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06/11/2014 01:11 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

Al Gore no Brasil: o automóvel é o novo cigarro?

Ricardo Anderáos

Sem forte redução nas emissões de CO2 nas próximas décadas, nossos filhos e netos vão viver em um mundo de pesadelo –é o que está nas entrelinhas do Relatório do Painel do Clima (IPCC) divulgado domingo. Para defender soluções para o problema do aquecimento global, o ex vice-presidente dos EUA, Al Gore, faz esta semana no Rio um workshop do seu Projeto Realidade Climática.

Gore aponta a indústria de petróleo e gás como um dos maiores obstáculos para evitar o caos climático. Um dos slides de sua apresentação, que arrancou risos da plateia, mostra o camelo símbolo de uma famosa marca de cigarros como uma clara mensagem subliminar: o automóvel é o novo cigarro. Em alguns anos, ter um SUV com motor a gasolina pode pegar tão mal quanto fumar em ambientes fechados.

"Enquanto a economia mundial continuar dependente de combustíveis fósseis, seremos pressionados a tomar decisões erradas", disse Gore. Além dele, palestrantes como o deputado federal Alfredo Sirkis, presidente da Comissão de Mudanças Climáticas do Congresso Nacional, defenderam a taxação das emissões de CO2 como passo essencial para evitarmos o caos global.

"Mas não queremos aumento de impostos", esclareceu Sirkis. "A ideia é substituir paulatinamente a renda pelo carbono como lastro da cobrança de impostos". Para tanto será preciso reconhecer, tanto a nível federal quanto nos acordos internacionais, a redução de emissões de carbono como uma unidade de valor financeiro conversível.

O governo brasileiro foi representado no workshop pela Ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, que propagandeou a diminuição do desmatamento na Amazônia a partir de 2004. Como contraponto, o painel com especialistas nacionais dos setores de cana de açúcar, energia eólica e fotovoltaica revelou que o governo Dilma Rousseff planeja investir 25 vezes mais na indústria do petróleo do que em energia limpa nos próximos anos.

Apesar de várias soluções e abordagens positivas apresentadas ao longo do workshop, há momentos em que é difícil acreditar que teremos a sabedoria de adotá-las a tempo. E não apenas porque as recentes eleições, tanto nos EUA quanto no Brasil, vão dar o poder a parlamentares claramente retrógrados em relação à preservação ambiental. A maior dificuldade está na mudança dos hábitos da população.

Como destacou Roberto Kishinami, da NRG, as emissões brasileiras de CO2 podem ser divididas a grosso modo em três partes iguais, causadas por (a) desmatamento, (b) queima de combustíveis fósseis e (c) agropecuária. Como para evitar o caos, segundo o IPCC, temos de reduzir as emissões em 70% até 2050, o Brasil teria apenas 35 anos para parar de desmatar, além de reduzir drasticamente o uso de petróleo e o consumo de carne. Tudo ao mesmo tempo. Parece impossível?

Mas talvez não seja. Como afirmou o professor de geofísica Henry Pollack em uma fala inspirada que arrancou fortes aplausos da plateia, nossas sociedades já fizeram muitas mudanças que, à sua época, também pareceriam impossíveis:

"Acabamos com o trabalho infantil, o que contrariou enormes interesses econômicos, mas parecia o mais correto. Quem na África do Sul, no início dos anos 90, diria que o apartheid acabaria? Quinze anos atrás, a ideia de que o casamento entre pessoas do mesmo sexo seria amplamente aceito nos EUA também parecia absurda. Fizemos todas essas mudanças porque, em algum momento, a maior parte das pessoas se convenceu de que elas eram moralmente corretas. O mesmo vai acontecer com os combustíveis fósseis".

Promovido pelo Projeto Realidade Climática, a instituição criada por Gore e que dividiu o Nobel da Paz 2007 com o próprio IPCC, o workshop está reunindo 750 pessoas que atuam nas mais diversas áreas em 55 países. Seu objetivo é formar líderes no movimento global de conscientização sobre o problema. Já foi ministrado para mais de 7 mil pessoas em 110 países.

O workshop é estruturado ao redor da famosa apresentação de Al Gore que também funcionou como espinha dorsal do filme "Uma Verdade Inconveniente". Seus mantras são os seguintes:

  1. o aquecimento global é causado pelo homem e está acontecendo agora;
  2. para enfrentá-lo é preciso criar um senso de urgência na sociedade;
  3. não há motivo para pânico: é um problema que (ainda) tem solução;
  4. a solução é a adoção de energias renováveis, que além de mais limpas, estimulam a atividade econômica.