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26/11/2014 22:01 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:52 -02

Diretor defende Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto de acusações de estupro e racismo, mas deixa lacunas em aberto

Divulgação/FMUSP

O diretor da Faculdade de Medicina da USP de Ribeirão Preto, Carlos Gilberto Carlotti Júnior, compareceu espontaneamente na audiência da Comissão de Direitos Humanos (CDH) da Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp). Alvo de uma verdadeira sabatina, o representante tentou explicar os casos de estupro e racismo registrados na instituição, mas não conseguiu convencer a todos.

Na segunda semana deste mês, uma música de teor racista e machista, que possui trechos como “preta imunda”, a “morena gostosa” e a “loirinha bunduda”, além de chamar mulheres negras de “crioulas fedorentas”, vazou nas redes sociais. O caso causou grande revolta na comunidade acadêmica e na cidade. Carlotti Júnior diz ter investigado o assunto e tentou explicar o que apurou até aqui.

“Todos os docentes com os quais conversei, todos os alunos, nenhum tinha conhecimento dessa música. É claro que a comissão (criada para apurar internamente o assunto) é quem vai poder apurar isso aí e dizer melhor. Certamente, se você perguntar aos professores da faculdade e mesmo os alunos, ninguém se lembra dessa música, ninguém teve conhecimento dessa música”, afirmou o diretor da faculdade aos jornalistas.

Porém, na mesma entrevista, minutos depois, ele mudou um pouco o discurso. “Especificamente essa música, pela apuração inicial, ela já tem mais de 25 anos que ela foi feita, teoricamente, por um grupo de alunos. Mas ela nunca foi divulgada, não faz parte do ambiente estudantil uma música dessa”, revelou. Durante a sessão, ele apresentou mais detalhes, dizendo que a canção integra uma cartilha da Bateria da Faculdade de Medicina da USP de Ribeirão Preto, a Batesão.

Assim sendo, como algo que integra o ambiente estudantil da faculdade há um quarto de século nunca chegou ao conhecimento da direção? Os deputados da CDH questionaram Carlotti Júnior sobre isso, e ele resumiu o assunto afirmando que “pediu uma cartilha” aos alunos, mas que nunca lhe foi entregue e ele não tem conhecimento das músicas lá contidas. Ele foi instado a obter uma para remeter à comissão da Alesp nas próximas semanas.

Representando o Coletivo Negro USP Ribeirão Preto, a estudante Laura Daltro, do 2º ano de Pedagogia na USP da capital, disse não acreditar na versão do diretor e garantiu que os estudantes que denunciaram o caso de racismo e os de estupro na instituição estão sendo ameaçados por outros alunos. Líderes da Batesão e da Associação Atlética estariam formando uma “lista” com os denunciantes.

“Está tendo uma retaliação muito grande e quando a gente ouve que ninguém sabia dessa música, de teor machista e racista, que ela não é cantada e está há 25 lá, me pergunto: quantos médicos cantaram essa música sim? Como ninguém sabia? Essa é a mais nojenta, mas tem outras canções nessa cartilha com teor machista, racista e homofóbico”, afirmou a estudante. “Queremos a punição dessas pessoas que disseminam o ódio”, completou.

Estupros

Carlotti Júnior explicou que os dois casos de estupro divulgados nesta semana pelo jornal O Estado de S. Paulo, ocorridos na unidade de Ribeirão Preto, só vieram a público por colaboração da própria direção da faculdade. Ele ressaltou que os casos vem sendo investigados “muito antes da imprensa noticiar” e que existe uma série de leis e códigos de ética para punir tais desvios de conduta.

Questionado pela reportagem do Brasil Post se, mesmo com tal legislação, a faculdade não teria tido alguma falha, ele negou de maneira veemente. Disse que as comissões criadas para apurar os abusos sexuais e o racismo possuem um período estimado de 60 dias para investigarem e darem o seu parecer final. Assim sendo, por qual razão os casos de estupro ainda estão em aberto, já que datam de meses atrás? Ele não explicou mais essa incongruência.

Em sua defesa, o diretor disse ainda ter acompanhado uma das vítimas ao hospital e dado toda a assistência. Aos parlamentares, ele deu importância ao trabalho de residência que alunos da faculdade de medicina fazem junto a presos do sistema penitenciário paulista, medida essa do “corpo humanitário” da instituição. Acabou criticado pela estudante do coletivo negro.

“Eu, enquanto mulher negra, fico triste em depender de um serviço público e saber que são esses médicos que podem cuidar de mim, esses que dizem que a minha b... é nojenta, que cantam músicas com esse teor de ódio tão grande contra a população negra. E não significa ir a presídio, ir até lá na residência deles não quer dizer que vão cuidar de maneira diferente. A maioria dos médicos nem olham ou nos tocam, tem nojo em tocar em uma mulher preta”, desabafou Laura.

O diretor da faculdade prometeu seguir colaborando com a CDH e disse que a realização de festas pelos estudantes será reavaliada e, eventualmente, suspensa em Ribeirão Preto.

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