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05/12/2014 19:55 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:02 -02

21 vezes em que recursos federais foram usados para editar bobagens na Wikipédia

Montagem/Divulgação

"Black Sabbath é uma banda de Metal do Capiroto que se iniciou no início (sic) dos tempos quando Lúcifer foi lançado nas trevas."

Assim era apresentada a banda inglesa de heavy metal em seu perfil da Wikipédia, em 21 de outubro deste ano. Curiosamente, o autor do trecho inserido no verbete utilizava o IP 201.49.155.2, que pertence ao Supremo Tribunal Federal.

Não é incomum observar redes de órgãos federais serem usadas para fins duvidosos. Os casos de maior repercussão foram divulgados pelo jornal O Globo, em agosto deste ano. Na ocasião, a rede de internet do Palácio do Planalto fora usada para fazer alterações nos perfis dos jornalistas Míriam Leitão e Carlos Alberto Sardenberg, com o objetivo de criticá-los.

Diante da denúncia e da consequente polêmica, o governo alegou que era "impossível" identificar os responsáveis pelas alterações. Entretanto, a pedido da presidente Dilma Rousseff, foi aberta uma sindicância. A investigação concluiu que as edições foram feitas pelo servidor Luiz Alberto Marques Vieira Filho, então chefe da Assessoria Parlamentar do Ministério do Planejamento. Ele foi exonerado do cargo.

 

Apesar do precedente, redes de órgãos públicos são diariamente utilizadas para fins suspeitos. Por exemplo, em 3 de novembro deste ano, a rede do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) foi usada para descrever a revista Fórum como uma "publicação comunista". De acordo com Renato Rovai, editor da Fórum, "a gente está mais próximo dos movimentos sociais, mas a natureza da revista não é esta [comunista]". Em entrevista ao Brasil Post, ele diz que não vê problemas neste tipo de "construção colaborativa" do conhecimento. Mas "se algum servidor tem utilizado a rede para fazer ataques e isso for comprovado, tem o estatuto do servidor, com as devidas penalidades."

Pedro Felipe, desenvolvedor web de 19 anos e criador do perfil @BrWikiEdits, que relaciona as edições na Wikipédia feitas a partir de redes do governo, vê este tipo de utilização de recursos — financeiros e humanos — como algo oneroso para com o Estado. "É vergonhoso ver que o dinheiro dos nossos impostos seja desperdiçado para que servidores públicos improdutivos e incompetentes façam ataques a jornalistas, editem páginas nonsense ou façam qualquer coisa que não esteja relacionada à sua função, que é prover serviços ao povo."

Logo após os casos de Míriam Leitão e Carlos Alberto Sardenberg, ele criou o bot (um sistema de automação) para revelar ao público como as redes federais são usadas em edições da Wikipédia. A ideia é impôr "maior transparência do que o governo faz na internet".

O bot utiliza um programa inicialmente desenvolvido pelos criadores do @congressedits, que é similar ao @BrWikiEdits, mas em relação aos EUA. "Com algumas alterações no código e feito o mapeamento dos IPs do governo, alguns ministérios e estatais, eu coloquei o perfil no ar no final de julho. O programa funciona monitorando a todo momento os canais IRC do Wikipédia, onde todas as alterações são enviadas em tempo real. Quando um IP corresponde à lista de monitoramento que eu montei, a alteração é automaticamente tuitada. Todo o processo é automatizado", explica Pedro.

O @BrWikiEdits relaciona alterações feitas a partir das redes de mais de 45 órgãos federais, entre eles Palácio do Planalto, Senado Federal, Supremo Tribunal Federal, Câmara dos Deputados, Banco Central, Polícia Federal, Petrobras e diversos ministérios.

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