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01/12/2014 13:13 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:54 -02

Cerimônia de adeus a Roberto Bolaños, o Chaves, leva multidão de fãs ao Estádio Azteca, na Cidade do México

Reuters

Parentes, amigos e uma multidão de fãs de Roberto Bolaños se reuniram neste domingo (30) no Estádio Azteca, na Cidade do México, para velar o corpo do criador de séries como Chaves e Chapolin. Como pedido pela Televisa, a emissora mexicana que transmitia os programas do ator, muitos fãs comparecem ao local levando flores brancas — e outros tantos fantasiados como personagens dos seriados. A cerimônia em homenagem a Bolaños, morto aos 85 anos na sexta-feira (28), terminou pouco depois das 16 horas (20 horas em Brasília).

Depois de uma missa realizada no local, centenas de crianças vestidas como os personagens Chaves e Chapolim Colorado cantaram e soltaram pombas – algumas voaram sobre o Azteca, enquanto outras pousaram no gramado, em cujo centro um palco coberto foi montado para receber o caixão.

No Brasil, a cerimônia foi transmitida pelo SBT, a casa oficial do Chaves no país, durante o Programa Eliana, que conta com um pianista no palco para executar ao vivo as músicas dos seriados e exibe entrevistas de arquivo de Bolaños. Ao mesmo tempo em que acontecia o velório de Bolaños no México, fãs brasileiros se reuniam no Memorial da América Latina, em São Paulo, para visitar uma réplica do set da Vila do Chaves, montada pelo SBT.

Na noite do sábado (29), o ator foi homenageado com uma missa fechada que teve a presença de familiares e personalidades do meio artístico na sede da Televisa. O caixão com o corpo de Bolaños saiu de Cancún, onde vivia o comediante com a sua mulher, Florinda Meza, intérprete da personagem Dona Florinda em Chaves. Momentos antes de abordar um dos veículos que levaram toda a família rumo ao aeroporto de Cancún, Florinda agradeceu o carinho recebido: "Obrigada por todo o apoio que deram a meu Roberto".

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Popularidade

A morte de Bolaños deixou órfã uma geração de fãs brasileiros que cresceu assistindo aos episódios de Chaves, a sua principal criação, reprisados exaustivamente pelo SBT ao longo das últimas três décadas. Um grupo de admiradores fiel que, ignorando todas as limitações técnicas da produção, sempre garantiu ótimos resultados de audiência ao programa mexicano – e sempre mostrou um impressionante poder de mobilização a cada ameaça de cancelamento das exibições do seriado, com campanhas fora e dentro das redes sociais. Nesta sexta, com a notícia da morte do humorista, a direção do SBT estuda levar ao ar um especial para homenageá-lo.

Razão de tanto carinho, a história do garoto orfão que "sem querer querendo" inferniza a vida da vizinhança caiu nas graças do público apostando em piadas ingênuas e sem apelação: um exemplo claro do tipo de humor que Bolaños pregava. "Quando sobram piadas chulas, é porque falta talento", afirmou o mexicano em entrevista a VEJA em 1999. Mesmo não sendo um adepto do politicamente correto – como as pancadas de Seu Madruga em Chaves deixam claro –, Bolanõs fugia do humor preconceituoso nos seus roteiros. "Sempre evitei fazer piadas com raças, religiões, opções sexuais e mulheres. Aliás, nos meus programas as meninas sempre são mais inteligentes. No Chaves, era a Chiquinha quem arquitetava os planos mirabolantes", comentou.

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Pequeno Shakespeare

Antes de se tornar o criador – e o rosto – de Chaves, porém, Bolaños já havia construído uma sólida trajetória artística em seu país. Versátil, o mexicano trabalhou desde jovem nas mais diversas mídias: foi roteirista de programas de rádio, peças de teatro, esquetes de televisão e filmes no cinema – muitas vezes assumindo também o papel de ator. Tal habilidade rendeu ao multifacetado artista o apelido de Chespirito – "pequeno Shakespeare" –, alcunha pela qual ficaria conhecido no México até o fim da carreira.

A fama internacional, no entanto, só chegaria mesmo a partir dos anos 1970, com a criação de seus dois personagens mais famosos: o presunçoso herói Chapolin Colorado e o ingênuo Chaves. Dono de uma marreta biônica de plástico e de "anteninhas de vinil" sensitivas, Chapolin é uma divertida sátira dos infalíveis super-heróis dos quadrinhos americanos. A série colecionou um enorme número de fãs e conquistou o seu próprio status cult – camisetas com o emblema do personagem são um ícone pop até hoje –, mas seu alcance jamais superou o da outra criação de Bolaños.

Fenômeno latino

Exibido em mais de cem países ao longo de quatro décadas, Chaves desembarcou no Brasil quase por acaso. A série era parte de um pacotão de programas do canal mexicano Televisa comprado por Silvio Santos para turbinar a programação do ainda jovem SBT. Foi o início de uma bem sucedida parceria. Por quase trinta anos ininterruptos,Chaves foi uma das principais atrações – e curingas – da emissora, cobrindo qualquer buraco que surgisse na grade, e invariavelmente dobrando a audiência da faixa. No auge do sucesso, o humorístico cansou de dar surras na Globo, roubando o primeiro lugar no Ibope e deixando diretores do canal carioca temerosos por seus empregos.

Embora também tenha conquistado fãs em outras partes do mundo, foi na América Latina que a principal obra de Bolanõs ganhou contornos de fenômeno cultural – a ponto de ser comparada pela revista Forbes ao revolucionário Simon Bolivar por seu poder unificador no continente. Para o humorista, os índices de pobreza da região ajudavam a explicar o grande apelo do personagem entre os latino-americanos. "O Chaves é uma criança que não cresce porque não come. O personagem faz sucesso em qualquer lugar do planeta onde haja fome", disse ele na entrevista a VEJA.

Questionado muitas vezes sobre a razão do estrondoso êxito de sua principal obra, Bolaños tinha uma explicação simples – e surpreendentemente satisfatória – na ponta da língua: "Chaves sempre defendeu valores familiares como honestidade e compaixão, e as pessoas se identificam com ele por causa disso".