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24/11/2014 11:16 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:52 -02

Romero Britto: "Arte precisa vender, e eu vendo"

Reprodução/Facebook/Romero Britto Fan Page

Ame ou odeie, Romero Britto está por toda parte. De atores de Hollywood à família real dos Emirados Árabes, boa parte do mundo que conhecemos compra suas obras, aparece ao seu lado e celebra seu inconfundível traço. Fora do Brasil desde o fim dos anos 1980, quando se estabeleceu em Miami, onde vive e trabalha até hoje, esse recifense prestes a fazer 51 anos, de baixa estatura e cabelos fartos, tem extrema dificuldade em recordar seu idioma natal. Diz que seu pai era um ladie’s man, que seu carro estava refurbishing e que quis estudar em uma boarding school. Quanto mais os críticos de arte torcem o nariz para seus coloridos trabalhos, mais famoso — e internacional — ele fica.

Romero Francisco da Silva Britto, filho de um policial e de uma dona de casa, ambos falecidos, nasceu em Recife em uma família grande e pobre. Sua mãe engravidou 12 vezes, alguns filhos morreram muito jovens, e Britto foi o penúltimo dos nove que sobreviveram. Sofreu com a violência dos mais velhos e, graças a uma família inglesa que morava perto de sua casa, sonhou na infância em ser diplomata. Já desenhava e queria conhecer o mundo. Fez quatro semestres da faculdade de direito, trancou e foi passar um ano na Europa. Voltou maravilhado com os principais museus do mundo, abandonou a faculdade de vez e, no fim de 1986, foi morar nos Estados Unidos. Lá, fez todo tipo de trabalho, entregou pizza, lavou carros, até que começou a ter uma certa visibilidade como criador e, em 1989, participou de uma campanha internacional da marca de vodca sueca Absolut, o que fez sua carreira deslanchar. Hoje obras suas podem ser vistas em mais de cem países ao redor do planeta. Faz obras por encomenda, que podem custar desde 20 mil dólares até alguns milhões, e tem uma linha de produtos licenciados que vão de quebra-cabeças a perfumadores de ambiente, passando por malas, relógios e bebidas. Ele não confirma nem gosta de falar de dinheiro, mas estima-se que seu faturamento anual seja cerca de 80 milhões de dólares. Em 2011, fez um retrato da presidente Dilma Rousseff e deu a ela de presente, quando foi recebido com pompa no Palácio do Planalto. Em 1988, casou com a norte-americana Cheryl Ann, grávida de Brendan, seu único filho – aos 25 anos, ele trabalha com engenharia de som.

Romero Britto esteve no Brasil este ano na condição de embaixador oficial da Copa do Mundo. Viu apenas dois jogos, o primeiro e o último. Entre um jogo e outro, passou por França, Inglaterra, Estados Unidos, Hong Kong e Xangai. Nossa conversa começou dois dias antes da abertura do Mundial, no hotel paulistano Radisson Faria Lima, onde Britto estava hospedado e que gentilmente cedeu uma de suas suítes para esta Entrevista. Ao longo de quase duas horas, simpático e à vontade, ele comeu uma omelete de claras, tomou um chá de camomila (na ausência de café descafeinado) e falou ao editor Jardel Sebba sem restrições. A segunda sessão só se deu depois de uma longa negociação. As assessoras do artista (são muitas) avisaram que ele não poderia nos atender em uma nova data. O próprio Britto confirmou, ao fim da primeira sessão, que nos receberia novamente. As assessoras, então, pediram para ter acesso às perguntas antes da entrevista, algo inadmissível, que não cederíamos nem a Pablo Picasso (a quem Britto se comparou em três momentos durante a conversa). Ele acabou nos recebendo novamente em São Paulo, no dia seguinte à vitória da Alemanha sobre a Argentina no Maracanã, na Forneria San Paolo, café-restaurante no Shopping JK Iguatemi, o mais elitizado da cidade. Britto havia ido comprar sapatos na loja Dolce & Gabbana, onde foi atendido em uma sala particular, e parecia cansado ao lado do filho Brendan e um amigo dele. Poucos dias depois, embarcou para Alemanha, Lichtenstein e Áustria.

 

Qual é a sua importância na arte contemporânea?

[Risos] Ainda não estou preocupado com isso, porque acho que a história se faz por si própria. Se você perguntasse a artistas como Michelangelo e Da Vinci, eles não imaginavam que a arte deles fosse ter o espaço que tem no mundo atual. Meu papel é de ser artista, de pintar, de criar imagens de esperança, de alegria. É muito difícil você pegar essa arte e predict… Como se diz? Prever o futuro.

