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12/11/2014 21:22 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:45 -02

Promotora diz que oito estupros ocorreram na Faculdade de Medicina da USP; instituição anuncia centro de direitos humanos

Reprodução/YouTube

A promotora Paula Figueiredo, da área de Direitos Humanos do Ministério Público Estadual (MPE), está a frente do inquérito que investiga os casos de violência sexual e agressão às mulheres e homossexuais na Faculdade de Medicina da USP (Fmusp). Até o momento, o documento menciona a ocorrência de pelo menos oito estupros nos últimos anos.

“Não são casos pontuais. Desde o início me chamou atenção esse caráter coletivo, essa cultura de violação aos direitos, uma cultura opressora e violenta”, afirmou a promotora. O inquérito, aberto no fim de agosto, aponta ainda que há uma cultura de “abafar” os casos, conforme Paula Figueiredo disse recentemente ao site Ponte, dedicado aos direitos humanos.

Três vítimas de estupro na Fmusp prestaram depoimento durante audiência na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) na última terça-feira (11). Em comum, todas disseram que há uma pressão para que os abusos não sejam denunciados, para não “manchar a imagem da instituição”. Além disso, elas ficaram estigmatizadas na faculdade e os agressores estão impunes.

“É preocupante uma faculdade de Medicina formar esses profissionais, que poderão atender vítimas de violência sexual, apesar de fazerem piadas sobre esses casos e culparem as vítimas”, disse na Alesp a aluna da Fmusp Ana Luiza Pires da Cunha, que integra o Coletivo Feminista Geni, que tem 56 participantes e é um espaço de discussão e acolhimento das vítimas da violência.

A repercussão negativa do caso fez com que a direção da Fmusp viesse a público nesta quarta-feira (12). Segundo nota divulgada pela instituição, será criado um centro de direitos humanos que dará assistência jurídica e psicológica a alunos e alunas que se sentirem vítimas de qualquer tipo de violação, como agressões sexuais, machismo, racismo e homofobia. O grupo estará atuando em até 40 dias, de acordo com a nota, cujo teor também foi divulgado pelo G1.

O comunicado atende parte do objetivo do inquérito que corre no MPE, cuja meta é buscar mecanismos para reforçar, por meio de campanhas, uma mudança de estrutura interna que acabe com este tipo de ocorrência.

Casos assustadores

O inquérito ainda cita dois casos concretos de discriminação contra homossexuais da Faculdade de Direito em festas da Fmusp. Um jovem, que pediu para não ter o nome identificado na reportagem, disse ter sido impedido de entrar em uma ala da festa Carecas no Bosque, que só aceitava casais heterossexuais. Outro rapaz foi expulso da festa pelo mesmo motivo.

A promotora pediu à USP que informasse todas as notícias recebidas nos últimos cinco anos relacionadas à violações sexuais ou discriminações, além de detalhamento dos mecanismos de punição aos casos pela universidade. O inquérito ainda pede informações sobre matérias da grade curricular que envolvam fundamentos de direitos humanos.

Uma das alunas que denunciou nesta terça na Alesp o episódio em que foi estuprada, afirmou que vem recebendo ofensas e ameaças pelas redes sociais.

“Essa escória da Fmusp deveria ser extirpada da humanidade...lixos...essas prostitutas sujas deveriam sumir e ir cursar algo mais condizente com a mentalidade essência delas”, disse um estudante. “Dia de luto para a grande Casa de Arnaldo (...). Vejo punhados de infelizes alunos que não fazem a menor ideia de onde estão, da grandiosidade da Casa em que pisam, querendo minar mais de 100 anos de História”, escreveu uma usuária em sua página pessoal.

Ao site Ponte, uma das vítimas fez um relato detalhado e assustador sobre um dos incidentes de abuso sofrido na Fmusp.

Racismo

Não são apenas incidentes de estupro que maculam o curso de medicina da USP, o mais concorrido do próximo vestibular da Fuvest – com 55 candidatos por vaga. Há ainda um caso de racismo que gerou polêmica e indignação na Faculdade de Medicina da USP Ribeirão Preto, quando uma canção de teor racista e machista acabou sendo incluída no material distribuído a calouros da instituição.

Segundo a promotora Paula Figueiredo, quem quiser ajudar o MPE na apuração de abusos sexuais e de racismo pode encaminhar as suas denúncias para o e-mail inclusaosocial@mpsp.mp.br. O sigilo é garantido pela instituição.

(Com Estadão Conteúdo)

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