado para pequenas depressões, furinhos ou rugas. Nunca em grandes quantidades, que causam infecções, necroses e outras complicações", diz Alexandre Kataoka.

Andressa Urach diz ter aplicado cerca de 400 mililitros, ou seja, quase duzentas vezes mais que o recomendado.

2. Existem vários tipos de hidrogel

Hidrogel é um nome genérico para qualquer gel à base de água, "engrossado" com polímeros ou outros sólidos.

Segundo Kataoka, hoje existem três tipos de hidrogel para uso estético: polimetilmetacrilato, poliamida e ácido hialurônico. Os dois primeiros, porém, estão com o registro da Anvisa vencido desde março.

O polimetilmetracrilato, conhecido como PMMA ou metacril, é um hidrogel definitivo. Ele dura mais que cinco anos, e é só parcialmente absorvido. "Alguns estudos dizem que o PMMA deixa fragmentos após vários e vários anos", diz Kataoka.

O de poliamida é semipermanente: segundo seu fabricante, ele começa a ser absorvido entre 24 e 48 meses após a aplicação. O de ácido hialurônico tem durabilidade de mais ou menos 18 meses.

Hoje, só o ácido hialurônico é considerado seguro, pois foi amplamente estudado e está com toda a regulamentação em dia. Além disso, por causa do tempo de absorção mais curto, o risco de complicações diminui.

3. O profissional faz toda a diferença

Qualquer procedimento estético invasivo deve ser realizado preferencialmente por cirurgião plástico ou dermatologista.

Ou seja, dentistas e esteticistas estão de fora. A aplicação de ácido hialurônico e botox por dentistas, inclusive é vedada pelo Conselho Federal de Odontologia (CFO) para fins não-terapêuticos.

"Um profissional deve avaliar o que o paciente precisa, e não o que ele quer. Injeções de grandes quantidades assim, em qualquer parte do corpo, não têm lógica. O risco é muito grande", diz Kataoka.

"O hidrogel é injetado ou no subcutâneo ou diretamente no músculo. Se essa injeção for feita inadvertidamente dentro de um vaso ou de uma artéria, pode entupi-lo e causar necrose, ou entrar na corrente sanguínea provocar uma embolia", adverte.

Portanto, sempre que for realizar qualquer procedimento invasivo, é preciso verificar o registro do médico no Conselho Regional de Medicina do seu Estado, além de pesquisar sobre sua formação e seu histórico.

4. O hidrogel é um excelente curativo

O hidrogel é uma espécie de gelatina composta por água e outras substâncias que lhe conferem estrutura. Por ser uma substância versátil, é utilizada em várias frentes da medicina.

O uso tópico de hidrogéis, por exemplo, é corriqueiro em casos de lacerações ou queimaduras. Eles funcionam como um curativo líquido muito eficiente. "A lesão chupa as substâncias, para umidificar a pele e manter a hidratação", diz Kataoka.

Úlceras e outras lesões complexas também podem ser tratadas com hidrogéis.

5. Ele pode ajudar a tratar o câncer

Existem vários estudos sobre o uso de hidrogel no tratamento do câncer.

Microesferas de hidrogel podem "ministrar" remédios de dentro do corpo, de forma regular e initerrupta, substituindo seções de radio e quimioterapia.

Tubinhos de hidrogel podem guiar células cancerosas de tumores cerebrais para outras regiões menos vulneráveis, diminuindo o tamanho de cânceres considerados grandes demais para a extração.

Nanopartículas de hidrogel podem ser programadas para entrar apenas em células cancerosas e, uma vez lá dentro, matá-las, como um cavalo de troia.

6. Ajuda a aliviar problemas nas articulações

Pesquisadores das universidades Johns Hopkins e Stanford desenvolveram um hidrogel capaz de regenerar cartilagens. Ele funciona como uma espécie de "enxerto", guiando a regeneração das células.

Trata-se de um grande avanço, já que as cartilagens, por não serem irrigadas por sangue, são o tecido de mais difícil cicatrização do corpo.

7. Recupera tecido cardíaco

Cientistas da Universidade da Califórnia desenvolveram um hidrogel injetável capaz de regenerar tecido cardíaco.

Quando um coração infarta, o tecido cardíaco fica sem oxigênio e morre. Partes mortas impedem a contração adequada do coração. O hidrogel consegue regenerar a cicatriz e melhorar a flexibilidade desses tecidos necrosados.