Você tem um grande público, mas de alguma forma se ressente de não ser levado tão a sério como artista?

Não. No passado, artistas de quem eu gosto bastante, como Andy Warhol e Picasso, foram mal-entendidos e não tiveram apoio quando estavam construindo suas carreiras. Não estou preocupado com isso. O mais importante é que estou criando arte todo dia e tenho um grande público lá fora me apoiando. Se você não tem um público, um museu não vai fazer uma exposição sua se ela não vai trazer ninguém. Hoje há uma grande crise no mundo artístico. Se você vê o Metropolitan, em Nova York, a maior exposição da história do museu não foi de arte, mas de moda, do Alexander McQueen. Tem museu que faz exposição de motocicleta, porque eles estão precisando de público. Nem todo mundo está interessado em exposição de arte, as pessoas estão mais interessadas em outras coisas. Em eventos esportivos, em moda, em praia, em filme, em outras coisas.

Você se sente mal-entendido?

Não. Não necessariamente pelo grande público, mas por pessoas do mundo das artes. Muitas pessoas têm uma certa tendência artística e acabam não se tornando artistas, mas professores de arte, galeristas ou críticos de arte. Aquela pessoa é como se fosse um artista enrustido, e aí acontece de ela ficar muito assim, “como é que aquela pessoa pode fazer aquilo ali?”. Isso já aconteceu várias vezes na história. No tempo do Amadeus [o compositor austríaco Wolfgang Amadeus Mozart, que viveu no século 18], tinha um cara que era professor dele e tinha a maior inveja do Amadeus, está me entendendo?

Você acredita que o seu sucesso desperta inveja?

Ah, com certeza, causa muita inveja a muita gente. Especialmente a pessoas que queriam fazer o que eu faço, que queriam criar imagens para um público maior. Se eu não fizesse sucesso, ninguém ia saber de mim. Tem muitos artistas lá fora com o maior talento e ninguém fala deles, porque ninguém sabe deles.

Se eu quiser fazer um retrato meu com você, vou ter de desembolsar quanto?

Depende do tamanho. Se você quiser um trabalho pequeno, é uma coisa, pode ser 20 mil dólares, 30 mil dólares.

Aquele retrato que você fez da presidente Dilma e deu a ela de presente em 2011, por exemplo, se fosse feito por encomenda custaria quanto?

Uns 65 mil dólares.

Eles podem chegar a 300 mil dólares?

Sim, porque depende do que você quer que eu coloque lá. Se você quiser que eu coloque ouro, prata, brilhos com diamantes, aí pode sair mais caro.

Qual foi o mais caro que já vendeu?

[Pensativo] Isso depende. Um trabalho em tela deve ter sido isso, 300 mil dólares, não é um teto, porque depende do tamanho e da técnica também. Por exemplo, tenho uma escultura na entrada de Miami Beach que custou 2 milhões de dólares.

Dois milhões?

Mas vender arte cara é uma coisa que às vezes é bom e às vezes não é tão bom para o artista. Porque se você vende uma obra de arte muito cara e o mercado não é muito grande, você vai ficar... Ao mesmo tempo, se você bota a obra mais barata, o que vai acontecer é a mesma coisa que acontece com um país que faz muito sucesso, por exemplo, como os Estados Unidos. Quando a moeda está muito alta, você faz menos negócio.

Isso acontece com você?

Não, isso acontece com outros artistas. Eu sempre tive cuidado para os preços não ficarem muito fora de controle. Porque senão vem o bubble, a bolha quebra e as galerias não conseguem vender a obra de arte. Mas isso não é uma preocupação particular minha, porque tenho coisas que todo mundo pode comprar e meus preços estão muito bons ainda. Eu tenho algo de que todo mundo pode participar.

Você fez um trabalho com o Paulo Coelho ano passado, uma série de desenhos inspirados no livro O Alquimista. Vocês costumam ser comparados por serem dois brasileiros que fazem muito sucesso no exterior, mas que em geral não são tão bem-vistos pela crítica brasileira. Você enxerga esse paralelo entre vocês?

Ano passado, a Folha de S.Paulo disse que eu era o Paulo Coelho das artes. Acho que pelo fato de Paulo ser uma pessoa que tem um imenso sucesso no mundo inteiro, pelo fato de o meu sucesso ser muito maior fora do Brasil. Deve ser isso, não sei.

Mas isso ofende você?

