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22/11/2014 09:51 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:52 -02

Após perder a visão em protesto, fotógrafo Sérgio Silva tenta retomar normalidade e espera pelo fim das balas de borracha

Montagem/Reprodução e Estadão Conteúdo

“Eu não volto para a rua”. A frase é do fotógrafo Sérgio Silva, uma das vítimas do uso equivocado das balas de borracha durante as Jornadas de Junho de 2013, em São Paulo. O artefato disparado por um policial militar, este jamais identificado e punido pela corporação, destruiu não só o olho esquerdo do profissional, mas também toda uma trajetória ligada ao ‘hard news’, que no jargão jornalístico significa estar onde a notícia está, em tempo real.

Silva foi uma das pessoas presentes na audiência pública da última terça-feira (18), organizada pelo Ministério Público Federal (MPF), e que debateu na capital paulista os limites nas manifestações de rua. Para o fotógrafo, maior do que a ferida física, que carregará pelo resto da vida, é a emocional, que o impede de exercer plenamente a profissão que escolheu para si.

“Isso ainda me fere muito. Tenho uma fraqueza grande, psicologicamente falando, porque não consegui acompanhar mais nenhum ato de rua desde então. Não consegui mais ir, ainda é muito difícil ouvir esse barulho, esse estrondo de bomba explodindo. Para mim ainda tem esse efeito psicológico muito forte. Hoje eu digo para você: eu não volto para a rua”, disse à reportagem do Brasil Post.

Além de se fazer ouvir como uma vítima da truculência policial e o mau uso de uma arma tida como ‘não letal’, a bala de borracha, Silva procurou o representante da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo, Eduardo Dias de Souza Ferreira, para entregar-lhe um abaixo assinado com mais de 45 mil assinaturas, no qual é solicitado o fim do uso das balas de borracha em protestos no Estado. O documento já foi entregue no passado ao secretário Fernando Grella, mas ficou sem resposta, de acordo com o fotógrafo.

“Acho que a gente não precisa muito de assinatura. A gente precisaria é de consciência e olhar diretamente no meu olho, na prótese que eu carrego hoje, e entender que esse tipo de arma é violenta”, comentou, afirmando ainda que não recebeu nenhum tipo de indenização por parte do Estado. “Se não houve nem prestação de socorro, imagina isso aí...”.

Quando subiu no palco para falar mais uma vez sobre o seu caso, Silva comoveu os presentes e recebeu apoios, sejam dos movimentos sociais presentes, sejam dos convidados da Defensoria Pública e dos Ministérios Públicos Estadual e Federal. Até mesmo o representante da Secretaria de Segurança prometeu levar ao conhecimento de Grella o caso, mais uma vez, em busca de uma solução melhor do que àquela do inquérito policial, que não apontou responsáveis pelo tiro que tirou a visão do profissional no dia 13 de junho do ano passado.

“Em primeiro lugar a polícia precisa respeitar o que está na Constituição, que é o direito a manifestação. Se ela não respeita, não tem discussão (...). Naquele dia a polícia agiu de maneira errada, repressora e com muita violência”, comentou. Quanto à vida pós-protestos, Silva revelou que segue trabalhando com fotografia, ainda que longe dos riscos das ruas. Uma contribuição sua recente foi com o projeto Piratas Urbanos, de cunho artístico, sem esquecer a tragédia que o acometeu.

Para o fotógrafo que, como ele mesmo disse, “deixou de ficar atrás da notícia para virar notícia”, o único consolo é lutar para que outros não passem pelo mesmo que ele.

“O impacto é difícil lidar com isso, mas eu tento trabalhar da melhor maneira possível para que a gente tente construir algo positivo em relação ao direitos humanos e ao próprio direito de manifestação. Espero que o dia de hoje seja o pontapé inicial para que a gente coloque como pauta principal esse direito que está dentro da nossa democracia. Que esse tipo de repressão com a qual a polícia trabalha nas ruas seja modificada”, concluiu.

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