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14/11/2014 15:38 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:47 -02

Paulo Saldiva, médico responsável pela apuração de casos de abuso sexual na USP, se afasta da universidade

MÁRCIO FERNANDES/ESTADÃO CONTEÚDO

Paulo Saldiva, médico patologista que presidia a comissão responsável pela apuração das denúncias de abuso sexual na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), pediu afastamento da instituição na última quarta-feira (12). Na ocasião, o professor escreveu um post no Facebook em que afirmou: "A falta de uma ação construtiva e pró-ativa da parte de todos nós, professores, fez com que os alunos da FMUSP fossem submetidos a situações inaceitáveis."

 

Apesar do tom ameno no decorrer do texto naquela ocasião, Saldiva — que ocupa o cargo de professor titular na universidade desde 1996 — fez críticas mais duras à instituição em entrevista publicada hoje na Folha de S.Paulo.

"A faculdade [de Medicina da USP] se comportou mal. Houve demora da congregação, ficaram na defensiva [sobre as denúncias de estupro das alunas]. Há uma crise de conduta, de valores. Cansei de engolir sapo", disse o professor.

As denúncias a que Saldiva se refere são similares à de Leandra, aluna da FMUSP que gravou um depoimento para a Ponte.

Durante audiência na Assembleia Legislativa de São Paulo na última quarta-feira, alunos relataram, além de oito casos de violência dentro da USP, a omissão por parte da faculdade na apuração dos casos — as primeiras denúncias surgiram em 2011 e a FMUSP nunca fez averiguação alguma para não danificar a própria imagem. "A faculdade nunca fez nada. Como professor, sinto que falhei, não desempenhei meu papel. Todos os professores deveriam se sentir assim. Isso diz respeito a todos nós", afirmou Saldiva.

De acordo com o patologista, os casos relatados pelos alunos é apenas uma fração do que acontece na FMUSP. Relatório da comissão a ser entregue à congregação da Faculdade de Medicina trará outras denúncias, como "abuso de álcool e de drogas, de assédio moral, de intolerância religiosa e étnica."

Em nota à Folha, a direção da FMUSP disse que "lamenta, mas respeita" a decisão de Saldiva de deixar a instituição. Além disso, afirma que os casos de abuso estão sendo investigados.