Não me ofende, não. E acho que acontece também pelo fato de o Paulo ter todo tipo de gente apoiando o que ele faz. Acho que poucos artistas podem ter esse privilégio, de ter todo tipo de gente apoiando. Quando você imagina alguns artistas de sucesso que são mostrados em museus, certas vezes é um sucesso muito restrito, muito pequeno. Um círculo pequeno, que não tem a oportunidade de viver coisas como você estar dirigindo numa autoestrada, pagar o pedágio e a pessoa dizer: olha, adoro sua arte! Ou uma pessoa que trabalha em um restaurante dizer: olha, adoro sua arte. Por exemplo, [o bilionário mexicano] Carlos Slim saber da minha arte e ter a minha arte e, ao mesmo tempo, eu estar fazendo um mural lá no Rio, na favela do Jacarezinho, e as crianças saberem do meu trabalho. É uma coisa que vai de um extremo ao outro.

Como é a sua relação com os críticos de arte nos Estados Unidos?

Olha, eu não passo muito tempo com os críticos de arte. Eu conheço pessoas no mundo das artes, pessoas que me apoiam, mas passo mais tempo com colecionadores. Eu sei que tem muitos artistas que passam muito tempo fazendo amizade com jornalistas, críticos de arte etc., mas eu não. Passo meu tempo com as pessoas que colecionam o meu trabalho.

Mas você lê o que escrevem a seu respeito?

Não. O que eu vou fazer? As pessoas escrevem o que elas querem. Durante muito tempo isso me incomodou, ficava chateado, mas no fim das contas não há um livro, nem mesmo um capítulo nos livros, dedicado aos críticos de arte. Não tem, nem mesmo o Clement Greenberg, que foi o maior crítico de arte dos Estados Unidos. Eu sei dele, mas se você perguntar a qualquer pessoa quem é, ninguém sabe. As pessoas sabem quem é Snoop Dogg, Shaquille O’Neal, Michael Jordan, Justin Bieber, mas Clement nobody knows. Ninguém o conhece, a não ser algumas pessoas muito do mundo das artes. Ele foi o cara que falou pela primeira vez aquela expressão que se usa até hoje, avant-garde. E era até um cara interessante do mundo das artes, mas não interessante o bastante para ter um capítulo nos livros de história da arte falando dele.

Mas então, até um determinado momento da carreira, você se incomodou com as críticas?

Quando eu era muito mais jovem. Porque, quando você faz uma obra de arte, você está aberto para que as pessoas falem as coisas mais doidas, sem nenhum fundamento, ou simplesmente digam: “Ah, eu não gosto.” [Levemente irritado] Porque, em geral, as pessoas não gostam das coisas novas. Por exemplo, quando Picasso era muito jovem, as pessoas o criticavam, mas hoje elas falam: “Oh, é Picasso”. Qual é o sentido de acompanhar um crítico de arte falando sobre Picasso? Isso não vai mudar nada.

Apesar de não terem espaço nos livros, os críticos de arte não têm um papel fundamental ao comparar, julgar, relativizar, divulgar e estimular o mercado de arte?

Claro que eles têm, mas o que eu acho importante é que, por exemplo, nem tudo o que o crítico acha é aquilo de que um colecionador gosta. Tem pessoas que são muito influenciadas e que acabam se expressando não naquilo que elas gostam e querem. Por que eu comprei isso, se eu gostava daquilo? No fim do dia, o maior crítico de arte é a pessoa que está comprando.

Então para você é mais importante ter público do que ter o respeito dos críticos?

Eu acho. Você pode fazer uma exposição maravilhosa e ter um crítico falando coisas maravilhosas sobre ela, mas nada disso vai garantir que você amanhã vai ter gente batendo à sua porta. Ou você vende, ou você não vende. E eu vendo. E acho isso mais importante. E é importante não só para mim, mas para as galerias de arte também.

Arte então precisa vender?

Precisa. Precisa ser comprada, ser adquirida, ser pendurada na parede pelas pessoas. Senão as galerias não se movimentam.

No Brasil, apareceram recentemente duas brincadeiras que mencionavam você. Uma foi no aplicativo Lulu, no qual mulheres avaliavam homens, e uma das classificações aos rapazes era “É bonitinho mas curte Romero Britto”. Outra foi um óculos imaginário que apagava suas obras do mundo. Esse tipo de coisa ofende ou incomoda você?

Acho interessante minha arte ter alcançado tanto espaço ao ponto de servir a uma pessoa que está querendo lançar uma ideia. Se ela fosse falar de outro artista, não teria tanta atenção, mas falando da minha arte ela vai ter atenção, está me entendendo? Acho que é mais por aí. Se a minha arte não tivesse uma certa importância, eu não seria tão mencionado, não seria um alvo. Porque você não vai falar de alguma coisa que não tem alguma relevância. Como é que as pessoas me dão tanto espaço para criticar? Não tem outro artista que ganhe tanto espaço. Se me dão espaço é porque eu tenho uma importância. Se não tivesse, um jornal ou uma revista não me dariam tanto espaço. Eu acho essas coisas até engraçadas, às vezes.

