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26/11/2014 21:44 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:52 -02

Estupros na USP: Vítima relata abuso e risos de agressor em 2011; alunos mostram manifesto e dizem que há ainda mais casos

NELSON ANTOINE/FRAME/ESTADÃO CONTEÚDO

Mais dois casos de estupro na Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) foram revelados na audiência realizada pela Comissão de Direitos Humanos (CDH), na última terça-feira (25), na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp). Um teria ocorrido em 2011, e outro foi relatado no ano seguinte.

Com esses já são pelo menos dez conhecidos, e todos sendo apurados pelo Ministério Público.

O ocorrido há três anos, embora breve, foi lido durante a sessão por um assistente da comissão e espanta pela desesperança vivida pela vítima. Leia abaixo o relato da vítima de estupro, cujo caso aconteceu em outubro de 2011.

“Estávamos em um grupo de aproximadamente 20 pessoas bebendo em um pub. Depois, fomos beber no porão da FMUSP. Eu perdi o controle e sabia que havia bebido demais. Eu estava com ele, apenas nos beijando. Ele tentava me levar para cantos mais isolados, mas eu estava resistindo e não queria ir, até que ele conseguiu me levar para um sofá.

Lembro-me de falar repetidas vezes que eu não faria nada com ele. E ele falava que não havia problema, afinal, ele já havia transado em um sofá antes. Pergunto-me se fui a primeira a passar isso com ele. Lembro-me até o momento em que ele conseguiu tirar a minha blusa e abrir o meu sutiã. Eu tentava colocar de volta, pois vi que havia pessoas vendo.

Acordei no dia seguinte ao lado dele. Após chegar em casa, notei que havia hematomas em meu abdômen e duas marcas de mordida. Quando lhe perguntei até onde tinha ido, ele respondeu apenas com uma risada. Por vergonha e culpa, nunca contei a ninguém, mas virei fofoca, pois não estávamos exatamente escondidos. Isso ocorreu no dia 11 de outubro de 2011”.

o caso de em 2012 também aconteceu dentro da faculdade, quando um aluno abusou sexualmente de uma colega. A estudante afirma que denunciou o caso à polícia e à direção da FMUSP, mas que a faculdade pouco fez para apurar o caso de forma aprofundada. A aluna acusa o diretor da instituição, José Otávio Costa Auler Junior, de não dar apoio a ela e de não abrir processo administrativo disciplinar específico para o caso de estupro.

Manifesto e críticas

Para os coletivos feministas presentes, os novos casos não surpreendem e mostram apenas uma pequena parcela dos abusos e atrocidades contra os direitos humanos que acontecem não só na FMUSP, mas em outros cursos da universidade.

“Entrei na USP em 2011 e venho atuando no movimento desde então. Não há um mês sem que não soubéssemos de um caso de assédio, de violência e perseguição. É comum receber denúncias (...). Se você é uma vítima, você não tem onde se apoiar, não tem um centro de referência. É muito difícil acreditar que os representantes (da universidade) não saibam que isso aconteça. Não dá para aceitar esse tipo de justificativa”, disse a estudante de Ciências Sociais Letícia Pinho, que integra a Frente Feminista da USP.

Quem também não acredita nas alegações da direção da FMUSP é o Coletivo Feminista Geni, que levou um documento à comissão no qual faz uma série de críticas ao trato dado por Auler Junior ao assunto.

“Quando (o diretor) fala à sociedade que o combate à intolerância e à violência é um trabalho conjunto, mais uma vez (são) palavras jogadas ao vento, porque pelos relatos ouvidos até agora, pela história da vítima que falou em primeira pessoa, o professor Auler não pratica integralmente o que diz, algo que os linguistas chamam de falso performativo”, diz o manifesto (ouça a íntegra da leitura abaixo).

Representante do DCE da USP na audiência, o estudante de Geografia Gabriel Regensteiner disse que as denúncias na FMUSP fizeram com que a entidade estudantil recebesse “várias denúncias de outros cursos” no que diz respeito a abusos sexuais e racismo. Segundo ele, isso demonstra um “problema estrutural, e que não é exclusividade da FMUSP”. Ele não acredita, porém, que pôr fim às festas na universidade, medida já em vigor, irá resolver o problema. As críticas, porém, estão rendendo 'dor de cabeça' ao próprio DCE, como mostra a postagem a seguir.

Phillipe Pessoa, integrante da diretoria da Associação de Pós-Graduandos da capital, destacou que abusos atingem também a área de pós-graduação das universidades. Na condição de relações entre aluno e orientador, acaba ocorrendo uma cultura de desrespeitos “às vezes pior” do que na graduação. “Em geral, há uma hierarquia do professor para o pós-graduando e isso leva a inúmeros casos”, concluiu.

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