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07/12/2014 18:02 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:02 -02

FHC questiona legimitidade da vitória de Dilma por discurso eleitoral oposto às primeiras ações da presidente reeleita

Montagem/Estadão Conteúdo

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso fez uma crítica contundente às primeiras ações da presidente reeleita Dilma Rousseff. Em seu artigo no jornal O Estado de S. Paulo deste domingo (7), ele chamou de "amarga" a vitória da petista, à custa de falácias ditas durante a campanha eleitoral.

Por isso, FHC questiona a legitimidade, ainda que não se oponha à legalidade do resultado das urnas.

"O que foi dito durante a campanha eleitoral não se compaginava com a realidade", escreve.

Ele se refere às acusações feitas por Dilma candidata e pelo bunker do PT, que tacharam Aécio Neves (PSDB) de ser o candidato do arrocho, dos juros altos e dos cortes de gastos. A cúpula da petista também acusou Marina Silva (PSB) de ser a postulante dos banqueiros.

Desde o fim da eleição, o Banco Central autorizou dois aumentos sucessivos na taxa Selic, que impacta nos juros de toda a economia. O patamar atual é de 11,75% ao ano.

O ministro da Fazenda escolhido por Dilma para substituir Guido Mantega é velho conhecido do mercado. Antes de se comprometer com o governo dela, Joaquim Levy atuava como diretor-superintendente do Bradesco Asset Management (Bram), responsável pelos fundos de investimento do banco.

A tônica da gestão de Levy é o cortes de gastos, como os feitos quando foi secretário de Tesouro do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. No PT, ele chegou a ganhar o apelido de "Joaquim mãos de tesoura".

É, portanto, um nome que vai ao encontro do que Aécio pretendia para sua equipe econômica, caso tivesse vencido. Levy é amigo de Armínio Fraga, que foi apontado como ministro da Fazenda pelo tucano, e colaborou informalmente para a campanha do presidenciável.

"A presidenta começou a atuar (...) no sentido de desdizer o que pregara na campanha. Buscou um tripé 'de direita' para o comando da economia", ironiza FHC. "A calamidade das contas públicas levou-a escolher quem se imagina possa repô-las em ordem, pois sem isso não existe direita nem esquerda, mas caos", argumenta.

No texto, ele atribui a necessidade de ajustes à própria ação de Dilma, desde que era ministra-chefe da Casa Civil, com "mais gastança governamental e mais crédito público".

Todos esses gastos impactaram os cofres do Tesouro e levaram ao desequilíbrio de contas, que fizeram o governo elaborar um projeto de lei para derrubar a meta fiscal. Se a mudança não tivesse passado pelo Congresso, Dilma podia ser autuada por descumprir a Lei de Responsabilidade Fiscal.

"Foi isso [gastos excessivos do governo] que não deu certo e serviu de alavanca para outros equívocos que levaram o governo do PT a perder a confiança de metade do País", afirma o tucano.

FHC lamenta que os ajustes necessários, defendidos por Aécio e condenados por Dilma na campanha, serão conduzidos pelo governo petista.

"Vem daí certa tristeza na vitória: a tarefa a ser cumprida seria mais bem realizada com a esperança, o ânimo e o compromisso de campanha dos que não venceram. Cabe agora aos vitoriosos vestir a camisa de seus opositores (como Lula já fez em 2003), continuar maldizendo-nos e fazendo mal feito o que nós faríamos de corpo e alma, portanto, melhor."

FHC também observou que o "lulo-petismo" venceu não nas áreas mais pobres, mas nas mais dependentes das máquina pública. Para ele, é um indicativo de que parcela expressiva da população, responsável por "setores mais dinâmicos" exige uma nova política econômica — também prioridade dos tucanos na corrida eleitoral.

No artigo, o ex-presidente adverte para a necessidade de "acertar a política", para além de "rearranjar a economia".

"Que fazer com essa quantidade de partidos e ministérios, interligados mais por interesses, muitos dos quais escusos?", questiona, em referência a uma composição "clientelística" da Esplanada, na visão dele, no segundo mandato de Dilma.

Pelo Twitter, o vice-presidente nacional do PT, Alberto Cantalice, minimizou as críticas de FHC e classificou seu governo de "fracasso".