Você citou ser admirado por Carlos Slim, traçando uma relação entre dinheiro e bom gosto. Faz sentido pensar que, porque Slim é bilionário e gosta do seu trabalho, isso confere qualidade a ele?

Não é só por isso. Ele é um dos maiores colecionadores do mundo, ele tem 65 mil obras de arte. Não sei se você sabe, mas ele abriu no México um dos maiores museus particulares do mundo. Ele tem a maior coleção de Ro­din, ele tem Leonardo Da Vinci, e a minha arte contemporânea também está lá.

Estar no meio dessas obras é um sinal de qualidade?

Não só estar. Mas muitas vezes as pessoas que fazem comentário de uma coisa, elas não têm conhecimento, é um mundo no qual não vivem. Por exemplo, você pode ter uma coleção de arte que vale 1 milhão de dólares, e uma outra pessoa que não coleciona arte, não pode colecionar arte e não conhece, não vive aquilo ali, e vai lá e faz um comentário... Eu ficaria muito infeliz de ter um colecionador que entende bastante de arte, que adora arte, que coleciona arte, que tem artes valiosas e que não gostasse do meu trabalho. Mas uma pessoa que não tem arte, não coleciona arte, não dá apoio à arte e também não dá tempo para mim, por que vou me preocupar? Claro que é importante viver num mundo onde as pessoas possam se expressar também. E é por isso que existe jornal, revista, essas coisas, mas o público é muito maior que isso. O mundo das artes é muito pequeno, e o universo que eu alcanço não abrange só isso, o que é muito mais importante para mim.

O que tem de mais precioso na sua coleção particular?

Eu tenho trabalhos de Roy Lichtenstein, Frank Stella, alguns de Andy Warhol, as artes originais, tenho desenhos de Picasso, Matisse, vários artistas. Tenho cerca de 500 obras de arte, entre artistas mais e menos conhecidos.

Quando a crítica o chama de “ilustrador publicitário” ou de “decorador de quarto infantil”, como você reage?

[Sorri] Olha, o maior momento de um ser humano é quando ele é criança, ele é puro, fala a verdade, não tem más intenções. Várias crianças pediram aos pais que comprassem minha arte, porque gostavam dela, e eles compraram trabalhos de 40, 50, até 100 mil dólares. Para mim é um grande privilégio ter um público infantil. E as pessoas podem falar o que elas quiserem, porque, no fim das contas, eu vou para o meu estúdio, faço a minha arte, e, na minha realidade, não é porque uma pessoa faz um comentário numa revista e num jornal que muito mais gente pensa desse jeito.

E quando o chamam de comercial, isso ofende você?

Não, eu sou um artista que vende bastante. As minhas empresas também vendem bastante e a arte traz muita alegria para muita gente, então isso não é um problema. A gente vive num mundo em que tudo se vende, não há galeria no mundo que esteja dando arte de graça.

Você diz que a alegria é a marca do seu trabalho. Quando você está deprimido, não trabalha?

Não, eu pinto alegria também. É como se fosse para mim uma reflexão, uma terapia.

Qual é a sua relação com a arte brasileira? Quem são os artistas nacionais que você admira?

Gosto muito do trabalho de um artista de Pernambuco que fez muitos murais, o Francisco Brennand. Consequentemente, por gostar do trabalho do Brennand, gosto muito do trabalho do Léger. Ele foi o primeiro artista que comecei a admirar bastante. Gosto muito do colorido da obra do Di Cavalcanti, gosto também do trabalho de Tarsila do Amaral, [Claudio] Tozzi eu acho interessante. Mas não estou muito a par da arte brasileira, deve haver muitos artistas interessantes no Brasil que não conheço. Tem um pernambucano também que é Cícero Dias. Gosto do trabalho da Beatriz Milhazes também, é colorido, bem interessante.

Sente que alguém foi influenciado por você?

Acho que talvez a Beatriz Milhazes, pelo colorido, já que a minha arte é muito colorida.

Falando um pouco da sua história, por que alguns irmãos seus morreram?

Não sei, minha mãe nunca falou muito sobre isso, e eu também nunca perguntei. Por mais que o tempo tenha passado, para uma mãe é sempre complicado falar sobre isso.

Você imagina que isso aconteceu em função de dificuldades financeiras?

Deve ter sido, dificuldades inclusive de relacionamento. Meu pai parecia ser uma pessoa muito complicada.

