NOTÍCIAS
27/11/2014 22:14 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:52 -02

Crise da água em SP: Sem solução a curto prazo, abastecimento já tem data para sofrer com colapso do Sistema Cantareira

LUIS MOURA/ESTADÃO CONTEÚDO

Dia 23 de janeiro de 2015. Essa data os moradores da Grande São Paulo devem guardar bem na memória, quando não na sua agenda. É nela que o Sistema Cantareira pode chegar ao seu colapso total, segundo a arquiteta e urbanista Marussia Whately. A declaração foi dada na quarta-feira (26) pela ambientalista, também coordenadora do Programa de Mananciais do Instituto Sócio Ambiental, à CPI da Sabesp que acontece na Câmara Municipal da capital.

“Se esse pior cenário climático, ou seja, se não chover ou como disse o diretor da Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo) Paulo Massato (aquele que mandou a população preparar a canequinha) em uma das várias matérias que saíram, se repetir o cenário de 2013, 2014, nós temos o pior cenário possível para São Paulo. Esse volume aí, sem chuvas, no meu cálculo grosseiro, termina em 58 dias”, afirmou, em declarações reproduzidas pela Rádio Web Câmara.

Em entrevista ao Brasil Post em abril deste ano, Marussia já dizia que existia um problema de gestão na crise da água em São Paulo, sobretudo no que diz respeito ao Cantareira. “Em 2004, a Sabesp já sabia que deveria diminuir a retirada do Cantareira, baixando dos 30 metros cúbicos por segundo para 24 metros cúbicos por segundo. O que já tinha de ter sido feito era buscar mananciais ou trabalhar a demanda”, comentou na ocasião.

Oficialmente, a Sabesp já informou que a segunda cota do volume morto, que está sendo captada, de acordo com o governo do Estado, há alguns dias (mas a Agência Nacional de Águas garante que a captação sem autorização começou antes disso), é suficiente para garantir o abastecimento até março de 2015. Assim como durante toda a crise, a gestão política do tema recaí, a curto prazo, nas chuvas que estão sendo escassas em 2014.

Mas o que está ruim pode piorar ainda mais. “Se as chuvas forem dentro da média, também no meu cálculo grosseiro, o Cantareira estará pior do que ele estava em março de 2014. Ou seja, se as chuvas forem dentro da média, tudo o que vivemos esse ano, volume morto, falta de água, tempo seco, todos os problemas podem acontecer de novo, com esgotamento das instituições, da paciência das pessoas”, explicou a ambientalista.

Embora o governo estadual tenha solicitado R$ 3,5 bilhões para a presidente Dilma Rousseff, a fim de implementar pelo menos oito obras em favor do sistema hídrico paulista, nenhuma delas teria condições de ficar pronta a curto prazo. Para Marussia, um plano de contingência é urgente, até pelo colapso que se mostra iminente.

Ainda na CPI da Sabesp, o engenheiro sanitarista e integrante do comitê de Bacias do Alto Tietê José Roberto Kachel dos Santos, que trabalhou na Sabesp durante 34 anos, concordou com a análise da colega e, assim como disse há algumas semanas o presidente da ANA Vicente Andreu, garantiu que só um dilúvio salva São Paulo de um colapso no abastecimento.

“Para que se tenham vazões afluentes dentro da média da série histórica precisa chover de duas vezes e meia até três vezes o que vem chovendo, o que equivaleria a um dilúvio. Vejam que ontem (terça-feira) deu uma chuva de uns 40 milímetros e inundou São Paulo inteira, imagine se chover 120, 150 milímetros em um dia o que vai acontecer”, analisou.

CPI pode soltar prévia de relatório ainda este ano

O presidente da CPI da Sabesp, Laércio Benko (PHS), disse que as análises dos especialistas, somadas a outras passagens – como a gravação na qual a presidente da Sabesp, Dilma Pena, admite interferência política na gestão da crise – mostram que “a questão da água ficou a um ‘deus dará’”. “(A água) só (foi) usada como objeto de lucro, como objeto de arrecadação por parte da Sabesp, principalmente incentivando o consumo, incentivando as pessoas a fecharem os seus poços artesianos para comprar mais água do Sistema Cantareira. Então é uma situação que levou ao caos (em) que estamos hoje”, comentou.

Diante do que chamou de “problemas de gestão”, Benko sugeriu que os vereadores podem sugerir em uma prévia do relatório final, a qual pode ser disponibilizada antes do recesso parlamentar de dezembro, que a Prefeitura crie uma agência municipal para acompanhar a gestão da água para a população da capital.

“Deveria ter havido gestão, porque nós tínhamos água abundante há três anos, os reservatórios estavam com 100% da capacidade. Então nós temos que inverter de forma radical o conceito da água, ela não pode ser tratada como produto. Água deve ser tratada como um bem estratégico da sociedade, e muito bem cuidada”, finalizou Benko.

LEIA TAMBÉM

- SP, Rio e Minas firmam acordo preliminar sobre uso do rio Paraíba, mas detalhes só em 2015

- Presidente da ANA e procuradora reclamam do governo, da Sabesp e negam que R$ 3,5 bi resolverão problema

- Após Levy Fidelix, agora é o Consórcio PCJ quem sugere buscar água do mar para abastecer o Cantareira

- Presidente da ANA pede ‘verdade' ao governo Alckmin, que já sabia da chance de problema no abastecimento há anos