MUNDO
25/11/2014 09:41 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:12 -02

Não indiciamento de policial em caso de assassinato faz violência novamente irromper em Ferguson

Stephen Lam / Reuters

O policial estadunidense Darren Wilson, de 28 anos, acusado de assassinar o adolescente negro Michael Brown, de 18 anos, em Ferguson, no último dia 9 de agosto, não será indiciado pelo crime, decidiu um júri popular formado por 12 pessoas (nove brancos e três negros) na noite desta segunda-feira (24).

O júri tinha a opção de não acusar Wilson por nenhum crime ou decidir que ele seria processado por homicídio involuntário ou assassinato, com sua absolvição ou condenação - e pena - sendo decidida em novo julgamento, que seria marcado posteriormente. A decisão não precisava ser unânime, sendo validada caso fosse aprovada por ao menos nove dos 12 jurados.

O anúncio da decisão, que foi postergado por seis horas para ser feito, desencadeou uma nova onda de violência na cidade, que fica localizada nos arredores de Saint Louis (Missouri). Tão logo ocorreu o anúncio do não indiciamento do policial Darren Wilson, por volta das 2h (0h de Brasília), manifestantes começaram a atirar objetos contra a força policial, aos gritos de “assassinos” e “sem justiça não há paz".

Os manifestantes denunciaram o uso de gás lacrimogêneo e granada de luz, apesar de a polícia do condado de Saint Louis garantir só utilizar “fumaça” dispersar a multidão.

Pelo menos 12 prédios foram incendiados, confrontos entre moradores e policiais foram registrados, inclusive com tiroteios, saques generalizados, e veículos incendiados, contrariando o pedido do presidente Barack Obama, que clamou para que os protestos fossem pacíficos.

“Nós somos um país construído pela vigência da lei e então precisamos aceitar que esta decisão foi tomada por um júri”, afirmou Obama, logo após o veredito do júri. O presidente dos EUA ainda afirmou que apesar de ainda persistirem "diferenças em como a Justiça trata os negros”, os Estados Unidos são “um "país de leis, temos que aceitar a decisão, mesmo quem não concorde".

Primeiro negro a assumir o cargo de presidente do país mais rico do planeta, Obama ao menos admitiu que há uma diferença de tratamento, por parte da polícia, entre criminosos brancos e afrodescendentes. "Sabemos que a situação em Ferguson trata de desafios mais amplos que ainda enfrentamos como nação. O fato permanece que, em muitas partes deste país, uma profunda desconfiança existe entre a polícia e as comunidades de cor”, afirmou.

A família de Brown, em comunicado, afirmou estar "profundamente decepcionada" pela conclusão do júri, que disse não ter encontrado provas suficientes para indiciar o policial, mas pediu que os manifestantes "canalizem sua frustração de maneira a promover uma mudança positiva" e expressem uma opinião "de maneira respeitável e pacífica”.

Era esperado, porém, que a violência irrompesse com força com a decisão da justiça estadunidense. Antes mesmo do anúncio veredito, o governador de Missouri, Jay Nixon, receoso com os protestos violentos que de fato viriam a acontecer, já havia decretado estado de emergência no Estado.

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Algumas horas depois do anúncio da decisão, com a cidade novamente em chamas, o chefe de polícia do Condado de St. Louis, Jon Belmar, afirmou ter ouvido, pessoalmente, cerca de 150 tiros durante a noite de protestos. De acordo com a polícia, pelo menos 61 pessoas foram detidas.

Apesar de Belmar afirmar que os distúrbios terem sido “muito piores” do que as manifestações ocorridas logo após a morte de Brown, em 9 de agosto, ainda não foram registados relatos de ferimentos graves.

Com a nova escalada de violência, Ferguson, cidade de 21 mil habitantes, com 70% da população negra, está em alerta máximo, com o FBI e a Guarda Nacional prontos para intervirem. Foi emitida, também uma restrição temporária de voos para a cidade, por parte do órgão responsável pela aviação nos EUA.

Os protestos, como já era esperado, já não se limitam à cidade de Ferguson, tendo se estendido para grandes metrópoles como Nova York, Chicago, Los Angeles, Washington D.C., Oakland entre outras localidades.

(com Estadão Conteúdo e Reuters)

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