Você o conheceu bem?

Conheci, mas nunca passei um tempo com ele, não lembro de ter tomado café da manhã, almoçado ou jantado com ele. Ele não morava com a gente, aparecia vez ou outra.

Os nove irmão eram unidos?

Eu era o penúltimo, eu e a minha irmã mais nova éramos os mais jovens, e meus irmãos passavam mais tempo com os amigos deles. A família era grande, então esses irmãos sempre exercitavam poder em cima da gente, era complicado. Sempre me interessei por livros, era mais calmo, mais quieto, está entendendo? Eu gostava de passar meu tempo fazendo desenho, coisas assim. Hoje em dia está melhor, todo mundo é adulto, mas quando você é criança e os outros são adultos…

Acharam um irmão seu, o Baltemar, que era técnico de futebol, e perguntaram a ele se vocês tinham contato. Ele disse que não, porque vocês tinham vidas muito diferentes. Você viu isso?

O que acontece: meu pai teve muitas mulheres, e ele não era irmão do mesmo pai e da mesma mãe. Eu nunca encontrei com ele.

Ele não faz parte dos nove?

Não, meu pai teve várias mulheres, eu devo ter uns 40 irmãos que nem conheço. Meu pai era the ladies man. Ele era um cara grande, branco, olho azul, cabelo vermelho, grande, então eu imagino que ele passava e as mulheres caíam… Baltemar é de outro grupo, de outra mulher.

Seus irmãos prosperaram na vida? Vocês os ajuda financeiramente?

Eu tento ajudar o máximo possível. Eu acho que tenho que dar possibilidades, facilitar, e eu tento. Eu ajudo muitas pessoas, por que não a minha família? Mas acho que também é importante as pessoas se ajudarem. Às vezes eu dou algumas dicas para meus parentes. Acho que as expectativas são muito grandes.

Quando fala em expectativas, eu imagino que você esteja falando de dinheiro.

Expectativas em tudo, atenção, dinheiro, em muita coisa.

Na Recife dos anos 1970, um pai como o seu achava que você era afeminado, que podia se tornar homossexual?

Eu nunca tive uma conversa dessas com o meu pai, não.

Seu pai era um homem violento?

Não, eu nunca fui indisciplinado com o meu pai porque ele nunca estava presente. Minha mãe sim, ela não era violenta, mas era uma pessoa de disciplina, porque precisava. Se ela não fosse uma mulher forte, não funcionaria. Meus irmãos que eram mais violentos, eles que exercitavam, de uma certa maneira, o poder em cima dos menores. Mas isso já passou.

Ficou algum ressentimento?

Às vezes, as marcas ficam, mas aparecem de maneiras diferentes, isso acontece com qualquer pessoa. Especialmente quando você é criança, se acontece uma determinada coisa, algo fica daquilo ali. Mas eu não penso sobre isso.

Passou fome?

Era difícil, complicado. Tinha dias que a gente não tinha algo para comer. Aquela coisa de você não saber o que vai acontecer no dia seguinte.

Antes de querer ser artista, você quis ser diplomata. Por quê?

Fiz amizade com uma família da Inglaterra que morava no começo da nossa rua. A gente morava num extremo e eles no outro, na mesma rua mas em diferentes planetas. O pai desses meus amigos era cônsul-geral da Inglaterra no Nordeste, e ele virou minha inspiração. Comecei a pensar que aquela era a profissão que eu adoraria ter, viajar o mundo, conhecer outros lugares, e assim me interessei em aprender inglês, em conhecer o mundo. Quando criança, eu estava interessado em ver e saber outras coisas por causa desse homem. Eu os adorava, queria que um dia me levassem com eles para a Inglaterra. Eu queria muito estar longe de onde eu estava.

E por isso entrou na faculdade de direito?

Sim, fiz até o quarto semestre, a ideia era ir para o Itamaraty. Mas estava tão infeliz indo para a universidade, eu percebi que não acreditava nas possibilidades para mim aqui como diplomata, como profissional, sabe?

Por quê?

Quanto mais você lê e sabe do que está acontecendo em outros lugares, mais começa a ver a sua realidade, as suas possibilidades e oportunidades, e a se questionar mais. Por isso que é muito mais fácil viver bem espiritualmente, mentalmente, quando você sabe menos. Eu tranquei a faculdade e fui fazer o serviço militar, eu queria fazer. Como tinha essa ideia de ser diplomata, queria servir o país. Fui para o CPOR, que é uma coisa mais da elite do exército. Mas os exercícios eram tão fortes que uma vez eu peguei um resfriado terrível. Eu acabei ficando doente e tive de terminar o serviço militar em outra unidade.

