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09/12/2014 17:13 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:02 -02

Ex-presidente Lula fala à Comissão da Verdade e chama de 'burrice' a sua prisão pela ditadura militar

Na véspera da entrega do relatório final, a Comissão Nacional da Verdade (CNV) ouviu o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Em um depoimento de 1h30, o então líder sindical no ABC paulista relembrou o seu período de líder sindical e como foram os 31 dias que passou preso durante a ditadura militar.

“Os militares cometeram a burrice de me prender, porque não tinha mais como continuar a greve”, disse Lula aos membros da CNV, Maria Rita Kehl e Paulo Sérgio Pinheiro. A detenção aconteceu em 1980, durante mais uma de diversas greves que atingiam as fábricas do ABC entre o fim dos anos 70 e o início dos anos 80.

Mas anos antes, segundo Lula, a vigília dos militares quanto às suas atividades não passara despercebida. “Eles me vigiavam em cinema. Na assembleia, a gente notava que eles estavam lá. Às vezes, disfarçados no bar do sindicato. Na minha casa, por exemplo, eles paravam a perua na porta e passavam a noite. Às vezes, para encher o saco, a Marisa (Letícia, mulher de Lula) mandava fazer café e mandava levar para eles. Foram uns três ou quatros anos que eles monitoraram e me acompanharam antes da prisão”, contou.

A montadora alemã Volkswagen é uma das que, sabe-se, monitorava as atividades de Lula e outras lideranças sindicais durante a ditadura. A empresa compunha uma das várias entidades empresariais que apoiavam o regime militar – muitas delas atreladas aos esforços de financiamento da Federação de Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), entidade que apoiava os militares.

Ainda durante os tempos na cadeia, Lula relembrou ter tido uma relação ‘digna’ com Romeu Tuma, na época diretor-geral do Departamento de Ordem Política e Social (Dops). Entre os ‘benefícios’ da relação, a chance de ver a mãe, que estava com câncer, e o acesso a um aparelho de televisão para assistir à partida de futebol entre Corinthians e Botafogo.

Sobre a sua relação com a política, ele afirmou que por várias vezes foi chamado pelo irmão, José Ferreira de Melo, o Frei Chico, que era militante político que atuava pelo Partidão, o Partido Comunista Brasileiro (PCB), para participar das reuniões clandestinas da sigla. Sempre declinou.

“O Frei Chico costumava me convidar, já em 1973, 1974, para algumas reuniões clandestinas, de noite, no apartamento não sei de quem. Eu falava: ‘Eu não vou porque se o cara quiser conversar comigo é melhor ir lá no sindicato’. Eu dizia para o Frei Chico assim: ‘O que você faz escondido, eu faço na porta da Volkswagen’. Eu lembro do Ratinho, que ia para porta da fábrica, e dizia: ‘Nós vamos ter que lutar porque a ditadura só vai acabar quando o sangue estiver batendo nas nossas canelas’. Para um cara organizado isso era uma coisa horrorosa, mas para um peão de fábrica isso não quer dizer nada”, comentou.

FHC também falou à CNV

No fim de novembro o antecessor de Lula, Fernando Henrique Cardoso, também falou com componentes da CNV. O ex-presidente tucano relembrou as muitas perseguições que sofreu, os contatos frustrados com lideranças da ditadura militar, o exílio e também as torturas, as quais diz não ter sofrido fisicamente, mas das quais têm amplo conhecimento.

“O que passou comigo não foi nada, comparado ao que outras pessoas passaram. Mas naquele tempo era muito difícil ser democrata. Hoje todo mundo é. Naquele tempo era um ato de coragem”, relembrou FHC.

A CNV entregará nesta quarta-feira (10) o relatório final – que terá cerca de 5 mil páginas e será dividido em três volumes – após dois anos e sete meses de trabalhos. A entrega do documento será à presidente Dilma Rousseff, como parte do Dia Mundial dos Direitos Humanos. O objetivo da comissão é efetivar o direito à memória e a verdade histórica e promover a reconciliação nacional.

“As Forças Armadas hoje não negam mais as violações de direitos humanos (em suas instalações), mas também não as reconhecem. O que nós queremos agora é o reconhecimento”, disse o coordenador da CNV, Pedro Dallari, em recente encontro no Rio de Janeiro.

Uma das 30 recomendações do relatório será a revisão da Lei da Anistiajá barrada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) – para “agentes públicos envolvidos nas torturas”, conforme disse o ex-ministro da Justiça e advogado José Carlos Dias, integrante da CNV, em entrevista à colunista Sonia Racy, do jornal O Estado de S. Paulo.

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