E foi bom para você?

Terminar foi bom para mim, pela disciplina. Aguentar determinadas coisas é interessante para as pessoas jovens. No meu caso, nunca fui uma pessoa indisciplinada. Mas muitos jovens chegam numa certa idade e começam a fazer besteira, então realmente é importante ter um ambiente que discipline.

Você não era esse jovem que estava fazendo bobagem?

Nunca fui.

Não tinha usado drogas, por exemplo?

Nunca usei drogas nem fumei, nem na adolescência. E sempre tive o maior cuidado com as minhas amizades.

E dali decidiu não mais fazer direito?

Aí eu tive a oportunidade de passar um ano na Europa e fui, porque por meio dessa família comprei um ticket, nem consigo imaginar isso hoje, peguei aquele avião que você fica pensando se não vai cair, um avião da [pausadamente] Air Uruguay. Passei quase um ano lá em casas de famílias com as quais eu fiz amizade, que eram da Europa e moravam em Recife.

Como viveu lá?

Por conta dessas pessoas com as quais fiz amizade. Eu passei três meses na Inglaterra, quase quatro meses na Suécia, na casa de uma família, mas eu sempre me fazia mais invisível na casa das pessoas. Lavava o carro delas, cortava a grama, me tornava útil. Trabalhei num restaurante grego em Londres também durante essa estadia. Eu me mantinha trabalhando, e sempre mostrava meus desenhos, minhas coisas.

Você ainda não era um artista nessa época?

Sempre gostei de desenhar, mas nunca imaginei que minha arte fosse me levar a algum lugar. Estava fazendo coisas para mudar minha vida, mas nunca imaginei que o que fosse realmente mudá-la fosse a minha arte.

Quando foi para os Estados Unidos, ficou o tempo todo legal lá?

Legal... Quer dizer, eu estava legal, mas os trabalhos que eu fiz não foram... O jardineiro da minha casa hoje, eu não vou pegar e perguntar qual é a situação dele, eu pago e ele toma conta das coisas dele, você está me entendendo? Quando tem uma pessoa que vai trabalhar na sua casa, não é um contrato que você faz. Quando você contrata uma pessoa para fazer jardinagem na sua casa, ela não está procurando saber de contrato nem nada, não.

Lá você trabalhou em quê?

Trabalhei numa pizzaria, lavei carro, sempre procurei fazer coisas de que gostava. Gosto muito de jardim, sempre gostei de plantas, então fui trabalhar com jardinagem. Eu adoro carro, então fui lavar carro.

 

Você adora carro. É verdade que tem duas Ferraris amarelas na garagem?

Houve um período em que tive três Ferraris na garagem, e ficava me sentindo muito mal, aí este ano eu troquei. Ainda tenho duas Ferraris, uma amarela e uma vermelha, e troquei a outra por um Rolls-Royce Ghost azul. Eu tenho ainda um Mustang 68 amarelo, um Bentley preto e um Range Rover. Minha mulher, a Cheryl, adora o Range Rover. Uma vez deu problema no carro dela, uma Mercedes, e ela pegou o Range Rover e nunca mais largou. Eu adoro carro. Se você quiser me dar um presente, me dê um carro.

Falando em Cheryl, vocês são casados desde 1988. Foi amor à primeira vista?

Não, a gente foi amigo primeiro. Eu a conheci através de amigos, e ela era casada. Ela estava infeliz no casamento, e foi a primeira vez que tive uma pessoa que se interessou tanto por mim quanto eu me interessei por ela. Eu me senti bem com ela, foi muito especial.

Teve outras namoradas antes?

Fui uma pessoa assim, acho que as pessoas nem me notavam, sabe? Então não tive muitos relacionamentos, só uma namorada, em Recife.

Como foi a sua primeira vez?

Eu tinha uns 18 anos, uma coisa assim, foi bem diferente. Foi em Recife. Foi com uma pessoa que os meus irmãos me apresentaram.

E foi bom?

É… Mas acho que, assim, tem sexo e tem sexo com amor. Acho que sexo com amor é melhor.

Você passou a ser muito assediado depois de famoso?

Tem muita gente que fica atrás de mim, é verdade.

Mulheres?

Mulheres, homens, tudo.

Leva cantadas?

Ah, acontece, claro. Mas não sou tão assim também, né? Não acontece comigo o que acontece com Brad Pitt ou Justin Bieber. Mas acontece um pouquinho, devem vir as sobras para mim...

Uma campanha publicitária com a vodca Absolut no anos 80 fez a sua carreira deslanchar. Como pintou esse convite?

Teve um período em que estava procurando um lugar onde pudesse mostrar o que estava fazendo naquela época. Então eu conheci o senhor Mato, um cubano que abriu um espaço muito bonito, era como se fosse uma galeria de arte e vendia móveis de designers, objetos, coisas de casa, arte e decoração juntos. Um dia ele começou a vender a minha arte. Foi aí que começou tudinho. Depois o Mr. Mato abriu uma galeria exclusivamente de arte. Uma vez fui buscar um cheque e ele disse que ia fechá-la, e que se eu quisesse podia ficar lá até o contrato terminar. Fiquei lá cinco anos. Aí parei de fazer outras coisas e comecei a me dedicar completamente àquilo. Lá encontrei uma família, ele era presidente de uma companhia sueca e, por meio dele, conheci o pessoal da Absolut.

Por que a Absolut investiu em você?

A Absolut não era conhecida fora da Suécia. A vodca conhecida é a russa, e eles tiveram a ideia de lançá-la nos Estados Unidos. Eles haviam feito campanhas com artistas, mas o Andy Warhol, por exemplo, era superfamoso, enquanto a vodca ninguém conhecia. Aí eles resolveram fazer o contrário. Quem conhecia Jasper Johns, Keith Haring, Marc Jacobs? A primeira vez em que Jacobs teve uma coisa publicada em revista foi com a Absolut Vodca.

Você bebe Absolut?

Eu gosto. Minhas bebidas preferidas são vodca, tequila e champanhe. Vodca com tonic. Não bebo muito, mas quando vou tomar um drinque, tomo vodca ou tequila.

 

Você ficou amigo de muita gente famosa. Como foi passar a noite em Neverland, o rancho de Michael Jackson?

Eu cresci adorando a música do Michael Jackson, e de repente estava na casa de uma pessoa assim, tão talentosa, tão famosa, tão especial. Um amigo me disse que era amigo dele, que ia falar com ele. Quando falou, descobriu que Michael gostava da minha arte e adoraria me conhecer. Foi quando ele me convidou a primeira vez para ir a Neverland, e depois fez uma festa pra mim. Foi assim.

Lembra das conversas com ele?

Ele falava muito sobre arte, sobre viagens, que gostava de fazer música à noite, de ter animais em Neverland, e que a minha arte trazia alegria e felicidade. Coisas assim.

Você dormiu em Neverland?

Várias vezes, em algumas situações, quando vou me encontrar com certas pessoas, são situações tão legais que eu acabo ficando, como eu não sou de dormir muito... Mas, no dia seguinte, quando abri a janela, estava passando uma das pessoas que tomavam conta dos animais com um elefante. Eu fiquei: “Uau!”

Era um bom comprador também?

Olha, Michael não comprou minha arte, foi uma amizade que a gente teve, o que para mim, como artista, foi muito legal. Uma pessoa como Michael gostar da minha arte, se interessar pelo meu trabalho, ao ponto de oferecer uma festa em Neverland para mim, foi o máximo.

Mas quando Michael Jackson aparece com um quadro seu ou abraçado com você, seus quadros ficam mais caros, não?

Sempre que você tem amizades boas, é sempre bom para você. Ter a amizade e o apoio de alguém especial, isso me faz me sentir muito bem.

Mas o quadro fica mais caro?

Não é que fica caro. Quanto mais coisas boas você bota na sua vida, melhor é.

Mas valoriza, não valoriza?

Valoriza, dá valor, claro. Mas para mim, como pessoa e como artista, é mais do que isso.

Estima-se que seu lucro anual, entre obras e licenciamentos, seja em torno de 80 milhões de dólares. É isso mesmo?

Olha, eu realmente não queria falar de dinheiro.

Mas você não se furta em dizer que gosta de conforto...

[Interrompendo] Eu acho muito importante que as pessoas possam viver uma vida confortável.

Confortável ou com luxo?

Confortável. Eu gosto de coisas luxuosas, gosto de coisas bonitas, mas o luxo não é tudo, o importante é você se sentir bem. Se você puder ter um carro bonito, uma casa bonita, uma roupa legal, por que não?

Se puder ter cinco carros bonitos, melhor ainda?

Se você puder fazer isso com o seu trabalho...

Poder comprar cinco carros de luxo é de alguma forma uma resposta à pobreza na infância?

Não tem esse negócio, não estou dando resposta a ninguém, eu estou vivendo a minha vida. Você vive uma vez só, e se pode fazer uma coisa, e trabalha, é uma pessoa dedicada, teve oportunidade... Tenho um grande privilégio de ter minha arte e de ter pessoas interessadas nela.

Mas em que momento ter cinco carros de luxo na garagem deixa de ser conforto e passa a ser ostentação?

Mas eu uso meus carros, não os cinco de uma vez só, mas eu saio um dia com um, outro dia com outro...

Não há ostentação nisso?

Tu acha?

Não sei, estou perguntando.

[Risos] É um pouco triste se uma pessoa se dá bem e não ajuda ou não se preocupa com as outras. Isso é uma coisa. Ao mesmo tempo em que eu tenho esse privilégio, eu trabalho bastante para esse meu sucesso. E acho que se você tem condição de fazer essas coisas, não é ruim, não. Houve um tempo em que eu me sentia muito mal de ter mais de um carro, hoje sinto que trabalho bastante, e que o meu trabalho dá oportunidade para outras pessoas, para várias famílias. Eu ajudo instituições de caridade. Sou uma pessoa que deu certo e não esquece dos outros.

Outra pessoa famosa com quem você esteve foi a presidente Dilma Rousseff, que o recebeu no Palácio do Planalto em 2011. Você aprova o governo dela?

Para o Brasil, só o fato de ter uma mulher como presidente já é uma grande demonstração de desenvolvimento na área social. Assim como ter tido o governo do presidente Lula, e ter o povo fazendo parte do poder. Não estou muito a par do dia a dia do governo, do que acontece no Brasil. Mas acho que tem sido uma grande mudança ter um partido do povo no poder. Porque sempre teve gente super-rica na presidência do Brasil. Geralmente, no mundo, você só vê gente assim. Hoje tem mudado bastante, mas em geral só teve na história da humanidade pessoas que eram da realeza ou da aristocracia tomando conta e controlando as pessoas. Então, acho que esse período tem sido uma coisa interessante no Brasil.

Um governante ter origem pobre ou ser mulher por si só basta?

Não é que isso basta, mas é muito complicado às vezes as pessoas entenderem. Para uma pessoa que foi para uma escola na Suíça, que vive num outro mundo, entender qual é a necessidade do país, das pessoas. É necessário ter pessoas no governo que tenham boa educação e que entendam do mundo dos negócios, para poder ajudar o país. Mas é importante ter pessoas que entendam a realidade da maior parte do país.

Parte importante do governo Lula está presa, você acompanhou esse processo?

Não acompanhei, mas é uma pena ver pessoas de famílias importantes cometendo grandes erros, e você vê pessoas que vieram do nada cometendo grandes erros também. Você vê os dois extremos, é um grande problema.

Há poucas obras públicas suas no Brasil. Passa também por não querer olhar para o passado?

Não, não é por isso. Eu adoraria fazer mais, mas não vou ficar ligando e pedindo. Um dos estados que mais tem a minha arte é o Rio de Janeiro, o [ex-governador] Sérgio Cabral, um intelectual, sempre se interessou por ela. Meu maior mural no Brasil é no Rio. O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, também gosta da minha arte, sempre foi bem complimentary com o meu trabalho.

 

Você não gosta muito do passado?

[Pensativo] Eu gosto do passado bom. Passado ruim, quem gosta? Tu gosta?

Seu passado foi mais ruim do que bom?

Quando era criança, sim. Tenho lembranças ótimas hoje, mas ninguém gosta do passado, quem é que fica lembrando? Só jornal e revista que gostam de falar da Segunda Guerra Mundial, quem passou por ela não quer lembrar. Jornal, revista e TV falam disso porque fazem dinheiro com o passado.

Quando você vendia trabalhos na rua, já era o seu traço como o conhecemos?

Não. Como não tinha dinheiro para comprar tinta, pintava no jornal com lápis de cera. Mas sempre gostei do colorido. Se você olha meu trabalho, não estou me comparando, mas é como quando você vê um trabalho de Picasso quando jovem e vê algo de outra época.

Falando em Picasso, você causou polêmica ao botar no seu site um texto que comparava a trajetória dele com a sua...

Não é meu aquele texto, é de um crítico da Alemanha, que eu achei interessante. As pessoas que trabalham comigo talvez tenham colocado lá incompleto, sem o crédito. Mas eu fiquei superfeliz com o texto, claro.

Mas você citou Picasso algumas vezes nessa conversa. Você se acha comparável a Picasso como artista?

Eu não me comparo com ninguém. Deixo que as outras pessoas façam isso. Acho que eu seria muito arrogante em dizer isso. Picasso é Picasso, eu sou Romero, Andy Warhol é Andy Warhol. Cada um desses artistas tem o seu tempo e as suas expressões. Eu deixo as comparações para quem tem tempo para fazer isso, o que não é o meu caso.